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FAROESTE CABOCLO – – No conto Sol, Vasconcelos Maia constrói um clima de western sertanejo. julho 4, 2010

Posted by eliesercesar in Sem categoria.
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Apontado por muitos leitores e críticos como maior momento da criação de Vasconcelos Maia, o conto Sol pode também ser interpretado como um faroeste sertanejo – um faroeste sem tiros é verdade, apenas sugerido, já que o duelo final, prestes a acontecer, acaba não se realizando. Mas o clima é de antagonismo crescente entre um forasteiro e uma pequena cidade abrasada pelo calor impiedoso;  calor que parece ditar o comportamento das pessoas.

Sol é uma narrativa cinematográfica, um roteiro a se oferecer a um diretor de cinema, um John Ford que pudesse fazer um western sem tiros. O conto começa com o trem parando e, um homem gordo descendo na estação, Evaristo Peixoto, coletor fiscal. Notem-se  que a escolha de um homem  gordo é proposital porque os gordos sofrem mais ao calor do sol. Logo no início, “uma velha encarquilhada, rosto de múmia envolto num chalé sujo de pó”, olha pela janela do trem e, num muxoxo agourento, compara: “Até parece campo-santo!”.  Um campo-santo como a lembrar a Comala de Pedro Páramo. O tabuleiro queimado, o sol caindo em cheio, uma estação em ruínas, o nome da localidade incompleto na placa de identificação – bom artifício já que a história poderia se passar em qualquer lugar desse sertão sem fim – mendigos e aleijões pelas ruas escaldantes. “Imundice”,  pensa o corretor, o calor esmagando-o “como uma infecção aguda”. O desconforto é total, físico, para, mais tarde, transformar-se em emocional.

A má vontade das pessoas em prestar informações é acintosa. E a canícula insuportável, fazendo o homem gordo passar o lenço na cara, no pescoço, na calva, o suor empapando-o o colarinho engomado, o sol castigando-o, “achava que nunca sentira tão mal em sua vida”. Ele vai para uma espelunca de pensão, onde, a desmaiar de fome,  encontra apenas “comida de pobre”. Mesmo  dentro de casa, “o calor tiranizava, como se o sol despejasse chumbo derretido sobre o telhado da pensão”. Tenta dormir, mas, “inundado se suor”, desperta.

Pediu um banho. “Não havia água corrente. Não havia água de chuveiro. Mal pôde refrescar o corpo numa tina de água fria”.  Saí e vai à Coletoria. É recebido pelo coletor local, “homem seco, pele e ossos, face escaveirada, chupando um cigarro de palha, cara carrancuda”:

Evaristo Peixoto foi logo dizendo;

– Quanto mais cedo eu terminar meu trabalho aqui, melhor.

– Não há muito trabalho – respondeu o coletor. – O comércio é pequeno, são poucos os contribuintes. Já foi importante, há muito tempo deu boa renda. Mas este sol, foi este sol…Sabe? (acrescentou como para si mesmo), às vezes sinto os miolos se derreterem em minha cabeça quando vou para a rua e este sol bate dez minutos em minha cabeça. Tem também este riacho…

– Schistosoma…

– Bom prevenir-se. Só beba água fervida. Só tome  banho em água fervida.

– Não gostaria de morar aqui. Acabaria mal. Louco, bêbado, assassino. Este sol dá vontade de matar.

A sentença “este sol dá vontade de matar”, lembra O Estrangeiro, de Alberto Camus, quando Mersault diz que matou o árabe por causa do sol. Evaristo Peixoto é também um estrangeiro naquele lugarejo calcinado pelo sol, quase deserto como uma cidade fantasma de filme de caubói.

A primeira parte do conto é o reconhecimento de um território, uma certeza de hostilidade para quem vem de fora e tenta se intrometer naquele mundo parado no tempo e no calor de vermes que se aquecem à luz do sol.

