jump to navigation

LAVRADOR DA MEMÓRIA – Presente e Passado Sob o Céu de Samarcanda. abril 18, 2010

Posted by eliesercesar in Resenhas.
trackback

Ao participar, há pouco tempo, de um encontro literário, cujo tema era a relação da memória com a literatura, citei o poeta baiano Ruy Espinheira Filho como um dos artistas em que a memória se apresenta como elemento constitutivo de sua representação poética do mundo, da vida e das pessoas. Repito, agora, alguns exemplos de como, em sua lírica, Ruy procura resgatar o tempo perdido, não com lamentações e imobilismos passadistas, mas com a aceitação serena de quem sabe que, ao longo das anos e a à luz da experiência, o passado está cada vez mais presente e, por isso mesmo, jamais passa, como o rio caudaloso das lembranças em que tornamos a nos banhar nas mesmas águas, embora não sejamos mais os mesmos.
No poema Poções revisitado: algumas notas, de Heléboro, seu primeiro livro de poemas, Ruy empreende o resgate da memória:

E se o tempo passou
pelo beco dos Artistas,
apagando velhos rostos
e compondo gente nova,
só para os homens passou.
A arte viu com respeito:
conservou-a pura
a mesma
que neste Beco vestiu
(em data há muito perdida
no abismo) o primeiro gnomo.

No poema As meninas (de Julgado do Vento), plenamente consciente da força subterrânea da memória, Ruy sabe que “o passado não passa”. Em Viagem (de As sombras luminosas), Ruy Espinheira Filho demonstra que o passado é também uma ferida que não se cicatriza, pelo menos de todo:

Umas coisas valem
a dor da memória

Mas, é em Praça da Liberdade, do mesmo livro, que o poeta vai buscar na memória e com mais intensidade, o tecido com quem representará sua nostalgia de um mundo que ficou para trás. Depois de perguntar:

Quem de mim poderá
apagar eu mesmo?

O poeta confessa:

O que respiro é ontem.

Ao contrário do que já se disse, por aí, a poesia de Ruy Espinheira Filho não é triste e não se banha na morte. Tristeza, não. Melancolia, sim; mas aquela melancolia benfazeja, que provém da saudade e da certeza – como disse Carlos Drummond der Drummond – de que as “coisas findas, muita mais que lindas, estas ficarão”. Como, de fato, sempre ficam arraigadas na memória e, por mais triste que possam ser suavizadas pela pátina do tempo, mas imunes à poeira dos esquecimento. Aliás, como o próprio Drummond de “Mãos Dadas”, Ruy Espinheira Filho poderia bradar:

O tempo é minha matéria,
o tempo presente,
os homens presentes,
a vida presente.

O CÉU POR TESTEMUNHA

Em seu novo livro de poesia – Sob o céu de Samarcanda (Rio de Janeiro: Betrand Brasil, 2009) – Ruy Espinheira Filho demonstra, mais uma vez, que mesmo voltado para a memória, esse arcabouço intelectual do passado, é um poeta de mãos dadas com o presente, o mesmo presente do homem maduro que, no poema Nuvens, remete aos verdes anos:

O que marulha neste resto de sono
antes do amanhecer
é o cheiro do quarto em que dormi
na juventude…

Em Canção de sonho e lembrança, o poeta se banha, outra vez, no rio imemorial da infância:

Esta tarde lembra o sonho,
o sonho relembra um rio,
o rio sonha um menino
feito de água e de frio.

Note-se que é do tempo presente, da vida presente (uma determinada tarde nebulosa de sonho), que o artista evoca o passado. Como ocorre também no poema Tardes em que:

As pétalas cinzentas do céu
fizeram de você novamente um menino…

Ou ainda em Visita, em que o tempo parece malbaratar os melhores projetos:

O Tempo: nada
nos preparou
para ele, veio
silencioso
como uma nuvem, uma estação,
mais fria,
nevoenta,
por onde vagamos temerosos
do horizonte.

Tempo cíclico, que não para de doer, como eterno retorno da memória, como nos versos de Arco-íris:

Às vezes, como depois
de certo tempo.
Como depois e depois
e depois. Como
agora.

Em Vinte anos, Ruy Espinheira Filho revisita, duas décadas depois, o poema O pai, de A Canção de Beatriz e outros poemas, comovente incursão na lembrança do próprio pai; não mais empreendida pelo mesmo poeta, mas por outro homem, sensível e modificado pelo tempo, já que:
Nestes vinte anos
houve uma mudança de milênio…

Em Estantes, o menino antigo é iluminado com sol de primavera, para que ele mesmo, infante, possa iluminar o homem:

que rabisca estes azuis
sobre o papel.

Isso numa viagem sensitiva que em Águas permite ao eu poético:

Sentir que pode
voltar
à casa cinquentas anos
atrás
e ver o pai e a mãe
ainda jovens
e pegar a bicicleta
azul
e navegar nas fagulhas
da manhã.

Toda esta disposição de reviver o passado, suspenso na transitoriedade do presente, vai permitir que o poeta, como está dito em História de amor e morte, fique:

Refeito para seguir
em demanda de outras sortes
– e se afogar noutros olhos
e se morrer de outras mortes.

Se há ainda dúvida de que a memória é mesmo a matéria-prima suprema da arte (que poeta ou artista se formou se formou sozinho?), o tema volta, recorrente, em Exílio:

Resta somente a Memória,
deusa implacável, contando
a mesma encantada história
que por mim já foi vivida
e hoje está além das asas
das velas todas da vida.

Poderíamos continuar falando de outros poemas de Sob o céu de Samarcanda, como o do apocalíptico Os Herdeiros, com seu verso profético, caso o homem continue empenhando em destruir o planeta em nome do que quer que seja:

Nós, não deixaremos nada.

Poderíamos também mencionar a antiga prosa, redescoberta, com justiça, como poemas, contida em Sete poemas de outra era, mas julgamos que já basta para tentar demonstrar que, na condição de poeta, Ruy Espinheira Filho é também:

um lavrador da memória.

Anúncios

Comentários»

No comments yet — be the first.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: