HARÉM junho 11, 2011
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Escoltado por quatro eunucos da minha guarda pessoal, abri a grande porta de bronze que dá acesso ao pátio do palácio, onde fica a cálida, aromática e afrodisíaca piscina. Enchi de ar o peito e bradei a plenos pulmões: “Então, minhas gazelas!”. (mais…)
TESOURA DE OURO maio 29, 2011
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Também sou de profissão barbeiro. Ainda menino, aprendi o ofício com meu pai, Quintino Arembepe dos Santos, Tino Arembepe, por quase meio século o maior especialista do “Tesoura de Ouro”. Depois de muitos anos de cabelos, barbas, bigodes, costeletas e cavanhaques bem-cortados e cuidadosamente aparados, meu pai comprou essa barbearia que agora me pertence. Respeitado por fregueses do povo e autoridades, Tino Arembepe era mestre-de-obras, arquiteto, engenheiro, escultor e ourives na arte de embelezar as pessoas pelo trato da barba e dos cabelos. Não embelezava todo mundo, é verdade. Muitos clientes saiam do “Tesoura de Ouro” com a aparência pior do que ao chegar, apesar do serviço caprichado de meu pai; mas aí, a culpa era da Providência, que distribui pelo mundo feições desiguais. Não adianta: se o sujeito é muito feio, corte de cabelo nenhum dá jeito; alguns até ajudam a realçar a feiúra, pelo contraste entre o penteado bonitinho e o rosto desajeitado. Digo por experiência de ofício. (mais…)
MEU PRIMO maio 11, 2011
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Lá em casa todo mundo sempre tratou bem o meu primo, apesar de suas esquisitices. Passava o dia jogando sinuca, bebendo demais e falando da vida dos outros, mais ainda das mulheres casadas. Por causa da língua solta recebeu uma facada, numa briga na feira. Meu primo se curou, mas ficou uma cicatriz bem feia na barriga. A tentativa de morte não segurou sua língua. (mais…)
O Presente de Natal de Papai Noel dezembro 9, 2009
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A menina foi a primeira a ver a cena. Fora com os pais ao shopping center, decorado com uma grande árvore de natal e outros motivos natalinos, comprar, não uma boneca, como faziam as meninas da geração de sua mãe, mas um aparelho celular bacana, desses de última geração que muita gente, mais acostumada ao telefone fixo, não sabe usar direito. Tão logo entrou no shopping, onde planejava comer um desses hambúrgueres duplos, com batatas fritas e refrigerante, se deparou com a confusão formada.
_Painho!Olhe, painho! Tão batendo em Papai Noel.
De fato, o bom velhinho estava caído no chão e recebia pontapés de alguns homens indignados e incentivados por duas mulheres que repetiam: “cachorro”, “safado”. Já sem o gorro vermelho e branco, com a barba postiça pendurada ao pescoço por um elástico e um filete de sangue a escorrer-lhe pelo canto da boca, o homem vestido de Papai Noel tentava proteger a cabeça com as mãos, enquanto recebia uma saraivada de chutes, na barriga, nas costelas, nas pernas e nos braços.
_Filho da puta! – vociferava um agressor.
_Canalha! – rugia outro.
_Tarado! – emendava uma das mulheres que estimulavam à sova.
Uma pequena multidão, entre indiferente e cúmplice, acompanhava o início de um ato que poderia terminar em linchamento. Um ladrão, que entrara no shopping na esperança de engordar o seu Natal, aproveitou a confusão para surrupiar a carteira de cédulas de um senhor de paletó e gravata. No chão, o homem tentava se defender como podia, enquanto suplicava:
_Parem! Eu não fiz nada. Pelo amor de Deus, parem!
Os pontapés prosseguiam. Um homem, espadaúdo e de cabelos grisalhos, espumava:
- Como não fez nada?! Como não fez nada, animal?!
Um rapaz e uma moça tentaram intervir, dizendo que não se devia bater num homem idoso e ainda mais caído e indefeso.
