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Rádio Jabá FM – Uma comédia baiana abril 28, 2009

Posted by eliesercesar in Literatura, Prosa.
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RÁDIO JABÁ FM

Uma comédia baiana

digitalizar0002

ilustração: AFOBA

Personagens

  • Locutor
  • Camila Melo – repórter
  • Florisbela de Paulo – repórter
  • Toinho Zoião – eletricista
  • Albertinho Lisura – deputado federal
  • Edilberto Grill – músico
  • Delícia Faber – promoter
  • Texugo Chaves – Chefe de Estado latino-americano
  • Nilda Funk – sexóloga
  • Walmir Xícara – político
  • Dona Mamãe – eterna candidato a um cargo eletivo
  • Barack Obama – candidato a vereador
  • Escrachete do Brasil – vereador e dançarino
  • Gelcimar Toucinho – médico e cientista

PROGRAMA 1

O cenário é um estúdio de rádio. O locutor está ao microfone. Ouve-se a vinheta, numa voz feminina, com a mesma modulação dos anúncios de aeroporto: Jabá FM, a rádio que não se vende.

Locutor (com a voz empostada): Bom dia, ouvintes da Jabá FM, a rádio que não se vende. Em especial aos nossos patrocinadores e àqueles que acompanham a nossa programação, que começa, hoje, com um brinde especial, do programa Aposte nesta música: o samba-reggae As cadeiras da nega, do nosso Paulinho Molejo, que promete bombar no próximo verão, numa promoção das Lojas do Som, a preferida do deputado Albertinho Lisura. Som na caixa! (Ouve:se a música):

Me deixa sentar nas cadeiras da nega,

me deixa, sentar, nas cadeiras da nega.

Nas cadeiras da nega, quero descansar,

nas cadeiras da nega, vê o sol brilhar;

deixar meu suor, nas cadeiras da nega,

nas cadeiras da nega, vê o mar se agitar.

Nas cadeiras da nega, quero navegar,

quero me embalar, nas cadeiras da nega.

Nas cadeiras da nega,

nas cadeiras da nega,

quero só balançar.

Locutor (entusiasmado): Beleeeeza!! Beleeeza de Creuza do Sinjorba!. Poesia pura, pra você, ouvinte da Jabá FM.

(Com uma folha de papel ofício na mãa): Agora, a Rádio Jabá, a emissora que sempre bota sua música para tocar, abre espaço para a notícia.

Bodas Arrochadas

A cantora Soninha Viagra anunciou seu casamento com o empresário Osvaldo Trigueiro, 40 anos mais velho que ela. As bodas serão celebradas, no próximo dia 25, na Igreja do Bonfim. A recepção aos convidados será na cobertura da mansão do noivo, com vistas para a Baía de Todos os Santos. Soninha vai presentear os convidados com o seu novo DVD, Paraíso do Arrocha.

As Lojas Imperiais promovem um grande queima de estoque, na próxima semana, oferecendo eletrodomésticos até pela metade do preço dos concorrentes. É ver pra crer.

Herodes na Bahia

O renomado pediatra Herodes Rodrigues passa as férias em Salvador, em companhia de uma conhecida beldade da teledramaturgia brasileira.

(Colocando o som na caixa): Para o Apetite Musical da semana, a Rádio Jabá FM, toca, agora, a música Agarradinho, no duo inigualável de Silas Capenga e Nildes de Brito.

Agarradinho é como

eu quero estar com você.

Agarradinho,

bem de mansinho.

Agarradinho,

no seu corpinho.

Agarradinho,

com seu carinho.

Tudo o que eu quero

é estar com você,

Agarradinho.

Esquecido de tudo,

No nosso mundinho.

Agarradinho,

Até o fim,

Agarradinho.

Locutor: Que letra magnífica para os corações românticos.

(Com solenidade): Nosso programa de hoje recebe traz uma entrevista com o grande Edilberto Grill.

