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AVENTURA RENASCENTISTA – Ensaios de Francisco Ferreira de Lima navegam com Gabriel Soares de Sousa. abril 30, 2010

Posted by eliesercesar in Resenhas.
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Instigado pela volúpia do descobrimento, o português Gabriel Soares de Sousa chegou à Bahia por volta de 1570, dominado pelo temperamento do homem do Renascimento, “em que se mesclavam espírito de aventura, curiosidade ‘científica’, desejo de riqueza, religiosidade acentuada e vontade poder”. Arrivista bem-sucedido, 15 anos depois de sua chegada, Soares de Sousa já era um homem rico, com engenhos de açúcar no recôncavo e propriedades em Salvador. Porém, o maior legado dele para a história foi o Tratado descritivo do Brasil em 1587, considerado o mais importante mapeamento do país no Século XVI.

A aventura renascentista de Gabriel Soares Sousa é o principal tema do livro O Brasil de Gabriel Soares de Sousa & outras viagens do professor e escritor Francisco Ferreira de Lima. Resultado das pesquisas do autor junto ao Programa de Pós-Graduação em Literatura e Diversidade Cultural da Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), o livro publicado pela 7 Letras em parceria com a Editora da UEFS, além de seis textos sobre Soares de Sousa, traz ainda dois outros ensaios, ou viagens, como prefere o timoneiro das letras, Ferreira de Lima: Os atropelos do olhar: Caminha e as maravilhas de Santa Cruz e Gândavo: da história, da objetividade e suas traições. Porém, é de Gabriel Soares de Sousa que vamos tratar, aqui

Navegante da história dos grandes descobrimentos, Ferreira de Lima já havia içado as velas de sua nau literária e empreendido uma primeira viagem, com a publicação de O outro livro das maravilhas: a Peregrinação de Fernão Mendes Pinto, também marcado pelo fascínio do olhar cintilante dos viajantes que decidiram enfrentar perigos e mares nunca dantes navegados para esquadrinhar o planeta, “ver, nomear e contar”, como também fez Gabriel Soares de Sousa.

O novo livro de Ferreira Lima navega com velas pandas, singrando tranquilo em meio aos traiçoeiros bancos de areia e dos redemoinhos da linguagem acadêmica que, em muitos casos, resultam em livros herméticos e bocejantes, mais para serem ostentados do que propriamente lidos. “Voyuer da audácia alheia”, o leitor lerá com prazer os ensaios de Ferreira de Lima, mistos de história de aventuras e relato de viagens, contados com leveza e maestria.

No novo livro de Ferreira de Lima vemos Gabriel Soares de Sousa antecipar o marqueteiro moderno, ao convencer, com “arte aduladora”, como era lugar-comum naquela época, o rei Felipe II a financiar uma expedição às nascentes do São Francisco, “que daria seguimento à malograda aventura de seu irmão João Coelho, morto em meio do caminho, com vistas a localizar Vupabuçu, a lagoa mítica dos índios, de onde se acreditara jorrar ouro em pó a céu aberto”. Para vencer a pouca boa-vontade do monarca, Soares de Sousa lhe ofereceu o caderno com as impressões recolhidas ao longo dos 17 anos que morara no Brasil, o Tratado descritivo do Brasil em 1587, como mais tarde intitularia o brasilianista Francisco Adolfo Varnhagen.

“INVENTÁRIO DO REAL” – “Dominado pelo incêndio da ambição que contagiou tantos colonos”, Gabriel Soares de Sousa abandonou a vida rica e tranquila de senhor de engenho, “às margens férteis do Jiquiriçá”, para se embrenhar nas matas e nas estradas em busca de ouro e pedras preciosas que avultavam mais no imaginário dos aventureiros do que nas rochas incandescentes do sertão. Pra isso, se vale do olhar e é assaltado pelo susto, o espanto e a maravilha como sempre acontece na primeira viagem, a viagem inaugural que descortina um mundo novo, admirável e desconhecido. Ferreira de Lima situa seu personagem no contexto do Renascimento:

É no interior desse movimento do saber que se insere Gabriel Soares de Sousa. Isso equivale a dizer que ele se situa numa das vertentes fundamentais do Renascimento, aquela responsável, em última instância, pela adição de mundos novos ao mundo antigo. Mundo novo que deve ser adicionado ao velho não mais como uma pletora (objetivo nem sempre cumprido, é verdade), como acontecia com os viajantes medievais, mas como realidade domada, porque resultada do observação direta, único meio, dizia-se, de se por as coisas como realmente são.

E o que advém da observação direta de Gabriel Soares de Sousa é assim descrito por Ferreira de Lima:

O resultado do trabalho incansável do olhar é um minucioso levantamento do acervo natural brasileiro, de que praticamente nada fica de fora, aspecto que ainda espanta os pesquisadores contemporâneos. A medida é, assim, o instrumento de que se vale o olhar para proceder o inventário do real, que será milimetricamente esquadrinhado para efeito de catalogação:

Fauna , flora, rios e mares, índios e até seres imaginários, como o temível Upupiara, espécie de homem marinho da água doce, que aterroriza índios, ribeirinhos e pescadores, nada parece escapar ao olhar esquadrinhador de Gabriel Soares de Sousa. O canibalismo dos tupinambás, que se apraziam em comer seus inimigos num festim de vingança também figura no Tratado descritivo do Brasil em 1587:

Acabado de morrer este preso, o espedaçam logo os velhos da aldeia, e tiram-lhes as tripas e fressura, que mal lavadas, cozem e assam para comer, e reparte-se a carne por todas as casas da aldeia e pelos hóspedes que vieram de fora para ver estas festas e matanças, a qual carne se coze logo para se comer nos mesmos dias de festas, e outra assam muito afastada do fogo de maneira que fica muita mirrada, a que esse gentio chama moquém, a qual se não comer por mantimento , senão por vingança; e os homens mancebos e as mulheres moças provam-na somente, e os velhos e as velhas são os que se metem nesta carniça muito, guardam alguma assada do moquém por relíquias, para com ela de novo tornarem a fazer festas, se não oferecer tão cedo matar outro contrário.

Como Gabriel Soares de Sousa, outros navegantes ajudaram a escrever as páginas da aventura colonial portuguesa, como João de Barro, Diogo do Couto, Gaspar Correia, Frei Vicente do Salvador e Pero de Magalhães de Gândavo, empreendendo viagens cheias de riscos e perigos, cujos malogros fizeram o poeta Fernando Pessoa bradar:

“oh mar salgado, quanto do teu sal são lágrimas de Portugal

Gabriel Soares de Sousa, no entanto, foi um daqueles argonautas lusitanos que escaparam do malogro e como Júlio César, em Roma, pode se jactar:

Vim, vi e venci.

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Comentários»

1. Eugenio Magno - outubro 21, 2010

Muito bom para novo país recuperar esse grande e primeiro livro de 1587. Gostaria também de lembrar da historia de Francisco Teixeira primeiro exporador do Rio Amazonas.

2. Genesio F - fevereiro 25, 2011

Chico, um professor e pesquisador dedicado e que escreve bem, um grande amigo. Onde está você?


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