- Bater é pouco – disse um homem calvo, de mãos dadas com uma mulher mais pintada do que uma aquarela – Deviam matar. É pedófilo!
Temendo o tumulto, os pais da menina resolveram voltar para a casa, levando a criança que chorava lamentando o celular adiado.
Devido aos maus-tratos e a idade avançada, Papai Noel poderia ter morrido, não fossem os seguranças do shopping que o salvaram dos agressores e o entregaram à polícia.
_Dizem que é pedófilo e que tentava abusar de uma menininha – informou um dos
seguranças.
_Pedófilo, hein? Deixe com a gente – respondeu um dos policiais.
Foi, então, que o jovem casal que tentou intervir a favor do homem espancado ficou sabendo que um dos agressores, justamente o que espumava pelos cantos da boca, começará a confusão. Chegara ao shopping com a mulher, uma das mulheres que incentivavam as porradas e a filha pequena. A menina ficou encantada com a decoração que remetia à uma lugar distante e frio que vira num desenho animado da televisão. Ao ver o Papai Noel, gordo, bonachão e rodeado de crianças sorridentes, deu uns passinhos indecisos em direção ao bom velhinho. O homem idoso de vermelho estendeu-lhe os braços, soltando um gutural “hohohôôôôô…” . A mãe da menina tirou uma câmera digital da bolsa e colocou a filha no colo de Papai Noel. O velhinho, que até aquele momento era um bom velhinho, alisava, sorridente, a cabeça da garotinha, que batia palmas de contentamento.
Então, sobreveio o desastre.
_Animal! Filho da puta! – gritou o pai da menina e em seguida a tirou do colo de um
Papai Noel atônito.
- O que foi? O que foi, meu bem? – perguntou a mãe da menina.
Já com os olhos injetados de cólera, o pai da criança levantou o bom velhinho do trenó puxado por dois alces de fibra sintética e deu-lhe uma bofetada no rosto, que se contraiu num espasmo.
- Ele estava bolinando minha filhinha. Este corno descarado estava bolinando minha
filhinha. Acusou.
- Tem certeza ? – perguntou a outra mulher que iria estimular a agressão.
- Se tenho? Eu vi. Veja o volume na calça do safado.
- Mas, ele está de bombacha – apontou a funcionária de uma ótica.
_Bombacha é outra bolacha na venta deste miserável. Aliás, bolacha, não, porque, em homem, a gente dá é murro, mesmo – respondeu o papai da menina.
E, de pronto, desferiu um soco no homem que segurava pela gola da casaca vermelha, derrubando-o no chão.
_Tarado!
_Pedófilo!
_Velho safado!
_Depravado!
Os xingamentos vinham de todos os lados. Em seguida, começaram as agressões, só contidas pelos seguranças do shopping.
2
Ainda com os trajes de Papai Noel, ensagüentado, gemendo e mancando, o homem chegou à delegacia de polícia. No trajeto levara umas bordoadas extras, no camburão da PM e ouvira a ameaça de que de madrugada, na cadeia, os policiais lhe arrancariam os ovos para pendurá-los na árvore de Natal clandestina mantida num porão da Casa de Detenção.
O delegado, um jovem advogado recém-nomeado, se recusou a receber um preso com marcas de espancamento, e ordenou que ele fosse submetido ao exame de corpo de delito e, sob escolta policial, encaminhado ao Hospital Geral do Estado.
