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MAUSOLÉU EM TUCANO novembro 3, 2009

Posted by eliesercesar in Contos.
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Mausoléu

I

Tucano é um lugar muito feio. Imagine uma cidadezinha sem graça, socada dentro de um buraco, com gente falando “vôte” por todos os lados. É Tucano. Se ao menos tivesse a plumagem vistosa da ave que lhe empresta o nome…Mas, não tem pluma nenhuma. É um cu pelado. Não recomendo a ninguém que vá para lá de visita.. A bem da verdade, não recomendo que vá nem de passagem. Quem quiser evitar o lugar, é só prosseguir viagem até Euclides da Cunha. Eu mesmo sou vou lá por causa de uns parentes e parente todo mundo sabe como é: reclama se a gente não fizer uma visita, nem que seja uma vez por ano ou a cada dois anos; do contrário somos metidos à besta, senão uma besta completa.

Tucano é o cu  lambuzado do mundo. Mas é para lá que levaremos os ossos de mãe. Prometi a mãe que a levaria para descansar (como se defunto precissasse de descanso) junto aos restos de pai. Os dois juntinhos, bem mortos, mais unidos do que durante toda a vida de casados. E promessa é dívida, ainda mais se tratando de palavra empenhada ao pé do leito de morte.

Inquilina de cemitério, mãe, agora, será levada da capital onde foi enterrada para Tucano, seu definitivo túmulo. Por mim e meu irmão Aspásio. Tem três anos que nós combinamos levar os ossos de mãe para junto dos restos de pai. Porém, Aspásio é muito ocupado. Tem mulher, filhos, emprego fixo, prestações a pagar e essas coisas que tomam o tempo dos homens.

Não pensem que pai foi logo sepultado em Tucano. Eu e Aspásio alugamos cova para ele também. Ficou cinco anos em Feira de Santana, até que o levamos para Tucano. Lembro do dia como se fosse hoje. Pegamos um caixão de criança e colocamos os ossos dentro, para a viagem inútil da morte à morte. Mais impressionável (ou frouxo mesmo?) do que eu, Aspásio virou o rosto, quando o coveiro abriu o caixão, deixando à mostra os ossos e o crânio de pai, este ainda com tufos de cabelos brancos. Havia farrapos da roupa com que pai fora sepultado. Também a chapa que, antes de dormir, ele escovava como se lustrasse um sapato, para depois colocá-la num copo com água até a metade, estava lá, em perfeito estado. Também um pente de osso de boi. Colocamos tudo no caixão e levamos para Tucano. Foi como se enterrássemos pai duas vezes; mas daquela vez, menos triste; já havíamos nos acostumados à morte dele e, na nossa família, não se chora os mortos duas vezes. Foi como cumprir uma obrigação, daquelas bem incômodas e que nos deixam aliviados quando cumprida.

Agora, para que eu e Aspásio possamos viver em paz, só nos faltam levar os ossos de mãe. Não sei porque Aspásio tem demorado tanto para cumprir o nosso acordo. Talvez ainda pense no crânio de pai, com tufos de cabelos brancos, a chapa como nova e o pente de osso de boi dele. Sei apenas que Tucano é um lugar muito feio, mas é para lá que levaremos os ossos de mãe.

