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Hálito leve da poesia setembro 15, 2009

Posted by eliesercesar in Resenhas.
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Numa época em que poucas pessoas – pelo menos para o interlocutor mais sensível – têm um bom dedo de boa prosa a oferecer, o poeta Antonio Brasileiro vem ofertar um dedal de poesia. Em sua nova coletânea de poemas, Brasileiro demonstra que a boa poesia pode caber num simples dedal, como o cântico das ninfas do mar preencher uma concha encontrada numa praia deserta.

Dedal de Areia é o título do mais recente livro do poeta, premiado em concurso nacional promovido pela Academia de Letras da Bahia em 2004 e que, agora, chega ao público pela editora Garamond. E de que areia fala o poeta? Do grão necessário da poesia, a fina areia da alma, a poeira transcendente do espírito.

A leveza, como acertadamente destacou o crítico Miguel Sanches Neto, é a principal característica do livro. Diz Sanches Neto, na orelha de Dedal de Areia: “A principal marca do discurso poético de Antonio Brasileiro é a leveza. Leveza que pode ser vista na linguagem alada, sem os lastros da erudição vazia ou do derramamento lírico. Seus poemas não cansam, levando o leitor numa leitura fluida, sem obstáculos e sem tropeços, num tom coloquial, mesmo quando aborda questões mais densas”.

E na literatura, como na vida, a leveza é um atributo duramente conquistado, pela mão do artista, na poesia e, no mundo real dos homens, pela serenidade no enfrentamento do destino imponderável. Não é à toa que em um dos seus livros anteriores, Pequenos assombros, contido em Poemas reunidos, de 2005, Antonio Brasileiro constata: “Ser inteiro é não haver tumultos” (O Anjo no Bar).

Mas voltemos à leveza na arte, tão cara ao escritor italiano Ítalo Calvino, que a defendia como uma das suas seis propostas estéticas para este milênio (as demais são rapidez, exatidão, visibilidade, multiplicidade e consistência). Enquanto há pessoas que parecem escrever a marretadas (pancada certeira na sensibilidade do leitor), o estilo de Antonio Brasileiro se assemelha ao do artista que faz anotações na água.

Um exemplo desta leveza é uma imagem, repetida em dois poemas de seu Dedal de Areia: o hálito de um pássaro. “Vem do menino aquela íngreme/ vocação para a poesia: este querer/ser pássaro/ pesar menos que o hálito/ de um pássaro” (“Como Aqueles Títiros Bucólicos”). E também: “Vou ser tão leve quanto o hálito/ de um pássaro…” (“As Leves Rédeas”; “A Vida”). Só mesmo a poesia, a leve poesia, para apreender “o hálito de um pássaro”. Só mesmo a leveza do poeta para definir seu artefato literário com estes versos etéreos: “Um poema é só a invisível/ vibração de uma pétala/ na brisa”. (“O Que Esculpe Uma Face”), em Poemas reunidos. Escrever desta maneira, direta, simples, alada – para usar a metáfora de outra poema de Antonio Brasileiro (“O Cavaleiro, o mais longo de seu novo livro”) –, “é só uma questão de optar por azuis/ na alma”).

PERPLEXIDADE EXISTENCIAL – Que ninguém pense que, por ser leve, a poesia de Antonio Brasileiro tematiza o supérfluo, o melífluo, o sorriso tranqüilo dos conformados ou o fútil, cotidiano e tributável, para lembrar uma expressão de um poema de Fernando Pessoa. Tensionada pelos demônios da alma, a poesia de Antonio Brasileiro traz também a profunda marca da indagação filosófica e da perplexidade existencial, daí seu caráter ontológico. Nela, a leveza serve para atenuar certezas duras, como “Um homem é para ser desperdiçado” (“Na Noite”, Poemas Reunidos), e amenizar indagações crispadas: “Por que certos destinos são tão duros?” (“Fada”, Poemas Reunidos).

Poeta de sólida formação filosófica, Antonio Brasileiro expressa também, em Dedal de Areia, a dúvida maior na eficácia das ações do homem e a inutilidade última de todas estas ações, pobremente humanas: “Acham que acabou? Acabou./ Não, não acabou. Vou recomeçar./ Vou me calar./ Não vou me calar” (“Acham Que Acabou?”). “Porque não estamos aqui para um simples relato/ mas/ para morrer….” (“Rutilância”). “A estrada é uma só estrada;/ meu filho. E abandonados/ estamos no imenso cais./ Nenhum barco vem ou vai” (“Cais”). “Oh que a vida é só começos,/ endereços nunca havidos!” (“O Estiolar das Coisas”).

Em meio aos embates do nosso peito (somente “a espuma das coisas vãs gozadas uma a uma”?), o poeta resiste e encontra na arte a razão da resistência: “Só o diabo da poesia é que é a mesma./ Não se abate, não se dobra, não/ nos deixa” (“Motivos”). E resiste justamente porque sabe que “pobre é o homem e grande a fome de ser” (“O Cavaleiro”). Ainda que esses tempos sejam “propícios ao não ser”.

Federal no nome, o poeta Brasileiro, há muito tempo, já tem passaporte definitivo para o território sem fronteiras da poesia. E da leveza.

POEMAS DE ANTONIO BRASILEIRO

Rutilâncias

Porque o mundo é mesmo tão imenso

e meu coração tão só um desastrado;

porque imensa é a alma, e o corpo

só um relato

porque não estamos aqui para um simples papo,

mas para morrer

como todos o fazem:

eis que digo a mim mesmo: sê forte;

mas também digo: sê fraco,

pois tudo é rutilância e nós, passantes,

com nossa pressa e gula

para nada.

Mas justo porque o mundo é mesmo imenso

e imensa é a alma,

eis que escrevo e escrevo e escrevo e escrevo.

Por certo, para nada. Por certo, para nada.

Os barcos

Nenhum lugar é onde estamos.

A vida é para passar.

Os filhos, hoje, são homens;

os barcos, naves no mar.

Nosso destino, o jogamos

inteiro naquele ás.

Mas, da vida, que levamos?

As mágoas, as marcas, as

plurivórtices lembranças?

Naves sábias, alto mar:

que filho não é criança?

Redes brancas

Vou construir meus impérios

para neles morar.

Neles porei muitos montes,

fontes, pássaros,

cidades sem automóveis

– só jardins.

E uma casa singela e sombras

de quintal.

Na varanda da casa,

redes brancas.

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Comentários»

1. Marcus - outubro 19, 2010

Esse poeta é muito bom mesmo.


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