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MEMÓRIA E POESIA novembro 6, 2009

Posted by eliesercesar in Prosa.
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Mnemósine

 

Fincadas solidamente na tradição e  renovadas pelas novas gerações,  as artes têm  em Mnemósine – filha de Urano e de Gaia e mãe das sete  musas – sua protetora mitológica. É a ela a quem acorrem os artistas nos momentos cruciais de esquecimento. Afinal, sem a memória, de priscas  ou recentes eras,  (personificada justamente por  Mnemósine)  não há continuidade da história, inclusive da história da arte.

 

Muito mais do que a marca do tempo; a memória é o tempo aprisionado, historicizado ou redescoberto, seja a partir de uma escavação arqueológica ou de uma sensação olfativa, o cheiro penetrante de um bolinho, capaz de resgatar todo um o tempo perdido.

 

Sem a memória, estaríamos condenados a mais cruel das amnésias, o esquecimento das nossas origens, dos nossos mitos, dos nossos medos ancestrais e do lento e inexorável  processo de construção da civilização moderna.    A memória é a  acha do passado que  ilumina e desvenda os  caminhos  do futuro. Nenhuma habilidade humana pode prescindir da memória e da tradição, mestre maior. Muito menos a literatura, onde tudo já parece ter sido escrito, mas comporta ainda um novo modo de contar. E a ficção é bordada, primordialmente, com o tecido da memória – lembranças, nostalgias, crenças, lendas, esquecidas emoções; ficção paciente e habilmente tecida até que a subjetividade do ser se  cristalize em  representação do mundo.

 

Mas, sozinha, a memória não é tudo, pois a arte requer também imaginação.  O que, na arte, a memória faz aflorar, a imaginação irriga, aduba e faz florescer.  Gostaria de  fazer de dois poetas o fio condutor dessa breve reflexão sobre o valor da memória, dois poetas  em cuja obra o tempo, cíclico ou linear, e o passado, imemorial ou distante, são  presenças constantes: o  memorioso Jorge  Luís Borges e o   liricamente nostálgico Ruy Espinheira Filho. Poderia citar o Bandeira de “Evocação do Recife”, em que o poeta relembra a Recife de sua infância. Também o Bandeira de “Profundamente”. Ou ainda Drummond, o menino antigo de Boitempo.  Mas escolho o argentino e o baiano, por alguns versos que ecoam na memória, como uma leve chuva que nos lavou, mas não levou a infância.

 

Em um de seus sonetos (A chuva), Borges anuncia a lúcida e desconcertante sensação de que:

 

A chuva é uma coisa

que sem dúvida sucede no passado.

 

Em outro poema (Arte Poética) diz que:

 

Às vezes nas tardes uma cara nos mira do fundo de um espelho

 

Para  em seguida enunciar que:

 

A arte deve ser como esse espelho que nos revela nossa própria cara

 

Não seria lícito afirmar que esta outra rosto é a cara da memória,  de uma memória, talvez, dolorosa, revelando uma face que, em vão,  procuramos esquecer? Em outro poema (Poema conjuntural), Borges  funde novamente rosto e espelho:

 

No espelho desta noite alcanço

meu insuspeitado rosto eterno.

 

 

Aliás, rosto e memória se fundem também em um poema, de dolorosa plangência, no autorretrato pintado pela inefável Cecília, cujo último verso exala um misto de resignação e perplexidade:

 

– Em que espelho ficou perdida

A minha face?

 

Na face intangível da memória, ousaríamos arriscar.

 

 

 

Porém , é no baiano Ruy Espinheira Filho que a memória se apresenta como elemento constitutivo  de  representação poética do mundo, da vida e das pessoas. No poema Poções revistado: algumas notas, de Heléboro, seu primeiro livro de poemas,  Ruy empreende o resgate da memória:

 

E se o tempo passou

pelo beco dos Artistas,

apagando velhos rostos

e compondo gente nova,

só para os homens passou.

 

A arte viu com respeito:

conservou-a pura

a mesma

que neste Beco vestiu

(em data há muito perdida

no abismo) o primeiro gnomo.

 

No poema  As meninas (de Julgado do Vento), plenamente consciente da força subterrânea da memória, Ruy sabe que “o passado não passa”.  Em Viagem (de As sombras luminosas), Ruy Espinheira Filho demonstra que o passado é também uma ferida que não se cicatriz, pelo menos de todo:

 

Umas coisas valem

a dor da memória

 

Mas, é  em Praça da Liberdade, do mesmo livro, que o poeta vai buscar na memória e com mais intensidade,  o tecido com quem representará sua nostalgia de um mundo que ficou para trás.    Depois de perguntar

 

Quem de mim poderá

apagar eu mesmo?

 

O poeta confessa:

 

O que respiro é ontem

 

Portanto, pura memória.  Na poesia de Ruy Espinheira Filho, o mergulho no passado não se dá não com amargura ou rancor, mas  com a generosidade de  quem pretende, através da arte e da memória,   manter vivo um passado precioso ou, como o próprio poeta descreveu,  “as coisas que valem a dor da memória”

 

Fiquemos por aqui. Antes que a memória comece a falhar

 

 

Texto apresentado no I ENCONTRO LITERÁRIO DA UEFS: (RE)LEITURAS CONTEMPORÂNEAS, em 3 de AGOSTO DE 2009.

 

 

 

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Comentários»

1. Gerana Damulakis - novembro 15, 2009

Parabéns pela nova vida que chegou.Curta, babe, ria, chore, seja feliz com sua coisinha linda. Sejam felizes!


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