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POESIA FLORINDO NO INVISÍVEL – Os acordes sinfônicos nos versos de Roberval Pereyr abril 12, 2010

Posted by eliesercesar in Resenhas.
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Poeta de velas pandas e asas abertas, com longa autonomia de vôo, próprio, porém impulsionado por inúmeras influências da tradição poética, como sói acontecer com todos os artistas, o baiano Roberval Pereyr, radicado em Feira de Santana há mais de três décadas, onde ajudou a criar o Grupo Hera, junto com Antônio Brasileiro, Juraci Dórea e outros artistas locais, está com um novo livro de poemas na praça: o musical Acordes, publicado pela editora alternativa Tulle. A pequena coletânea de versos – sovina no tamanho, apenas 65 páginas, mas generosa em sua dimensão ontológica – traz a marca da lírica de Roberval Pereyr, visível como se carimbada com o ferrão inconfundível do artista original: a perplexidade ante a imponderabilidade da existência, com suas certezas, suas dúvidas e indagações cruciais.

Logo no poema de abertura (Canção), Roberval Pereyr mostra a sinfônica musicalidade de seus versos:

a noite é cheia de gado

a noite é cheia de gente.

E que bovino é este, se não o gado humano, a ruminar na solidão da noite todo o parco capim da alma e o pasto breve da existência, numa “noite cheia de medo…”

Em Ofício, o poeta define a absurda megalomania do homem urbano, voltado para o próprio umbigo:

Cidade: monstro de egos.

No poema Previsão, Roberval Pereyr faz ecoar a voz primordial do ser, “a outra voz”, como poeta mexicano Octávio Paz define a experiência poética:

Enquanto isso, sigo compondo

a primeira ilusão do infinito.

Amostra biográfica é um poema que começa nublado daquela fatalidade terminal de toda uma vida desperdiçada:

Eu sou o lapso, o álcool

de um dia inteiro no mundo.

Eu sou o nome completo

de todos os anônimos.

Mas que termina com um horizonte solar:

…eu sou o sal

de todos os mares

ao sol.

A condição do artista, suspenso em uma vida paralela, mas obrigado a suportar as trivialidades do vulgo, é expressa nos dois últimos versos de Resposta:

Mas nada te devo, eu sei.

Pois meu negócio é mesmo o infinito.

Tão ao gosto dos políticos atuais, capazes de se aliar a Judas, em nome da governabilidade, da manutenção do poder e engôdos semelhantes, o pragmatismo moderno – eufemismo para o cinismo das atitudes de conveniência – é o tema de Magia, do qual enxertamos os seis versos finais:

Conciliar a flor com a falsidade,

a pérola mais íntima com o estupro,

a úlcera íntima

das maravilhas.

Conciliar o canto com o espanto

diante da tragédia coletiva.

Impasse é uma poema de descoberta e constatação de perdas irreparáveis:

Algo me falta, mas falta

algo maior

na alma.

Talvez seja pela certeza desse imenso vazio, que poeta chegue á conclusão de que:

o chão da alma é tão sujo

que só o mundo o iguala.

Navegador de nuvens, o poeta sabe que a grande viagem ocorre dentro de si mesmo e para porto nenhum, como está dito em Registro:

Conheço muito lugares,

atravessei sete mares: a outra

margem

é aqui.

Imerso em dúvidas, e sempre à procura de si mesmo, o poeta persevera em Miragem:

hei de alcançar-me:

serei meu guia.

Destinatário de enigmas” (Pensando no Mestre), o artista, em um transporte zen, ameniza as dores do mundo:

Dádiva

é florir no invisível.

Que outra missão haveríamos de quer para a poesia, se não, dadivosa, “florir no invisível” da pobreza espiritual de uma vida “que ilude o real”,para empregar uma imagem do poema Soneto?

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