Tumba

II

Aspásio finalmente decidiu levar os ossos de mãe para Tucano.  Foi me apanhar em casa, logo no começo da manhã. Chovia desde a madrugada e o dia cinzento dava a Aspásio o aspecto sorumbático de quem acaba de receber uma notícia de morte, no nosso caso, uma morte se não sedimentada no tempo, já começando a assentar nos anos sua densa poeira. Ficamos calados durante o trajeto até o cemitério. Sabíamos o que restava a ser feito e mais nada. Novamente levamos um pequeno caixão e, outra vez, a matriz dos nossos ossos foi colocada no ataúde para a viagem de cemitério a cemitério. O coveiro abriu a carneira e retirou o caixão, carcomido pelo tempo, em que mãe fora sepultada.  Como da vez em que levamos os restos de pai, Aspásio desviou o rosto no momento em que o homem abriu o caixão, sob a chuva fina. Merda! Essa mania de viajar com os mortos!Porque não enterrá-los de vez, no lugar aonde caem? Como uma fruta que despenca da árvore da vida e fica no terreno, até secar. Depois do segundo enterro de mãe, ia avisar a Aspásio que, se eu morresse antes dele, queria ser enterrado no lugar em que morri e, caso o contrário, se a morte o levasse primeiro, que me desobrigasse de transportá-lo, defunto, até Tucano, um lugar feio e triste, mas a rota mortuária da nossa família. Ah, isso eu diria a Aspásio, antes mesmo de voltar para casa. Planejava dizer isso, enquanto o coveiro removia os ossos de mãe, prontos para serem limados pela eternidade. Dei uma olhada. Não havia sinais de roupa. Só ossos e o crânio amarelecido. Também uma medalha com a imagem de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, santa da devoção de mãe. Peguei a medalha, meio enferrujada. Aspásio me fuzilou com os olhos, como se dissesse: “Se você queria, porque não pegou antes do enterro…” Dei de ombros e guardei a medalha no bolso, disposto a preservá-la como um talismã do além.  Meu irmão pagou ao coveiro, colocamos o caixãozinho no porta-malas do carro e seguimos estrada. “Agora, os dois ficarão juntos”. Foi a única coisa que Aspásio disse. “É, juntos”. Foi a única coisa que eu falei, até chegarmos em Santa Bárbara, onde paramos para tomar café com sanduíche de requeijão. Aquele negócio de os dois ficarem juntos, como se os ossos estivessem animados de vida já estava me irritando. Juntos o quê? Brigavam o tempo todo e até dormiam em quartos separados. Mas, se brigaram em vida, não era possível que se unissem na morte, afinal, ninguém sabe mesmo o que existe depois da morte? Eu já não sabia em que acreditar. Na dúvida, decidi que pai e mãe mereciam esta fantástica segunda chance. Fiquei até gostando daquela missão de transportar os mortos antigos. “Será que tá chovendo em Tucano ?” A pergunta de Aspásio me libertou do pensamento de reconciliar os mortos. “Naquele lugar só chove miséria”, respondi. Depois de Serrinha, o carro quebrou, debaixo de forte chuva. “Porra! Era só que faltava, a arabaca quebrar”, xingou Aspásio, já do lado de fora e dando pontapés na chaparia do carro. Ficamos na chuva, pedindo carona. Só um homem numa caminhonete parou, mas arrancou disparado, quando viu o caixão. Não demorou muito e parou um ônibus da linha Salvador-Euclides da Cunha. Também pudera. Era Alfredo, nosso primo, sobrinho de pai. Quando retiramos o caixão do porta-malas do carro, para colocar no bagageiro do ônibus, muitos passageiros protestaram. Uma velha se benzeu. Aquele era transporte de passageiros, não rabecão do necrotério. O bom Alfredo apaziguou os ânimos. Gente medrosa! Não havia defunto no caixão! Fôra comprado em Feira de Santana para enterrar um anjinho no Crenguenhém. Alfredo foi logo colocando o caixão no bagageiro, não sem se persignar antes, e prosseguiu viagem. Era sábado de feira em Tucano. A praça estava tomada de feirantes e tabaréus de lugares próximos. Um grupo de soldados parou o ônibus. Não sei como souberam da presença do caixão. Alguém deve ter avisado à polícia em alguma parada; em Araci, talvez. Com um fuzil nas mãos, o sargento pediu que abríssemos o caixão.

