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MAPA LITERÁRIO – Valdomiro Santana resgata 70 anos de revistas e movimentos literários da Bahia. maio 12, 2010

Posted by eliesercesar in Resenhas.
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Depois de ter prestado um inestimável serviço às letras baianas, ao organizar, em 1995, a coletânea O conto baiano contemporâneo, sem falar em sua própria contribuição como contista – O dia do Juízo: Rio de Janeiro: Philobiblion, 1986 – o escritor, jornalista e editor Valdomiro Santana repete o gesto de generosidade, ao publicar a 2ª edição, revista e ampliada, de Literatura baiana 1920-1980 (Salvador: Casa das Palavras, 2009).

Imprescindível para estudiosos, pesquisadores, estudantes de letras e leitores em geral, o livro, que saiu pelo primeira vez em 1986, traz um mapa dos grupos, das revistas e dos movimentos literários que se alternaram ou conviveram juntos, em sete décadas de criação literária no Estado, intervalo de tempo que, como bem observa o professor e escritor Aleilton Fonseca, coincide com o período mais profícuo e criativo de sua história.

Não se trata de um livro de ensaios – como seria comum se esperar de um mestre em Letras, embora Valdomiro Santana não se furte a expressar suas opiniões, sempre esclarecedoras e pertinentes – mas de depoimentos, o que o torna ainda mãos original, ao dar voz aos próprios autores. Do modernismo, que chegou seis anos mais tarde na Bahia (em 1928, conforme o depoimento do poeta Carvalho Filho ), passando por movimentos literários como a Academia dos Rebeldes e revistas como Arco & Flexa, Samba, Caderno da Bahia, Ângulos, Mapa, Cordel, Serial e Hera, o livro de Valdomiro Santana abarca, de fato, o que de mais importante ocorreu na produção literária baiana em 70 anos do século passado.

Não só na produção, como também na vida boêmia e cultural de Salvador, uma cidade em transformação e devidamente conxtetualizada em seu tempo pelos diversos depoimentos dos escritores, como os do livreiro Getúlio Santana e do cartunista Nildão, sobre a saudosa Literarte, “uma livraraia bem-humorada”, na definição de ambos. Há ainda um panorama da literatura produzida em Itabuna, no sul do Bahia, nos anos 60 e 70 do Século XX, reproduzido na entrevista do professor Plínio de Aguiar. O livro traz também depoimentos de Jorge Amado (Academia dos Rebeldes), Carvalho Filho (Arco & Flexa), Bráulio de Abreu (Samba morreu de desgosto), Vasconcelos Maia (Cadernos da Bahia), Florisvaldo Mattos (A geração de Glauber), José Carlos Capinam (A revista Ângulos e minha geração), Guido Geurra (O problema editorial da literatura baiana), Antonio Brasileiro e Ruy Espinheira Filho (Cordel e Serial), Myriam Fraga (Coleção dos Novos), Roberval Pereyr (Hera: um (quase) depoimento), Washington Queiroz (Hera – uma revista que acabou, mas não o sonho), Juraci Dórea (Hera: um movimento, mas do que um grupo) e Iderval Miranda (Grupo Hera, um acaso, e Feira de Santana, um lugar de escambo).

Alguns, como sempre acontecem nos casos de antologias e coletâneas, dirão que há omissões, pois Fulano ou Sicrano, expoente disso ou daquilo, faltou ser ouvido. Pode ser, mas entendemos que sem prejuízo para o vasto painel das letras na Bahia traçado por Valdomiro Santana.

Autor do Projeto de Lei que assegurou a liberdade de culto religioso no Brasil, quando era deputado federal pelo Partido Comunista Brasileiro, Jorge Amado, em seu depoimento, recorda como candomblé era perseguido no país, inclusive na Bahia: “ […] A polícia invadia os terreiros, quebrava, prendia, espancava. Era terrível. Os pais-de-santo não podiam fazer nada. Alguns políticos influentes tinham alguma ligação com o candomblé, mas escondiam essa ligação. O Juracy Magalhães, por exemplo, era ligado ao pai-de-santo Jubiabá. O apoio dos políticos não era efetivo – davam dinheiro, ajudavam, mas na hora do pau comer, eles tiravam o corpo fora”. O autor de Jubiabá é premonitório, ao falar da degradação do culto afro-brasileiro pelos interesses publicitário-mercantis (leia-se o turismo de excentricidades): “Um dia, provavelmente, o candomblé será balé, será só canto”.

O poeta Carvalho Filho informa que os primeiros livros modernistas publicados na Bahia foram Moema, de Eugênio Gomes, e Rondas, de sua própria autoria, ambos de 1928. Parnasiano tardio, o sonetista Bráulio de Abreu, descrito por Valdomiro como “um modesto funcionário público e alfaiate”, manifesta uma humildade bem distante do choque de egos tão comum nos ciclos lietrários: “Sou apenas autodidata. Nunca estudei coisa alguma. Sou um homem que entrou num ginásio para colocar fios. […] Faço uns versinhos, que são uma cachaça, e disso a gente não pode fugir”.

O escritor Vasconcelos Maia faz uma sincera reflexão sobre os movimentos e os (nem sempre civilizados) embates literários: “Será que valeu à pena tanta agitação? Será que conseguimos o objetivo que almejávamos? Será que nossa geração chegou ao pretendido ou apenas alguns nomes atingiram os propósitos ansiados?”.

