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Akizar- Capítulo 2: Os Crocodilos Voadores. agosto 2, 2010

Posted by eliesercesar in Akizar, a palavra mágica..
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Em que se conta como o Vigilante dos Caminhos Sem Medo, tal Cavaleiro Andante das Galáxias, dizimou feroz esquadrilha de crocodilos mutantes, primeiro obstáculos até às magníficas Torres Submersas.

Nunca se soube como lhes surgiram as asas. Alguns cientistas sustentaram que os Crocodilos Voadores resultaram das constantes mutações provocadas pelas  guerras bacteriológicas da Civilização da Coca-Cola em Drágea. Logo depois da última batalha, o continente transformara-se numa vasta cratera calcinada. Foram precisos muitos anos de infatigável trabalho e o sacrifício de milhares de vidas para reconstruir o planeta.

Muito depois, eu virei o Vigilante dos Caminhos Sem Medo e já encontrei bestas apocalípticas como Os Crocodilos Voadores. Antes confinados aos charcos e aos alagadiços, esses monstros,  com asas, passaram a  planar sobre as aldeias, terrível esquadrilha de aviões carnívoros.

Os crocodilos eram o primeiro obstáculo  a me separar das Torres Submersas, onde o Magnânimo Guardião haveria de me devolver, intacta, a Princesa dos Olhos de Cristal. Mesmo sem um braço e sem uma orelha, eu estava preparado para enfrentá-los. Contava, em meu auxílio, com Adestrus, com o Barbante Encantado e (o maior dos trunfos) a palavra mágica: Akizar!

Nem todos os crocodilos voavam. Pouco mais de vinte deles tinham essa habilidade. A grande maioria continuava a rastejar a fria barriga na lama e no mato.  Os crocodilos comuns eram presas fáceis dos voadores. Alados e rastejantes estavam engalfinhados numa luta sem tréguas. Senhores dos pântanos, os Crocodilos Voadores pareciam  detestar a humilhante condição de réptil de seus ancestrais. Como uma frota de aeronaves em guerra, costumavam atacar seus antigos irmãos, incapazes de responder a agressão aérea. Eu contava com esta divisão a meu favor.

O Mago Rekerk me ensinara uma mistura de ervas, com a qual, em poucos dias, cauterizei o coto do braço. Um bálsamo silvestre aliviou-me as dores da orelha extirpada. Galopei Adestrus, amarrei o Barbante à  cintura; no coldre, levei a Pistola de Gás Paralisante. Sem mais demora, parti na rota dos temíveis crocodilos. Pelo relato dos viajantes que conseguiram sobreviver aos ataques desses monstros, eu já sabia que o chefe do bando era um crocodilo verde com uma bola vermelha no meio da barriga, com cerca de três metros de comprimento e uma queixada capaz de destroçar toda uma pedreira.

Depois de um dia de viagem, avistei o primeiro bicho. Tinha as asas transparentes, como uma libélula e todo o pescoço mergulhado no rio, fera sedenta após longa travessia, intuí. Desci, com Adestrus, ao encontro do crocodilo. Desatei o Barbante Encantado e, num estrondo, gritei a palavra mágica. Akizar!

Como um vaqueiro dos bons, joguei o valoroso fio, que mergulhou na água e emergiu enlaçando o  pescoço do crocodilo. Com mão de ferro, girei o cordão mágico e, com ele, o voador. Akizar! Berrei de novo e uma lança surgiu em minha mão. Com ela (tal  Cavaleiro Andante das Galáxias), trespassei o bucho do animal. Um líquido verde e consistente, pasta de menta, jorrou da barriga da fera, com um último e estremecedor rugido. “Menos um. Agora, só uma lagartixa gigante e cheia de dentes”, pensei, antes de ir ao encontro dos demais de sua espécie.

Uma hora depois, encontrei os outros voadores, reunidos em torno da carniça de dezenas de crocodilos rastejantes. “Os voadores comem os répteis”, compreendi repugnado com aquele banquete absurdo. Acostumado às rápidas decisões dos campos de batalha, não perdi tempo. Saquei a Pistola de Gás Paralisante e bradei, ainda mais forte, a palavra mágica, para despertar os inimigos. Os crocodilos voltaram-se para mim – os olhos, opacas bolas de bilhar – primeiro aturdidos, depois como se não acreditassem em semelhante intromissão de um homem em seus domínios e, por último, com ferocidade reconquistada.