De posse do nome e endereço do homem, determinou uma diligência policial na casa do suspeito; uma casa simples, em Plataforma, mas muito bem cuidada, para quem mora sozinho e sobrevive de uma pequena aposentadoria, como descobriria mais tarde o delegado. Que, logo, também ficaria sabendo que o Papai Noel do Anti-Cristo, como o chefe do Serviço de Investigação Policial apelidara o homem idoso, era pintor. Não pintor de paredes, como à primeira vista se poderia supor de um homem pobre, mas pintor de quadros, que expunha numa pequena galeria do Pelourinho, para chamar a atenção dos turistas. Entre as pinturas, de um estilo apressado, amadorístico e repetitivo, havia marinas, mulatas de ancas avantajadas, seios fartos e bunda majestosa, sobrados, igrejas e naturezas mortas, uma panorâmica da Feira de São Joaquim, as antigas lavadeiras da Lagoa do Abaeté, os orixás do Dique do Tororó e um quadro que convenceu alguns policiais da culpa do Papai Noel: a estampa de um Menino Jesus pelado e com o pinto celestial à mostra, fazendo pipi nas vestes de Santo Antônio que, impassível, mantém o semblante voltado para o céu. Pronto! Era a prova cabal contra o degenerado, que nem a religião respeitava e passava por cima da mais cara tradição cristã, para se vestir de Papai Noel e satisfazer seus instintos mais baixos. Foi o que pensou a escrivã de polícia, católica praticante que não perdia a missa do domingo.
Não foi o que pensou o delegado, inclinado a acreditar que não havia má fé na pintura sacro-profana,mas, a inequívoca expressão de licença poética manifestada por um artista do povo. Considerou a gravura até realista, pois, não seria bem plausível que, naquela época longínqua, na Galiléia ou em outras paragens bíblicas, muitas crianças andassem peladas, por falta do que vestir, como muitos meninos e meninas do sertão? Também o Menino Jesus não nascera pobre, numa manjedoura e, ainda por cima, com os pais fugindo do infanticídio determinado pelo Rei Herodes?
Após essas elucubrações e, como ninguém, sequer o pai da menina (quem sabe satisfeito com a surra aplicada?) se apresentou para registrar queixa, o delegado decidiu não instaurar inquérito policial. Inocente ou culpado, o homem já tomara as cacetadas dele e porrada dada ninguém tira. Que ficasse em paz e nunca mais fosse se vestir de Papai Noel.
3
Três semanas depois de chegar ao hospital, ele recebeu alta. Neste período, apenas uma pessoa foi visitá-lo. Queria comprar o quadro do Menino Jesus fazendo xixi em Santo Antônio. Acertaram o preço – quatro vezes o valor da aposentadoria do convalescente – e fecharam negócio. Logo em seguida, o paciente foi mandado para casa. Como chegara apenas com os trajes de Papai Noel e, por ora, vestia o camisolão do hospital, pediu à uma enfermeira por quem se afeiçoara e era retribuído na afeição, que comprasse uma calça, uma camisa e sapatos.
Ainda mancando, com a respiração ofegante, em decorrência dos pontapés que levara à altura dos pulmões; o braço direito engessado e um olho com a visão comprometida, deixou o leito hospitalar. Ninguém foi buscá-lo, até porque não tinha ninguém mesmo. Caminhando trôpego pelos corredores do hospital, passou pela sala de enfermagem, com os olhos voltados para o chão. A enfermeira amiga o chamou pelo nome. Ele se virou, prestativo. Muito ocupada com as anotações de um prontuário médico, ela acenou-lhe um adeus. Ele tentou forçar um sorriso, mesmo sabendo que havia perdido alguns dentes frontais. E ela disse, por fim:
_Feliz natal!
MAUSOLÉU EM TUCANO novembro 3, 2009
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I
Tucano é um lugar muito feio. Imagine uma cidadezinha sem graça, socada dentro de um buraco, com gente falando “vôte” por todos os lados. É Tucano. Se ao menos tivesse a plumagem vistosa da ave que lhe empresta o nome…Mas, não tem pluma nenhuma. É um cu pelado. Não recomendo a ninguém que vá para lá de visita.. A bem da verdade, não recomendo que vá nem de passagem. Quem quiser evitar o lugar, é só prosseguir viagem até Euclides da Cunha. Eu mesmo sou vou lá por causa de uns parentes e parente todo mundo sabe como é: reclama se a gente não fizer uma visita, nem que seja uma vez por ano ou a cada dois anos; do contrário somos metidos à besta, senão uma besta completa. (mais…)
CORRIDA setembro 25, 2009
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Quando o ônibus subiu na calçada do Mosteiro de São Bento, olhei instintivamente para trás. A cidade parecia ter sido sacudida por um terremoto. As pessoas corriam estampando na face um medo primitivo. Os velhos, as mulheres e a crianças ficavam para trás e eram pisados pelos homens da retaguarda. Preocupada em salvar a própria pele, nenhuma alma caridosa estendia a mão aos que caíam. Resolvi me refugiar na igreja dos beneditinos, mas, logo na entrada, tive que me abrigar num canto de parede, para não ser levado de roldão por uma extraordinária procissão: puxado pelo padre, com os cabelos em desalinho e a batina esvoaçando ao vento, um séquito de fiéis deixava o templo, em desabalada carreira, como se tentasse escapar de um sítio bombardeado. (mais…)
O DESLIZE agosto 20, 2009
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1
Ninguém respondeu.
