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Charlotte Sizemore junho 18, 2009

Posted by eliesercesar in Contos.
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CONTO 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CHARLOTTE SIZEMORE

                                             

Elieser Cesar

 

Enfim, tenho a bela Charlotte Sizemore completamente subjugada aos meus pés, mas não sei o que fazer com ela. Poderia levantá-la daquela posição letárgica – o vestido branco da festa, os cabelos negros e anelados, o cinzeiro cheio de bagas de cigarro sobre o assoalho branco – e possuí-la, brutalmente, aqui mesmo. Seria uma esplêndida vingança contra quem sempre me desprezou. Poderia suspendê-la, suavemente e conduzi-la, semi-embriagada (ela bebera muita champanha) até a cama, onde consumaria o antigo desejo. 

Olhando-a, como se fosse a fantástica  imagem de um velho filme , me dei conta de que ela poderia estar morta,  e desejei, intensamente, que a impetuosa Charlotte tivesse, de fato, morrido no esplendor da beleza e da juventude, vítima de uma dessas overdoses que sucedem em festas de grã-finos. Mas, ela respirava e os olhos vítreos pareciam perscrutar o inescrutável.

Morta, me libertaria da dúvida atroz: o que fazer com Charlotte Sizimore, completamente indefesa, aos meus pés?  Porém, ela está bem viva e fascinante, exibindo o nariz arrebitado, a rosa rubra dos lábios sensuais, abraçando-se a si mesma, como num gesto de solidão e desamparo. O cheiro de álcool e cigarro impregnava o ambiente com o mesmo odor abafado de um  salão de jazz abarrotado.

Era uma sensação tão real que tive a impressão de ouvir o distante lamento de uma clarineta. Com os meus sapatos pretos, impecáveis, bem que poderia pisar os cabelos de Charlotte, até ela soltar um gemido de dor e suplicar: “Bruto, cafajeste, me larga!”. Faria isso, para me sentir supremo no altar rasteiro de uma deusa decaída. Contudo, ainda permaneço imóvel, admirando a inacreditável mulher subjugada aos meus pés.

Não pensem que foi fácil chegar ao ponto em que a antes inacessível Charlotte não pode mais me desprezar. Sem nenhum escrúpulo e apenas com a coragem suicida, fui subindo na  organização.  A parte mais difícil foi me livrar de Teddy O’Brien,  senhor pleno da lânguida Charlotte. Claro que devia muito a Teddy. Acho que até a minha vida.  Fui ganhando a confiança dele executando os trabalhos sujos. 

 O primeiro foi livrar Teddy de Henry Lo Prote, o impiedoso Henry, seu sócio e braço direito, vítima da mesma impiedade que tanto praticara. Depois foi a vez, de tirar de cena um senador corrupto, pródigo em mamar nas tetas clandestinas da organização. O último e decisivo passo foi me descartar do próprio Teddy. Pobre Teddy O’Brien, crente de que seria uma festa de reconciliação com a sua adorável Charlotte e já esfriando na adega! Agora, eu dou as cartas.

 Charlotte Sizemore não pode mais me rejeitar, não vai querer voltar à vidinha sem graça de antes. Agora, a deslumbrante Charlotte Sizemore está deitada no chão, subjugada aos meus pés, mas eu não sei o que fazer com ela. Por fim, depois de longa hesitação me aproximo. Volúvel Charlotte!

Ela pisca os olhos e me recebe com um sorriso acolhedor. Então, dou um chute no cinzeiro, espalhando as bagas de cigarro pelo assoalho e recuo, pronto para me livrar do corpo, ainda quente, de Teddy O’Brien, que nunca mais poderá ter Charlotte Sizemore, subjugada aos seus pés.       

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Comentários»

1. Carlos Barbosa - junho 19, 2009

Bravo, Elieser. Abr. (carlos)


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