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Dobram os Sinos para Lourdes abril 30, 2009

Posted by eliesercesar in Poesia.
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ilustracao-de-lourdes

dobram, cientes, os sinos.

LOURDES

 

In memoriam de minha mãe,

 

Maria de Lourdes Aleixo César

 

 

Ao amigo Valdomiro Santana,

com a gratidão de quem soube acolher as valiosas sugestões.

 

 

 Nada direi ao morto e sepultado.

Qual o valor dos epitáfios

e dobrar de sinos

se o nosso tanto gostar

não lhe impediu a morte?

 

( A Walter da Silveira, de Carlos Sampaio)

 

 

 

Eu rufo e bato os tambores pelos mortos

 

 

Walt Whitman

 

 

 

 

 

 I

 

Perto do Natal , a morte levou o seu quinhão,

um breve sopro do vendaval do mundo carregou;

não trovejou dentro de mim,

não correspondeu ao amanhecer os mortos,

silenciosa sombra na floresta.

 

II

 

Quando menina, roupa de chita,

envolta nos primeiros sonhos,

correndo nas areias do sertão (pasto de almas),

cuidando dos irmãos,

tinhas boneca. Gangorra no quintal?

Poderias imaginar o último leito

e a companhia dos moribundos?

 

Que (dos netos) não verias idade adulta?

Nem a têmpora grisalha do caçula,

prolongamento simples de uma vida simples.

Casamentos desfeitos,

o triunfo dos amores insatisfeitos,

oceano revolto da vida

em ondas engolfado,

a vida revolta, tragada em círculos,

poderias, tudo isso, imaginar?

Nos lábios muito finos,

o riso encabulado das mocinhas dos 40,

isso poderias imaginar?

 

 

 

 

 

 

III

 

Quando casada e à espera do filho,

que dor sucumbirias,

a quem verias, às dores, sucumbir?

 

Quando, num sinal, abriu e fechou-se

 

o

 

a

b

i

s

m

o,

entre a vida e a passagem da vida,

que planos, que projetos acalentavas?

Percebestes a luz da vida se apagar

na chama da memória inviolada?

 

IV

 

Quando rindo entre os teus,

no esplendor da juventude,

poderias imaginar o ardil,

a mão do tempo,

a renegar seus protegidos?

 

 

V

 

Ao beijo sucedem

anos de tédio e desamparo.

Também foi assim contigo ?

 

VI

 

Que linhas traçastes com o primeiro lápis?

Como usaste o papel, branco oceano das palavras?

Ante o encanto dos teus olhos,

quer melodia, que desenho mágico,

brotaram dos dedos da menina?

 

VII

 

O mar, nos olhos da menina

(“que açude enorme;

dá prum monte de boi beber”),

cobriu de azul, de algas e corais, sua fantasia,

espalhou espumas, ondas, murmúrios,

o mesmo mar nos olhos da menina,

agora, praias vazias.

 

VIII

 

Da jovem em perfume renovada,

à idade em vinagre afogada,

notaste as primeiras rugas?

Somente rugas ou também

o sangue velho vicejado,

rosa murcha destroçada num machado?

 

IX

 

Da morte do companheiro,

brotou o instante definitivo

entre o começo da vida

e a vida saturada?

 

X

 

Agora, os olhos!

Os olhos de saudade do menino

(antigo e mais presente),

que busca na cozinha a imagem

de perdidos utensílios e perdidas sensações;

a comida simples,

com simplicidade temperada,

agora só lembrança.

 

Bom mesmo é jamais saber o que se perde.

 

XI

 

Na falta de sabor do mundo,

qual o gosta da ameixa,

ressequida pelo paladar da morte?

 

Não importa para qual destinavas

o olhar mais terno e orgulhoso.

De nada valem preferências,

no vale em que os mortos ouvem, recordam

e já não podem escolher.

 

XII

 

Na península de um sábado à luz do mar,

na prodigiosa luminosidade do mar,

não pensei que fossem, os sinos

(naquele sol), dobrar por ti.

Mas, na plenitude do mar,

justo na espuma da cerveja,

entre os lábios e a notícia,

já dobravam, cientes,

 

os sinos.

 

XIII

 

Dobram, os sinos, também para a menina,

cobrindo de encanto e fantasia

o indigesto coração da terra.

 

XIV

 

Na noite brumosa da noite,

conservas a brisa do tempo

em que corrias pelos campos

e, no peito, começaste a carregar a estrela Sírius?

Presente do avô, a estrela Sírius,

o melhor brinquedo no vasto céu do teu olhar.

 

Mas, como é minha, vô,

a estrela Sírius, se não posso pegar?”.

Posso pegar meu pensamento, Lourdes?

A estrela Sírius é só meu pensamento

enfeitando o céu para você”.

 

XV

 

O que o circo deu a menina?

Somente risos, o medo das feras

ou a desilusão nos olhos do palhaço?

O que o circo deu a mulher?

Outra vez a lona gasta da infância?

O picadeiro dos sonhos destroçados?

A ribalta do riso esgotado?

 

XVI

 

Na fria ansiedade de torres e campanários,

há muito esperam, os sinos,

para dobrar pela estrela Sírius,

teimosa em não se apagar,

como uma lua ao clarão do sol,

ou o dia em que os olhos se abrirem

à insuperável devastão da morte.

 

XVII

 

A vida é apenas dias gastos,

para sempre renovados

e gastos.

 

XVIII

 

É do tempo estragar sabedorias.

Só os olhos da criança paralisam o tempo.

Nos olhos da criança,

o tempo é um suave bailado,

o inofensivo vaivém,

o manso bumerangue dos ventos.

 

XIX

 

Cada ser carrega a dor do mundo, Lourdes.

Cada um embala a própria dor,

como uma criança batizada por demônios

ou um diabo que perdeu sua maldade.

 

XX

 

A consciência do tempo é o envelhecer dos dias,

lagos traiçoeiros,

estuários de incertezas,

maré vazante e de vida encharcada.

 

XXI

 

Fluente como um rio,

um outro evangelho me será bem-vindo.

 

O novo catecismo não virá.

Nem Messias algum.

 

Ò real serenidade!

 

A morte fecha dos evangelhos.

 

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Comentários»

1. Georgio Rios - maio 17, 2009

Caro Elieser,uma chuva lírica permeia estes versos.E é sem dúvidas o sentimento que nos resta quando deixamos nossos mortos..

eliesercesar - maio 17, 2009

Pois, é Georgio, chove, rios, na alma.

eliesercesar - maio 17, 2009

Corrigindo; Poís, é George, chovem, rios na alma.

2. Mayrant Gallo - dezembro 19, 2013

Um belo poema, Elieser. Não deixe de incluí-lo no seu próximo livro. Precisamos relê-lo para revivê-lo ainda mais, é a leitura em papel é única e insubstituível. Congratulações!


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