Florisvaldo Mattos propõe a volta das poesia à sua oralidade original: “Ora, a poesia perdeu um espaço enorme, porque se devotou demasiadamente ao livro e esqueceu o seu passado oral. É incrível como os poetas não perceberam, ao longo do tempo, o significado do processo de revalorização da voz humana, através do telefone, do rádio, do disco, do gravador etc…essas tecnologias que foram surgindo e logo se incorporaram ao acervo cultural da humanidade”. José Carlos Capinam tangencia a pobreza cultura de Salvador, decorrente, talvez, do fato de que ela “deixou de ser uma capital do Nordeste para se transformar numa espécie de última capital do Sul do país”.

Guido Guerra faz um balanço das aventuras editoriais da Bahia e aponta a ferida historicamente aberta: “Claro, há uma crise editorial, uma crise de tudo no país. Quem tem dinheiro para comprar livro? Muita gente se queixa de a Bahia não ter uma editora. Mas, como furar o bloqueio do eixo Rio-São Paulo? Como resolver o problema da distribuição? Será que os autores baianos mais conhecidos aceitariam ser editados aqui? Acho que tudo isso é possível”.

Em entrevista conjunta, os escritores Antonio Brasileiro e Ruy Espinheira Filho falam da experiência editorial das revistas Cordel e Serial, que publicaram poesias no final dos anos 60 e início dos anos 70 do século passado. “O nosso objetivo era evidentemente publicar, mas, ao mesmo tempo, criar uma comunhão entre as pessoas que fazem poesia ou se interessam por poesia”, observa Brasileiro. Ruy, por sua vez, lembra que “o chamado boom da literatura brasileira, que houve em 75 e 76, principalmente na área do conto, não chegou aqui – ficou restrito ao Rio, São Paulo e Minas. Em Salvador, não se publicou nada nesse período, não se fez uma revista, não houve um suplemento, nenhum contista foi revelado”.

HERA FLORINDO NA INDIFERENÇA – A poeta Myriam Fraga refaz a trajetória da Coleção dos Novos, da Fundação Cultural do Estado da Bahia que, de 1980 a 1983, publicou 14 autores inéditos, muitos deles, hoje, em plena ativididade produtiva como Carlos Ribeiro, Aleilton Fonseca, Roberval Pereyr, Washington Queiroz e Mirella Márcia. “Hoje, 23 anos depois, reconhecemos, Com orgulho, o acerto daquela proposta”, avalia Myriam. Em meio da cena literária de Itabuna, nos anos 70, Plínio de Aguiar recorda as andanças, líricas, erráticas e arrebatadas, do poeta Firmino Rocha, “o anjo bêbado”, autor daquele é, talvez, o maior poema pacifista da lírica brasileira, gravado em placa de bronze na sede da ONU, em Nova Iorque e termina com estes versos de desesperança:

Adeus ribeirinhos dourados.

Adeus estrelas tangíveis.

Adeus tudo o que é de Deus.

Deram um fuzil ao menino.

Criada no começo dos anos 70, em Feira de Santana, sob a inspiração de Antonio Brasileiro e com vinte números editados entre 1973 e 2005, o que atesta a sua impressionante longevidade, em uma terra em que as revistas e suplementos literários morrem praticamente nos primeiros passos, a revista Hera tem sua história contada pelo próprio Brasileiro, por Roberval Pereyr, Washington Queiroz, Juraci Dórea e Iderval Miranda; uma trajetória de encontros e desencontros, mas sobretudo a confirmação da permanência da poesia, numa terra de comerciantes, refratários à labuta dos “fazendeiros do ar” “Sempre confiamos na eficácia da estética, como forma efetiva de resistência em todos os sentidos, quando se trata de resistir através da arte”, diz Roberval. “A Hera acabou, na verdade, em 1996, mas o o sonho continua”, informa Washington. Juraci Dórea politiza a discussão e lamenta a pouco acolhida de Feira de Santana à revista mais duradoura da Bahia: “Não se faz uma grande cidade apenas com pavimentação de ruas”.

Ácido e sintético, Iderval Miranda diz que “o Grupo Hera nunca foi grupo, mas um acaso, por sorte, registrado em poucas páginas amarelecidas e soturnas”. O fel das palavras sobra também para Feira de Santana: “A cidade é um lugar de escambo. Nasceu assim, vive assim e morrerá assim. O nome diz tudo”. O idealizador da revista, Antonio Brasileiro faz o balanço final: “Dávamos nome à Feira: saíamos em jornais, nos estudavam nas universidades. Em 2002 ‘festejamos’, entre aspas, os 30 anos da revista Hera. A rigor, uma festividade apenas histórica. O ‘grupo’ ainda se reunia, mas já não era o que fora. Se formos ser severos, teremos que nos contentar com os primeiros dez anos. Trinta, não”.

Reeditado em boa hora, o livro Literatura baiana 1920-1980 tem também o mérito de comprovar que os movimentos e as revistas literárias nascem com o mesmo propósito de sacudir o marasmo cultural da província e libertar a arte das amarras de quaisquer preconceitos, sendo que, muitos perecem pelo caminho, enquanto outros resistem mais tempo como uma hera florindo no muro úmido da insensibilidade ou no terreno baldio da indiferença.

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Comentários»

1. Gerana - maio 23, 2010

Valdomiro é um escritor atento aos movimentos literários e faz um trabalho de grande importância com este resgate. A história da literatura precisa de pessoas assim.

2. paulo Cezar Alves Custódio - julho 5, 2010

Gostaria de adquirir O livro Mapa Literário.
Abraço
Paulo CAC


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