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CORRIDA setembro 25, 2009

Posted by eliesercesar in Contos.
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Corrida

Quando o ônibus subiu na calçada do Mosteiro de São Bento, olhei instintivamente para trás. A cidade parecia ter sido sacudida por um terremoto. As pessoas corriam estampando na face um medo primitivo. Os velhos, as mulheres e a crianças ficavam para trás e eram pisados pelos homens da retaguarda. Preocupada em salvar a própria pele, nenhuma alma caridosa estendia a mão aos que caíam. Resolvi me refugiar na igreja dos beneditinos, mas, logo na entrada, tive que me abrigar num canto de parede, para não ser levado de roldão por uma extraordinária procissão:  puxado pelo padre, com os cabelos em desalinho e a batina esvoaçando ao vento, um séquito de fiéis deixava o templo, em desabalada carreira, como se tentasse escapar de um sítio bombardeado.

Assim que o último dos que estavam na igreja passou, decidi também correr, o mais que pudesse. Olhei para trás e vi gente correndo, como se participasse de uma incrível maratona pela vida ou uma misteriosa energia cósmica puxasse todos para frente, irremediavelmente para frente. Um pouco mais adiante, o padre e os fiéis estavam deitados na calçada, com a cabeça para baixo, com se conformados com o sacrifício iminente ou evocassem a proteção divina. Deixei-os para trás, evitando tropeçar em algum deles.

Podia sentir, ao pé do ouvido, o resfolegar das pessoas que tentavam me ultrapassar. Decidido a não ficar para trás – sabe-se lá, o que vinha bem atrás – acelerei o ritmo da corrida. Olhei, outra vez para trás, e toda a imensa avenida estava tomada por pessoas correndo, como lebres assustadas. Resolvi me esconder descendo os degraus do subsolo de uma loja. Abaixado, pela balaustrada acima , vi apenas as pernas e os pés dos corredores; pernas gordas, pernas magras, pernas musculosas, pernas de homem, de mulher e de criança; pés descalços, calçados com sapatos, tênis, sandálias, chinelos, botas, coturnos; todos em franco movimento; gritos, alaridos, gemidos, choros, suores, sempre para frente, jamais parando ou retrocedendo.

De repente um medo mortal se apossou de mim, a certeza pânica de que se ficasse, ali, parado, aquilo de que todos fugiam poderia me esmagar, num beco sem saída, como decerto já havia feito com o padre e os fiéis. E a polícia que não aparecia? A defesa civil que não nos socorria? O exército que não se mobilizava? A população estava entregue à própria sorte. Teria sido destruído todo o sistema de defesa, esfacelados os serviços de saúde e emudecidos os meios de comunicação?

Não podia mais perder um minuto sequer, pois, já havia ficado, não na retaguarda, mas no meio da multidão, que crescia, corria, corria, crescia e enchia a rua com sua frenética palpitação. Acelerei os passos, determinado a correr até a exaustão.  Não podia sentir cansaço, apenas deixar que as pernas comandassem o cérebro; era preciso correr, correr, correr até arrebentar, se fosse preciso. Mas já começava a sentir fadiga, a respiração ofegante, o coração pulsando forte.

A muito custo, alcancei o início da ladeira. Foi quando vi uma compacta massa humana correndo em sentido contrário ao nosso, enquanto a multidão se precipitava ao seu encontro; pareciam dois exércitos prontos para se chocar no campo de batalha. E agora, o que fazer? Espremido pela muralha humana atrás de mim, não podia retroceder. Fui empurrado para frente e acelerei os passos, pronto para o choque.

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Comentários»

1. Junquewira Ayres - setembro 25, 2009

Estava eu um dia na esquina da Rua Chile com a Praça Castro Alves quando ouvi um tropel às minhas costas. Era uma multidão ensandecida que vinha correndo dos lados da Praça Municipal, arrostando a tudo e a todos que encontrava pela frente. Tentei me esconder na Rua Ruy Barbosa, mas uma outra corrente de gente vinha de lá. Fui tomado de roldão pelos dois fluxos, apavorado, sem saber o que acontecia. Abaixo do Cine Guarani, percebi que multidão maior descia às carreiras pela Ladeira de São Bento. O choque era inevitável. De repente, vi à minha frente meu amigo Elieser César, que encabeçava o estouro da manada São Bento abaixo. Poucos segundos antes que o embate se desse, puxei rápido o meu amigo de lado, descemos a Barroquinha e fomos tomar uma cerveja gelada numa daquelas biroscas onde se bebe em pé e conversar sobre os últimos acontecimentos.

eliesercesar - setembro 25, 2009

Isso que é um happy end


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