O HOMEM GORDO VERUS O FRUTO PECO

Na segunda parte, começa com uma descrição que lembra o romance social dos anos 30 do século passado,  em que pontificavam José Lins do Rego, Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, Jorge Amado e outros nordestinos:

Barris de cachaça sobre carros de boi que guinchavam agudamente, maltrapilhos pelas portas quitandas, pirralhos barrigudos comendo barro, porcos, bodes e jegues, pastando livres pelas ruas. Viu mulheres feias, disformes, estragadas e sofridas que lhe pareciam assexuadas, que o repugnavam…

A parte final do conto é o duelo entre Evaristo Peixoto e seu Miguelinho, fabricante de cachaça clandestina e, por isso, longe do alcance da  tributação. É a luta do funcionário ético contra o comerciante desonesto. O embate do forasteiro contra o vilão e, por isso, mesmo, como um faroeste, a mobilizar o pequeno lugar. A descrição que Vasconcelos Maia faz do personagem é de um realismo insuspeitável de instantâneo fotográfico:

Era como um fruto peco. Pequeno, murcho, amorfo, parecia nunca ter passado pela mocidade normal, pulando duma puberdade débil à madureza anêmica. No rosto amarelo, chupado, sem queixo, de lábios finos e nariz insignificante, pareciam viver apenas os dois olhos, graúdos e protuberantes, com nódoas que desnudavam um fígado em ruínas.

Pois, esse fruto peco, era o manda-chuva do lugar, pobre-coitado investido de algum poder numa terra de impunidades. Evaristo chega ao armazém de seu Miguelinho . É recebido “com um desprezo ostensivo”.  O homem peco o deixa examinar o livro caixa, pois, entendido de contabilidade, não deixaria brecha à fiscalização. O corretor de fora diz, num tom de ameaça velada, que espera não ter que atuar o comerciante. Este  se mantém impassível. Evaristo julga estar diante de uma hiena, mesmo sem jamais ter visto uma hiena. Mas intui que uma hiena deveria ser assim: provocar asco. É quando ocorre o primeiro duelo: olhado como uma hiena, inferiorizado como uma hiena, o comerciante baixa os olhos e recua.

Enquanto o coletor e seu auxiliar local examinam os livros contábeis, seu Miguelinho descansa na rede, como a desdenhar do trabalho de ambos. Ao meio-dia, ordena ao empregado que feche a loja. Evaristo protesta. O outro responde que está na hora do almoço. O coletor pede para ficar na loja, trabalhando.  Seu Miguelim responde que na casa dele quem manda é ele. Vencido, Evaristo diz que voltará às três.

Nesse horário, o povo se esquece da sesta e aguarda na rua, como o desfecho de um western, Wyatt Earp, sem Doc Holliday, no famoso tiroteio com a quadrilha dos Clanton, em Paixão dos Fortes, clássico depois refilmado.

No momento aprazado,  seu Miguelinho não volta. Evaristo fica impaciente e o corretor local o previne de que “seu Miguel é um tipo diferente e doente”, que todo mundo no lugarejo é doente, mas que o comerciante é um doente diferente. Diz que todos sabem do depósito clandestino de bebida, no fundo armazém, mas avisa que os fiscais que chegaram antes preferiram fazer vista grossa e que não vale apenas investigar, basta apenas  dar um visto de que está tudo em ordem e ir embora, despreocupado. O fiscal chama um menino, que recebe um níquel, para avisar a seu Miguelinho, que ele está atrasado. O garoto volta e diz que o comerciante não vai mais abrir a loja.  Evaristo reage com bravata:

– Este cachorro não brinca comigo.

Nova onda de excitação buliu na gente do povoado. Outras cabeças juntaram-se  às que estavam à janela. Murmúrios revoaram. Mães chamavam os filhos para junto das saias. Vapores subiam do solo fervente.

– Pois diga aquele cachorro que, se não vier, irei buscá-lo.

Nervoso, suarento o coletor [local] consertou o recado: que seu Miguelinho fizesse o favor de vir abrir o armazém, pois Sr. Evaristo contava viajar no dia seguinte. Nova espera debaixo do sol angustioso, sob a atenção insólita do povinho degenerado.