— Diiiimaaas!
Afobado e pressuroso como um cãozinho de madame que acaba de ser requestado como um estalo de dedos, o chefe de gabinete abriu a larga porta de madeira enfeitada por um alto relevo representando os orixás.
— Pois, não, excelência.
— Preciso chamar duas vezes, Dimas? — perguntou o governador.
— É que eu…eu estava apertado, excelência….
O governador pigarreou, saboreando o constrangimento do subordinado e o autorizou a sentar-se.
— Então, senhor Dimas, o Salgado já caiu em tentação?
— Ainda não, excelência.
— Como ainda não? — estranhou o governador. — Seis meses de governo e nada?
— O homem parece um santo, excelência.
— Santo?! — duvidou o governador. — Santo?!Só se for do pau oco, senhor Dimas. Não existem santos, mas virtudes mal testadas.
O chefe de gabinete sorriu, amarelo.
— Mas, este parece imune às safadezas do cargo — deixou escapar o subordinado, logo se arrependendo da inconveniência.
— Safadeza?! — reagiu o governador. — Safadeza, senhor Dimas ?! Esta é uma administração séria. Aqui não existe safadeza. Deslize! Deslize, homem de Deus!
— Foi o que eu quis dizer, com a minha pressa. Perdoe a força de expressão. Deslize, sim senhor. O homem parece imune a deslizes.
O governador aquiesceu, satisfeito com a demonstração de magnanimidade diante do funcionário inferior.
— É isso, mesmo, senhor Dimas. Bom achado. Deslize!
— Obrigado. Obrigado, excelência.
— Mas a expressão foi minha — cobrou o governador.
— Sem dúvida. Meritosa, excelência.
O governador fechou os olhos, por alguns instantes, parecendo elocubrar uma saída para aquela situação incômoda. Por fim, quis saber:
— Como não caiu em tentação? Não lhe facilitamos o caminho, cumulando-o de poderes nas licitações?
— Facilitamos, excelência.
— Eu facilitei. Eu facilitei, não se esqueça, senhor Dimas.
— De fato, o senhor facilitou-lhe o caminho, excelência.
— E então, homem de Deus? Porque o Salgado ainda não caiu em tentação?
— Nem tanto. Nem tanto, excelência.
O governador ficou sério, mirou o retrato do seu antecessor, pendurado ao lado do seu próprio quadro em todas as repartições. Aquele, sim, fora seu mestre. Porém, livre das primeiras e decisivas influências, ele seguiu, de vento em popa, carreira solo. Hoje, em nada devia ao professor, aprendera a lição de política e procurava cortar os passos de qualquer outro que lhe ameaçasse a carreira. Afinal, era sempre fácil criar um escândalo nos jornais e afastar o enxerido do caminho.
— Olha, Dimas — disse, saindo do enlevo ególatra. — O Salgado tem que cair em tentação, sim. Você sabe que o segredo do nosso poder é formar bons quadros técnicos e deixar que cometam deslizes, até certo limite. Assim, todos ficam em nossas mãos, manietados, amarrados como cordeirinhos. O segredo é este: permita que deslizem, feche os olhos para as pequenas faltas e eles, pombos manipuláveis, comem na palma da mão. Portanto, temos que instigar a cobiça do Salgado. Sabe como? Sabe como, Dimas?
— Não, excelência. Rogo que me diga, excelência.
