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Resenha Crítica junho 1, 2009

Posted by eliesercesar in Artigos.
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LUARAL, DE GLÁUCIA LEMOS
Manuel Anastácio7058sol


A boa vontade com que tenho sido agraciado do outro lado do Oceano (e do hemisfério) fez-me chegar, de novo, à caixa de correio, um livro que a Gláucia, generosa como a lua cheia, me ofereceu. Não é uma obra recente, recentíssima. Vem já do virar do século, quando a superstição do Milênio fez passar pela boca de todos, de forma irônica ou crédula, a aproximação do Fim do Mundo. E este livro, um romance com a extensão de uma novela, é sobre o Fim do Mundo. Mas também sobre o Princípio. Primeiro, fiquei com a impressão de que estaria a ler um pequeno Silmarillion, um pequeno poema genesíaco. E não me afastaria muito da verdade, se o livro não se estendesse até ao fim, e até ao lado de lá do fim, naquele lugar onde as Atlântidas, os Shangri-las, as Utopias, as Terras Médias e as Terras do Nunca permanecem reais e tangíveis, quase mapeáveis, mas absolutamente acessíveis e necessárias a quem as procura. A criação repetida de mundos de fantasia reside na mesma necessidade, que atravessa os séculos e os milênios da existência humana, de criar poesia, isto é, de recriar através de meios expressivos, uma imitação da realidade que a transfigura de modo a aproximar-se dos nossos anseios e das nossas frustrações, mas também dos nossos mais íntimos sorrisos e certezas (aquilo a que chamamos de Fé).
A segunda sensação que repassa estas páginas é o seu caráter meridional e solar que, paradoxalmente, se expressa pelo aprisionamento do sol (a unidade do real) e pela fragmentação das preocupações humanas através da influência astrológica de luas que se sucedem segundo um modo astronômico aleatório que faz lembrar os esquemas astronômicos anteriores a Copérnico. O caráter solar e meridional deste romance repete-se em vários momentos, como na simbologia religiosa sul-americana do milho, alimento base do povo de Luaral, mas também na simbologia mediterrânica das uvas e do vinho. Gláucia associa, assim, no imaginário onírico deste livro, dois pontos meridionais, unificados sob a influência de um Cruzeiro do Sul despojado da sua significação cristã e reescrito segundo a linguagem pagã das cosmogonias antigas.

Se em “Bichos de Conchas” eu mesmo encontrei uma Gláucia centrada nas preocupações do imaginário cristão, à procura de uma racionalidade da fé e da descrença que justificasse a tragédia da insatisfação humana, num quadro imaginário que remonta ao Velho Mundo, em “Luaral”, a minha amiga procura as raízes mitológicas dos povos que habitaram o seu chão natal. O onirismo deste livro vai ao ponto de ignorar por completo a unidade lógica e referencial com que poderíamos estabelecer um mecanismo previsível para a sucessão de acontecimentos que nos são narrados. Tal como em “Bicho de Conchas”, estamos no território das fábulas, mas agora de forma mais explícita. Os sentimentos humanos são apresentados de forma mais definida (e, porventura, mais redutora, mas nunca as fábulas pretenderam ser psicologicamente profundas) e sublimada, mas num contexto onde não há lugar à verossimilhança e onde as metamorfoses das personagens em constelações, em animais e em objeto, ainda que bebendo das fontes greco-latinas, renascem com o sabor acre das terras viciosas cantadas por Camões. A dada altura lembrei-me daquele filme de Alain Resnais, “Providence”, onde a topologia do espaço se altera subitamente, sem que o fio narrativo se quebre. Assim é, companheiro, “Luaral”, contado como quem conta uma história à luz quente de uma fogueira ao relento. Assim são companheiro, as histórias que nos passam frente aos olhos quando fechamos os olhos, antes e depois de adormecer. Obrigado, companheira Gláucia, mais uma vez.
Manuel Anastácio é poeta e professor de Literatura em Guimarães – Portugal
In blog Da Condição Humana
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Comentários»

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