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REALISMO MIDIÁTICO – Em Reportagem Urbana, Aramis Ribeiro Costa constrói histórias da vida bruta março 22, 2010

Posted by eliesercesar in Resenhas.
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O jornalismo sempre manteve com a literatura uma relação ambígua, que para alguns críticos mais radicais chega a beirar o mesmo complexo  do primo pobre diante do primo rico. Há quem considere que o jornalismo é inspirado por uma espécie de musa plebéia, diferente das musas mais nobres da poesia, por exemplo. Porém, muitos escritores, em todo o mundo – o norte-americano Ernest Hemingway foi um deles, o brasileiro Antônio Callado, outro – beberam na fonte do jornalismo em busca de um estilo mais conciso, ágil e preciso como uma notícia de jornal.

Na Bahia, o escritor Aramis Ribeiro Costa  foi buscar na imprensa diária o nome de seu mais recente livro de contos: Reportagem Urbana (Imago: Rio de Janeiro, 2008 – 166 Pgs). A escolha não poderia ter sido mais apropriada, pois as sete histórias da coletânea, parecem realmente retiradas de notícias de jornal. São contos de um realismo midiático, por assim dizer, que tratam da vida de pessoas humildes, quase à margem da vida, enfrentando a pobreza, a dureza do cotidiano e vivendo situações-limites.

À exceção, talvez, do primeiro conto A Interminável Noite de Percival, na linha do fantástico, em que um defunto recalcitrante perambula pela cidade, em companhia de um amigo, bebendo nos bares e assistindo até uma partida de futebol, no Estádio da Fonte Nova. A história guarda um pouco de semelhança com A morte e a morte de Quinas Berro D’água, de Jorge Amado, também sobre as fantásticas peripécias de um morte renitente e companhia de  um grupo de boêmios.

Sete-Sete é outro conto que parece freqüentar as páginas policiais dos jornais, a história de um rapaz, honesto e trabalhador, preso, acusado e condenado por um crime que não cometeu. Lídia – Uma história de Heródoto (não confundir com o historiador grego, pois o Heródoto da trama é uma sapateiro)  traz um enredo de densa sensualidade, com ramificação policial, sexo e crime, dos quais  as páginas dos jornais estão pródigas, a cada dia.

A Casa revela o esforço hercúleo de um pedreiro doente para terminar a construção de sua casa, antes da morte iminente. Uma história tão real quanto as construções dos chamados “puxadinhos” na periferia de Salvador, onde se passam as histórias do livro. Em Segunda-Feira Sem Data, uma mulher jovem se envolve numa teia kafkiana, tentando resolver um problema crucial e se perdendo em um labirinto de burocracia e indiferença. Em O Aniversário de Normando,um peão de obra torra, em bebida e comida, todo o dinheiro que consegue de forma inusitada, pagando a conta para colegas que o desprezam.

Por fim, Reportagem Urbana, que dá título à coletânea, é também a pura trama de uma notícia real, passível diariamente de preencher as páginas de um jornal. É uma história comovente e triste sobre a infância desassistida, como a de muitas crianças carentes que perambulam pelas sinaleiras mais movimentadas da cidade. Em seu livro de contos, Aramis Ribeiro Costa constrói, de fato, uma reportagem urbana, colhida da vida bruta estampada em folhas de jornal.    

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Comentários»

1. Gerana Damulakis - março 22, 2010

Uma leitura atenta que resultou numa ótima resenha. Abraço.

2. Cláudia Campos - janeiro 26, 2012

Pesquiso sobre Aramis e seus contos são realmente longos, mas muito envolventes, vc quer saber o fim, não dá pra parar. É uma leitura recomendada principalmente para nós baianos pois retrata muitas de nossas tristes ralidades.

Obrigada por sua contribuição com esse texto.


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