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Ode à Uva maio 7, 2009

Posted by eliesercesar in Poesia.
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ODE Á UVA

Chian Choo*

 

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 I

 

Ò, toucinho da minha obsessão,

Úmida e enxuta,

Latitudinal imensidão;

Por ti – imemorial pelanca – caíram reis,

Ruíram impérios, vidas e esperanças.

Em teu nome, os mais justos

Cometeram crimes e horrores,

Desabaram-se condutas

E evolaram-se os mais sólidos amores.

 

                   II

 

Que salgada mágica tens

Em teus falsos pudores?

Com que química diabólica

Mudas todos os meus humores?

De onde tiras todo esse poder,

Muco intenso e desejada carne?

Onde encontras tanta majestade,

Ò, rosa rubra pelo homem espoliada?

 

 

                    III

 

Parte perseguida da maçã,

Pêra dos desejos mais recônditos;

Sem ti, ò feiabela,

Partiria em holocausto,

O meu nobre coração de baixo.

 

                   

 

 

                           IV

 

Também carrego o seu cheiro

E inevitável cio.

Vem, desce nessa tarde, sobre mim,

Como estrela aberta

Que fechou as minhas dores.

 

 

 

                            V 

E, se (na vida) só mais algo desejasse,

Haveria de querer-te,

Como alguém que não aceita outros jantares.

Vem se aninha sob mim,

Ò pêssego eterno,

Última e definitiva uva.

 

 

* Poeta da Dinastia Ming, Chian Choo foi considerado a maior expressão da poesia erótica do seu tempo. Ainda hoje, é muito lido e venerado no oriente.

 

 

 

 

 

                       O FRUTO DA DISCÓRDIA

 

                            Breve apreciação do poema Ode à uva

 

                        José Alfredo da Cunha*

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Não entende nada de poesia – melhor ainda: ignora redondamente a motivação poética – quem atribui intenção obscena ao poema “Ode à Uva”, do venerando Chiang Choo. Não pode ser pornográfico (ainda que libidinoso seja), um poema que apregoa, com fervor devoto, a parte mais desejada da mulher. Sim, Chiang Choo, em êxtase carnaval, a chama de “toucinho”:

 

                                              Ò, toucinho da minha obsessão…

 

“Mas, toucinho?!”, vociferam, indignados, os pudicos. “Logo toucinho?!”, reverberam, incrédulas, as feministas. “Que mau gosto!”, concordam ambos. Mau gosto? Pergunto eu. Onde? No toucinho da obsessão do poeta? Que imagem melhor do que um adiposo toucinho para essa uva  de Chiang Choo, despida de seus pelos pubianos (ou, como diz o vulgo), raspada mesmo? Se esse toucinho é uma obsessão do poeta, estamos diante de um problema de libido, não de poética, pois há poesia da mais alta densidade nessa “Ode à Uva”. Como no verso:

                                    Ò, rosa rubra pelo homem espoliada

Temos, aqui, um lamento da condição da mulher (longe ainda de ser um problema isolado), como mero objeto de prazer sexual; o reconhecimento da opressão e da exploração do chamado sexo frágil, reconhecimento discreto, como convém a um autêntico poeta, sem o estardalhaço semi-histérico dos manifestos comprometidos com o politicamente correto. É uma  voz forte denunciando, com serenidade oriental, o fast-food (já naquela época remota) das transações do corpo.

Agora, o trecho mais polêmico da ode, o verso que, através dos séculos, vêm granjeando ardorosos defensores e detratores intransigentes:

                                      Por ti – imemorial pelanca…!

Comparar a zona erógena mais sensível das mulheres (pelo menos as ditas normais), a um nervo pênsil exige, de fato, muita coragem criadora. Entretanto, me antecipo aos pudicos e às feministas e volto a perguntar: onde o mau gosto?  A imagem da pelanca (imemorial, contemporânea ou não) vem mesmo à mente, ao ler o verso. Temos, aqui, aquilo que Ítalo Calvino, em suas “Seis propostas para o próximo milênio”, chamou de “visibilidade”, a faculdade de se visualizar um texto escrito, através das imagens.  O resto é tentativa kitsch de encobrir, com o véu cosmético da hipocrisia, a imemorial pelanca celebrada por Chiang Choo, em sua lúbrica obsessão.

Faço um brinde ao magistral poeta de ‘Ode à Uva”, que nos legou também a beleza celestial desses versos:

                        Vem, dessa nesse tarde, sobre mim

                        Como estrela aberta

                        Que fechou as minhas dores.

As dores  do parto, as dores do mundo; a dor, incorrigível, da poesia.

     

  

* João Alfredo da Cunha é juiz de direito (aposentado) e crítico literário.

 

 

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Comentários»

1. Iva Maria Oliveira Vianna - maio 15, 2015

ODE A UVA!
EXCELENTE ! Poesia ,que reverencia á mulher,linda senti-me Lisongeada! Parabéns poeta.Eliéser César, ama mesmo a Mulher!
grata iva vianna.


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