O governador demorou de responder, saboreando sua sapiência. O subalterno aguardava em gotejante expectativa.
— Simples. Muito simples, senhor Dimas. Aumentemos o poder dele e frouxemos a fiscalização. Com mais dinheiro em jogo, cairá em tentação. Logo veremos, logo veremos, senhor Dimas.
— Perfeito, governador.
— Excelência…
— Desculpe. Perfeito, genial, excelência!
Charlotte Sizemore junho 18, 2009
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CHARLOTTE SIZEMORE
Elieser Cesar
Enfim, tenho a bela Charlotte Sizemore completamente subjugada aos meus pés, mas não sei o que fazer com ela. Poderia levantá-la daquela posição letárgica – o vestido branco da festa, os cabelos negros e anelados, o cinzeiro cheio de bagas de cigarro sobre o assoalho branco – e possuí-la, brutalmente, aqui mesmo. Seria uma esplêndida vingança contra quem sempre me desprezou. Poderia suspendê-la, suavemente e conduzi-la, semi-embriagada (ela bebera muita champanha) até a cama, onde consumaria o antigo desejo.
Olhando-a, como se fosse a fantástica imagem de um velho filme , me dei conta de que ela poderia estar morta, e desejei, intensamente, que a impetuosa Charlotte tivesse, de fato, morrido no esplendor da beleza e da juventude, vítima de uma dessas overdoses que sucedem em festas de grã-finos. Mas, ela respirava e os olhos vítreos pareciam perscrutar o inescrutável.
Morta, me libertaria da dúvida atroz: o que fazer com Charlotte Sizimore, completamente indefesa, aos meus pés? Porém, ela está bem viva e fascinante, exibindo o nariz arrebitado, a rosa rubra dos lábios sensuais, abraçando-se a si mesma, como num gesto de solidão e desamparo. O cheiro de álcool e cigarro impregnava o ambiente com o mesmo odor abafado de um salão de jazz abarrotado.
Era uma sensação tão real que tive a impressão de ouvir o distante lamento de uma clarineta. Com os meus sapatos pretos, impecáveis, bem que poderia pisar os cabelos de Charlotte, até ela soltar um gemido de dor e suplicar: “Bruto, cafajeste, me larga!”. Faria isso, para me sentir supremo no altar rasteiro de uma deusa decaída. Contudo, ainda permaneço imóvel, admirando a inacreditável mulher subjugada aos meus pés.
Não pensem que foi fácil chegar ao ponto em que a antes inacessível Charlotte não pode mais me desprezar. Sem nenhum escrúpulo e apenas com a coragem suicida, fui subindo na organização. A parte mais difícil foi me livrar de Teddy O’Brien, senhor pleno da lânguida Charlotte. Claro que devia muito a Teddy. Acho que até a minha vida. Fui ganhando a confiança dele executando os trabalhos sujos.
O primeiro foi livrar Teddy de Henry Lo Prote, o impiedoso Henry, seu sócio e braço direito, vítima da mesma impiedade que tanto praticara. Depois foi a vez, de tirar de cena um senador corrupto, pródigo em mamar nas tetas clandestinas da organização. O último e decisivo passo foi me descartar do próprio Teddy. Pobre Teddy O’Brien, crente de que seria uma festa de reconciliação com a sua adorável Charlotte e já esfriando na adega! Agora, eu dou as cartas.
Charlotte Sizemore não pode mais me rejeitar, não vai querer voltar à vidinha sem graça de antes. Agora, a deslumbrante Charlotte Sizemore está deitada no chão, subjugada aos meus pés, mas eu não sei o que fazer com ela. Por fim, depois de longa hesitação me aproximo. Volúvel Charlotte!
Ela pisca os olhos e me recebe com um sorriso acolhedor. Então, dou um chute no cinzeiro, espalhando as bagas de cigarro pelo assoalho e recuo, pronto para me livrar do corpo, ainda quente, de Teddy O’Brien, que nunca mais poderá ter Charlotte Sizemore, subjugada aos seus pés.



