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Pequenas iluminações setembro 15, 2009

Posted by eliesercesar in Resenhas.
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Um rio...

Um rio corre na lua, novo romance de Ruy Espinheira Filho, que, em boa hora, retorna à prosa de ficção, é um livro de pequenas iluminações; iluminações éticas e existenciais, rutilantes epifanias, descobertas resplandecentes, que se apossam de pessoas simples e comuns, representantes de um substrato desse imenso Brasil transfigurado pela escrita poética do autor. Gente da nossa gente brasileira, como Isaulino,  Sísifo matuto a atirar pedras para frente, Gringo Matraca, a repetir velhas lorotas, o escriba Pero Vaz, historiador local, a crível D. Cinha, catalisadora involuntária do episódio que irá mexer com toda cidadezinha, a subjetiva Paulina, mistura de poeta e louco, de esplêndidos sonetos e tantas outras pessoas comuns, que temos a impressão de ter conhecido em uma dessas localidades remotas da Bahia.

Em sua generosa fábula das transformações, Ruy Espinheira Filho, como já apontara o escritor Carlos Barbosa, humaniza e dignifica representantes de um Brasil que parece chafurdar na corrupção e na intolerância, quase sempre vistos com ressalva, quando não com total desconfiança, como o prefeito  Dr. Fulgêncio, a suportar nos ombros o peso da falta de sentido da vida, sem abrir mão de seu generoso humanismo e o tenente Evandival, um bronco tocado pela graça da prudência e da conciliação. Um prefeito digno, culto e altruísta, tão diferente da imensa maioria dos alcaides brasileiros, um delegado – que ungido por uma dessas raras iluminações – experimenta um rito de passagem, uma transcendência pessoal, uma leveza interna, que nos faz acreditar que ainda existe possibilidade de redenção para a combalida humanidade.

E a pequena iluminação para o delegado, chega no momento em que ele relembra  um amor do passado e pensa uma felicidade ainda possível, mas, para sempre adiada:

De súbito, estranhou-se: o que estava fazendo ali – sem ela? Esperar, planejar, por quê? Afinal, a vida não espera. Cada ano, cada mês,, cada dia, cada hora, cada minuto, cada segundo – estava indo, indo, indo…Teve um pensamento assustador; se a morte chegasse agora, quanto do melhor de sua vida estaria perdido! E compreendeu que a única maneira que temos de vencer a morte é viver bem antes que ela chegue. Assim, quando ela chegar, já não nos poderá tirar quase mais nada, ou mesmo nada. Sentiu-se tão perturbado que teve medo de que as pessoas percebessem.

Como dirá mais adiante o narrador, ao se referir à mudança coletiva: “Decididamente, o mundo voltava aos eixos, a vida renascia em todas as suas maravilhosas possibilidades”.

RECONCILIAÇÃO COM A VIDA – Habilmente, Ruy Espinheira Filho tece sua fábula interiorana a partir de um acontecimento prosaico, que põe em transe de fé e dúvida a pequena Rio da Lua. O que interessa na aparição da imagem da santa numa vidraça é menos a romaria ou as infindáveis discussões que o fenômeno irreal irá suscitar, do que o desfile de tipos comuns, brasileiros de carne, osso, fé e descrença. Todos, crentes e ateus, pobres e remediados, vão experimentar suaves mudanças interiores, como se o autor do romance sinalizasse para a difícil reconciliação dos homens, para uma paz inefável, que chega ao som de valsa e bolero, no coreto da pracinha. Sim, até porque, como diz o narrador, “a vida podia ser um bolero bem dançado”.

Por que, finalmente, os homens não começam a viver em paz, longe do egoísmo, da intriga e da mesquinhez? E se a vida não tem sentido, cumpre-nos procurar um sentido para a vida.  É o que Ruy Espinheira Filho parece perguntar e apontar  nas páginas de seu rio poético que corre para a vida. Sim, um romance de pequenas iluminações , pequenas para as limitações dos homens, amplas para a dimensão do ser; uma história de reconciliação com a vida, em todas as suas maravilhosas possibilidades. É esta a  lição do rio e da lua, que correm e escorrem da pena de Ruy Espinheira Filho.

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