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UTOPIA ESTILHAÇADA – – No romance Glória partida ao meio, Paulo Martins faz um acerto de contas com a geração revolucionária dos anos 60. setembro 21, 2009

Posted by eliesercesar in Resenhas.
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O ano é 1969. A ditadura militar que, cinco antes dera o golpe de Estado, endurece o regime de exceção com o famigerado AI-5. Enquanto o Ato Institucional cassa, o braço armado da repressão caça, prende, tortura e assassina seus opositores. A esquerda brasileira se fragmenta, dividida entre duas correntes, a política, para a qual  o combate  ao regime dos generais deve cumprir etapas, em buscas de condições objetivas para a retomada do poder, e a militarista, defensora da luta armada, sem tréguas, até a vitória final, num misto de romantismo revolucionário e voluntarismo romântico. Sob o tacão dos coturnos e das baionetas, um a um os quadros da guerrilha urbana vão caindo nas mãos dos repressores do Estado e os aparelhos dos militantes de esquerda estão sendo esfacelados. Os partidos, as células partidárias, as facções da guerrilha acabam, impiedosamente, asfixiados.

É neste cenário de conflagrações, medo, coragem, covardia e heroísmo, que um jovem, mas experimentado dirigente de uma célula comunista, a Centelha, se divide entre a paixão revolucionária – a abdicação completa da felicidade pessoal em nome da causa comum – e o amor por uma bela e culta francesa, recém-chegada ao palco das feridas expostas de um período que o Brasil mergulhou em trevas, sangue e truculência. Ricardo e Florence formam o par romântico de  Glória partida ao meio, o primeiro romance  do escritor baiano Paulo Martins, que chega agora as livrarias brasileiras pelo selo 7 Letras.

Com fôlego de épico contemporâneo, Paulo Martins escreveu a saga de uma geração, generosa na entrega, sonhadora no projeto de fazer uma revolução sem perspectiva de vitória e corajosa ao abraçar uma luta desigual; uma geração que, entre erros e acertos, acabaria colhendo uma utopia estilhaçada; porém deixando seu legado de abnegação e amor ao próximo. Com tintas autobiográficas (assim como personagem principal, o autor participou ativamente do combate à ditadura e amargou o exílio), Glória partida ao meio é um retrato fiel do Brasil do final dos anos 60 e começo dos 70 do século passado e dos mecanismos mentais dos agentes da repressão e dos guerrilheiros.

O exemplo das revoluções chinesa e cubana, a guerra pela libertação da Argélia do jugo colonial francês, as longas discussões das esquerdas, antes das tomadas de decisões, com ranço de assembleísmo, os embates intestinos do Partido Comunista, a queda de braço entre os movimentos armados sobre os métodos e a hora da ação revolucionária; os amores que não resistiram aos tempos sombrios do arbítrio e da brutalidade; as pequenas covardias, os grandes atos de heroísmo, as traições e delações dos que não resistiram à tortura, física e psicológica; tudo isso está retratado no romance de Paulo Martins, baiano de Ipiaú, terra onde floresceu também a utopia agrária de Euclides Neto.

Em muitos trechos, que se assemelham a uma cartilha sobre como fazer a revolução ou até a um pequeno manual do marxismo-leninismo, o romance soa esquemático; às vezes resvalando no realismo socialista, como na glorificação do Camarada Mao e  no deslumbramento de Ricardo, ao assistir as comemorações dos 15 anos da revolução chinesa, na Praça Tianamen (a mesma Praça Celestial de Pequim em que, há 20 anos, estudantes foram massacrados pelo que já foi o Exército de Libertação Popular). Porém, as longas discussões teóricas entre os jovens revolucionários e o entusiasmo com a revolução que forjaria um novo homem, temperado no respeito ao próximo, na solidariedade, na  fraternidade e na igualdade servem para compor o perfil psicológico do guerrilheiros e consolidar o pathos da esquerda revolucionária latino-americana.

Inventário de sacrifícios

O idílio de Ricardo e Florence lembra outros amores fadados ao fracasso, quando a guerra e o amor se digladiam num mesmo campo de batalha, a exemplo do par romântico Robert Jordan e Maria, em Por quem os sinos dobram, do norte-americano Ernest Hemingway, ambientado na Guerra Civil Espanhola. Um amor desesperado, cheio de interrogações, como uma trêmula chama  assediada pelo vento da escuridão.

Isolado em uma noite de temporal, em um pequeno apartamento em São Paulo,  em um instante de dúvida e fraqueza, compreensivelmente humanas, Ricardo faz o inventário de seus sacrifícios em nome do credo revolucionário – amante ciumenta que exige para si toda energia e atenção:

“Senti então, que mesmo sendo pouco, muito pouco, o que houvera feito até aquele dia pela revolução, minha dívida para com ela estava literalmente paga. Todos aqueles momentos de extrema tensão nas ações armadas, todos aqueles dias de fome e dificuldades, todas aquelas jornadas de sacrifício e renúncias de anos e anos de militância não chegavam a equivaler ao desespero de uma única dessas noites passadas no isolamento da clandestinidade. E aquela noite era a síntese de todas as noites anteriores, de uma juventude de privação, de solidão, de angústia, de remorso, de medo, de culpa, de ódio; enfim, era o suprassumo do inútil heroísmo  de todas as madrugadas mal dormidas de uma clandestinidade inútil”.

Ao final das 313 páginas de Glória partida ao meio, e à luz do presente, cabe uma pergunta: teria valido à pena todo os sacrifício revolucionário, acreditar cegamente na revolução, para se chegar a um período de acomodação e conformismo  em que o Programa Bolsa-família, o atrelamento sindical ao aparelho de Estado e o peleguismo estudantil parecem ter arrefecido qualquer fervor de revolta; quanto mais revolucionário? Mas, não é do presente que o romance de Paulo Martins fala, mas de uma geração, hoje grisalha, que vê diante de seus olhos míopes, o pálido reflexo de sua utopia estilhaçada.

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