Miguel Noronha aparece e o homem gordo percebe que “nenhuma gota de suor manchava aquele homenzinho peco; como se ele fosse imune ao sol e ao calor”. O fiscal volta a inspecionar os livros contábeis, mas sabe que nada encontrara neles. Reconhece que a escrita está em ordem, mas intima a examinar as mercadorias. O comerciante responde que se os livros estão em ordem não compete mais nenhuma inspeção ao fiscal. O outro teima, diz que sabe da cachaça clandestina .Vai autuar o comerciante,  que, impassível, como num desafio ao duela final, afirma que fiscal nenhuma passou do balcão de sua loja.

Evaristo pede ao coletor auxiliar que chame o prefeito. Não está. O delegado. Saiu. O subdelegado. Viajou. Terra sem lei e sem alma, como um faroeste.  Numa explosão, o coletor chefe chama o subordinado à responsabilidade: “que espécie de funcionário é, que deixa um contribuinte lesar impunemente o Estado?  O outro responde: “Ninguém virá”. Claro, não tinha mais nenhuma autoridade no lugarzinho miserável do que o  único comerciante próspero. Novamente o clima de desfecho de um faroeste caboclo:

Dentro do armazém, o homem gordo sabia a expectativa  dos que estavam lá fora, aquele povinho degenerado, catando sombras onde se abrigar, com medo de chegar perto. E o sol castigando os telhados, abatendo-se ferozmente sobre o arraial queimado.

O fiscal reitera que precisa examinar a mercadoria. O dono da loja fica calado.  Evaristo sua por todos os poros. Retira do bolso uma pequenina máuser.  O outro com mão na gaveta, como se empunhasse uma arma. O coletor quer pular o balcão, mas as pernas não obedecem. Quer atirar, mas os dedos endureceram.  Baixa o braço  e ouve também o som de uma gaveta se fechando. Volta às cotas ao homem peco e vai embora, com o gosto amargo da derrota e a convicção de que era igual àquele povinho degenerado.

Como num poema de T.S Eliot, ele, derrotado, poderia ir pensando, enquanto o povinho degenerado o olhava deixar o lugar: “ Percebi quando titubeou minha grandeza”.

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Comentários»

1. Gerana - julho 17, 2010

Estou esperando muito pelo livro sobre Vasconcelos Maia. Avise assim que estiver pronto.

2. Os números de 2010 « Salve, Cesar – O blog de Elieser Cesar - janeiro 3, 2011

[…] FAROESTE CABOCLO – – No conto Sol, Vasconcelos Maia constrói um clima de western sertanejo…. julho, 2010 1 comentário 4 […]

3. Marcos Aleixo - janeiro 20, 2011

Elieser,caro
Me explica melhor esse texto. Muito bom!. É um ensaio seu? Quem é Vasconcelos Maia?

É um bom duelo, e perde o bom. Muito real… e perde o bom. Quem sabe a sua grandeza nao seja aceitar a derrota?

eliesercesar - janeiro 20, 2011

Ol, Marcos. O texto parte deum livro sobre Vasconcelos Maia – um constista baiano, que retratou, como poucos, as coisas e a gente da Bahia – que escrevi para coleo Gente da Bahia, editada pela Assembleia Legislativa. A propsito da Coleo, acaba de sair um livro meu sobre um figura popular da nossa terra, Gabriel Saraiva, mande seu endereo que envio um exemplar para voc.

Forte abrao

Elieser Cesar

4. Ande Airam - janeiro 25, 2011

Elieser, como faço para ter acesso a este livro que vc escreveu sobre Vasconcelos Maia?
Teria muito prazer em lê-lo.
Conhece mais algum trabalho sobre a obra deste escritor?
Pode me dar mais informações?
Obrigada,

eliesercesar - janeiro 25, 2011

Cara Ande, o livro sobre Vasconcelos Maia está no prelo e deve sair ainda neste primeiro semestre, pela Coleção Gente da Bahia, editada pela Assembleia Legislativa. Tão logo saia, guardarei um exemplar para você. Quanto a mais informações sobre o escritor, você pode encontrar na biblioteca da Academia de Letras da Bahia, na pasta de V.M.
Boa sorte!


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