(Entra Edilberto Grill, um senhor negro, com tranças de rastafari, uma bata colorida, calça de flanela, sandálias de couroe um violão a tiracolo).

Locutor: Bom dia, Grill e aí, beleza?

Ediberto Grill (com voz manemolente): Beleza!

Locutor: De Creuza?

Edilberto Grill: De Creuza e Pureza.

Locutor: De Creuza do Sinjorba?

Edilberto Grill: De Creuza do Sinjorba, gente boa, como toda menina baiana.

Locutor:Grill…

Edilberto Grill: Oxente, menino, fale…

Locutor: E a corrupção?

Edilberto Grill: O que é que tem?

Locutor: A propina, Grill, todo mundo cobra neste país?

Edilberto Griil (tirando a mão do queixo, após breve reflexão): Veja bem. A corrupção deve ser vista sob o prisma cristalino do contexto mais amplificado da globalização dos costumes. Não podemos tratá:la ao reboque da escala reducionista dos fenômenos isolados. Ela pode ser tanto o semblante que não se mostra, como a alma manifesta de um traço deletério de uma parte apodrecida da nacionalidade..

Locutor (boquiaberto): Ave Maria!

Edilberto Grill (torrencial): …uma constante exponencial ou uma exponência constante, a depender do ponto de vista ontológico-matemático. E, se for, aritmético, quem vai pagar as contas dos nove? O povo sofrido.

Locutor (com a cara de quem não entende patavinas): Grill se explique melhor.

Edilberto Grill (radiante): Bem, o que eu quero dizer é a corrupção deve ser combatida como um fenômeno endo-exôgeno.

Locutor: Homossexual?

Edilberto Grill: Não, algo que vem de dentro para fora e de fora para dentro.

Locutor: Então é boiolagem mesmo.

Edilberto Grill (didático): Não é. Ou seja: a corrupção foi transplantada pra cá, pelos colonizadores portugueses, reciclada pelos políticos locais, devolvida aos lusos e reimportada pela globalização.

Locutor (Com entusiasmo) : Agora você falou tudo.

Edilberto Grill – (Num jorro): É preciso uma reação irmanada com os procedimentos éticos sempiternos para escamotear, definitivamente, este mal das malhas e dos interstícios das nossas esferas públicas e também dos compartimentos privados da micro e da macroeconomia.

Locutor (siderado) : Falou bonito, Grill!Obrigado pela verdadeira lição de educação moral e cívica.

Edilberto Grill (sorriso aberto, de uma orelha a outra) : Nada, meu nego.

Locutor: Griil, pra encerrar cante uma música para os ouvintes da Jabá FM, a rádio que não se vende.

Edilberto Griil (tocando violão e cantando):

Andar a pé eu vou,

que a perna não costuma faiá

Andar a pé eu vou,

que a perna não costuma faiá.

Locutor: Valeu Grill, valeu, papo cabeça! (Encerrando o programa): Atenção galera que escuta a Jabá FM porque sua música vai bombar.

 

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Comentários»

1. Gabriela de Paula - abril 29, 2009

O que mais posso dizer, depois de dito tudo que foi? Sabe que sou ouvinte assídua da Jabá, que muitas gargalhadas já me rendeu nos turnos sectianos vespertinos. Vamos nessa! Salve, César!

eliesercesar - maio 6, 2009

Enfim, Gabriela, a Jabá – a única que não se vende – tá no ar. Com rima, sua eclética programação e tudo.

2. Antonio Carlos L. Santos - maio 4, 2009

Caro Elieser,
A sua modéstia, felizmente, não ofusca o seu privilegiado talento. Portanto, precisamos de mais. De mais obras suas. Este rico blog vai nos permitir conhecer cada vez mais os frutos da sua inteligência, da sua arte.
Com admiração
Toinho do violão pequeno (sem estar “nervoso”, porque este gratificante blog me “acalmou”)

3. eliesercesar - maio 6, 2009

Toinho, seu violão pode ser pequeno, mas o coração tem o tamanho de um violino.


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