“ Aqui ?”, protestou Aspásio. “Aqui. Ou no xadrez”, respondeu o sargento. Um grupo de curiosos formara um círculo ao redor do esquife. Resolvi me antecipar a Aspásio e — gozando a diversão com a surpresa do achado — abri o ataúde. As pessoas mais próximas recuaram, horrizadas. Até os soldados deram um passo para trás, com o medo instintivo que os mortos provocam em quem goza de boa saúde. Refeito da surpresa, o sargento ameaçou prender a mim e Aspásio, por ocultação de cadáver (mas, como ocultação, se os restos mortais estavam ali, à mostra ?), profanação de túmulo e outros disparates. A turba apoiava a intenção da autoridade. Animado com o apoio popular, o sargento não nos deixava explicar a bagagem macabra. Eu já temia ser preso ou até linchado, pelos populares insuflados pelo sargento. Outra vez, Alfredo nos salvou do aperto. Era compadre do sargento. Aliás, pela sua boa índole e prestatividade, era compadre de meia cidade. Pois aqueles eram os restos mortais de Tia Adelina, do finado Zequinha. Os primos vieram da capital parta juntar os ossos dela com os do marido. Era crime?! “Pois, porque não disse antes, ôme ?. O finando Zequinha, irmão do Dequinha ? Vôte! Era gente muita boa”. Aspásio mostrou a certidão de óbito de mãe e os papéis do cemitério onde ela fora enterrada. Para nossa surpresa, o sargento resolveu nos escoltar até o cemitério. Aspásio disse que não precisava. “Faço questão….Mulher do Zequinha”, insistiu o sargento. Surpresa ainda maior foi boa parte dos curiosos também resolver nos acompanhar. Cortejo maior do que mãe e pai tiveram, juntos, abriu caminho entre os feirantes. Muitos barraqueiros da feira tiravam o chapéu. Algumas pessoas expressavam seus pêsames, outras batiam levemente nos meus ombros e nos de Aspásio. O sino da igreja dobrou. No caminho, o cortejo fúnebre ia engrossando, com a adesão de crianças, cachorros, galinhas, porcos e até de um jumento. Foi como se todos resolvessem brincar de enterro. Mas não se notava brincadeira na expressão séria e respeitosa, quase compungida, da maioria dos presentes. Os parentes que não puderam ir ao enterro inaugural cumpriam, agora, o indesejado dever familiar. Chegamos ao cemitério e fomos direto para o jazigo de pai. O vigia do campo santo removeu a lápide. Observados pelo povo — em reverencial silêncio — colocamos os ossos de mãe juntos com os de pai. Que descansem, unidos, para sempre! O que a vida não juntou a morte entrelaçou. Aspásio se benzeu. Uma velha, de xale na cabeça e com o rosário nas mãos, salmodiou uma Ave Maria. “Chega! Obrigado”, dispersou” ,Aspásio, mestre daquela inusitada cerimônia. O povo retornou a seus afazeres, em casa ou na feira. Eu, Aspásio e Alfredo ficamos no cemitério. Não sei o que os dois pensavam, mas eu pensava em como a minha vida era parada como aquela paz dos mortos. Aspásio, sim, tinha muito o que fazer, mulher, filhos, emprego fixo, amigos no trabalho, prestações a pagar. E eu, o que era ? Um anônimo qualquer, como um desses tabaréus da feira, aguardando a hora de me jogarem também numa cova. Poderia fincar raízes em qualquer lugar. Alfredo nos chamou para tomar uma cerveja no bar do Mamu. Aspásio propôs que fôssemos comer um bode assado, no Jorrinho. Depois pegaríamos estrada. Olhei para o túmulo, definitivo, de pai e mãe, agora juntos e fui beber umas cervejas. Não falei a Aspásio, mas estava resolvido   a ficar em Tucano.

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Comentários»

1. Alfredo Gonçalves de Lima Neto - junho 29, 2015

Mausoléu em Tucano
Um conto com a poesia e a verve de um(a) águia das letras. Uma história mais que singela ainda que rica em seus significados metafóricos: o comportamento e os valores de uma gente simples do interior da Bahia, em Tucano, onde se passa toda a trama. Uma homenagem – os deslustrados interpretarão às avessas – patrocinada por Eliezer com o vigor e a criatividade da sua pena.
Alfredo Gonçalves de Lima Neto

eliesercesar - junho 29, 2015

Obrigado, Alfredo. Suas palavras representam um grande incentivo.

Forte abraço

Elieser Cesar

Date: Mon, 29 Jun 2015 13:37:27 +0000 To: eliesercesar@hotmail.com


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