Um farfalhar de asas agitou o espaço, como uma frota de helicópteros. Queixadas se abriram, bizarros canhões preparados para o ataque.  Akizar! Disparei a pistola. O jacto imobilizador atingiu em cheio as asas dos animais. Transformei o Barbante Encantado numa espada afiada. Girando Adestrus (carrossel avassalador), decepei as asas dos crocodilos. Contei doze bichos. Restavam seis iguais a eles. Depois me escondi na mata e esperei a chegada dos outros voadores. Não demoraram. Baixaram velozes. Como imaginei, atacaram os das asas decepadas, confundindo-os com os rastejantes. Contente com essa ajuda, decidi liquidar os crocodilos recém-chegados. Eram oito. Desta vez, o Barbante enlaçou todos de uma vez. Como se carregasse uma corda de caranguejos , levei os prisioneiros para o trecho do rio infestado de rastejantes. Ainda amarrados (minha força era outra vez vulcânica), joguei os Crocodilos Voadores no meio de seus irmãos anfíbios.

Foi um ataque de piranhas. Em poucos segundos, restaram boiando no rio apenas o couro e a mancha verde das entranhas dos animais devorados. Faltava localizar o chefe. Achei-o numa ilhota, a poucos metros da margem do rio, acompanhado de sua guarda pessoal, outros quatro crocodilos. Davam a impressão de conversar sobre algo crucial, tal a agitação do líder, cuja mandíbula batia num concerto alucinado. Akizar! Pousei com Adestrus no centro da ilhota.

O Crocodilo-Rei me viu, num relance. Em seguida, lançou da goela uma chama espessa. Precavido contra ataques surpreendentes e repentinos, mergulhei no rio, a tempo de me desviar do fogo. Além de voador, aquele era também um Crocodilo-Dragão. Segurando firme o rabo de Adestrus, que ficara nadando, emergi da água com força redobrada. Akizar! Num instante, um escudo flamejante surgi ali para me proteger dos escarros de fogo. Os quatro seguranças do Crocodilo-Rei voaram ao meu encontro. Não eram tão rápidos quanto o meu Cavalo a Jato.

Adestrus fez giros mirabolantes nos céus para deixar os perseguidores tontos. Grogues, os quatro inimigos foram facilmente enlaçados pelo Barbante Encantado. Metamorfoseado numa fina e afiada lâmina, o cordão cortou os crocodilos ao meio. Só restava o Crocodilo-Verde.

Distraído com o combate, não vi o monstro atrás de mim. Uma descomunal rabada me derrubou do cavalo. Por sorte, voava baixo e cai outra vez no rio. Combatente anfíbio e aéreo, o crocodilo afundou na água. O embate no rio não era vantajoso para mim. Nadei o mais que pude, com a fera em meu encalço, a bocarra pronta para me trucidar, se o cansaço me atrasasse um segundo.

Com vigorosas braçadas, conseguiu alcançar a margem do rio. Ali reuniram-se uns cem rastejantes, espectadores do combate final entre um irmão-mutante e um homem que poderia livrá-los, para sempre, da tirania dos Crocodilos Voadores. “Adestrus, pegue-me”, ordenei e o Cavalo a Jato me apanhou, segundos antes do Crocodilo-Rei investir, goela escancarada, sobre o terreno onde há pouco eu estava.

Ao verem o chefe dos voadores igualado a eles, em terra, os anfíbios tentaram atacá-lo pelos flancos.  O Crocodilo-Dragão rodopiou, escarrando fogo em toda direção, queimando as fuças dos inimigos mais próximos e afugentando os demais. Em seguida, parecendo satisfeito com  aquela demonstração de força sobre aqueles que não eram seu tope, veio ao meu encontro.

Eu havia perdido o escudo flamejante. Para não ser atingido pelas chamas do Crocodilo-Verde, contava apenas com a destreza do meu cavalo e essa foi minha salvação, pois Adestrus conseguiu dar vários dribles no fogo do chefe dos voadores, sem sequer sair chamuscado, quanto mais incinerado, como pretendia o Bicho-Fornalha.

No céu a perseguição continuava, com o crocodilo vomitando chamas e Adestrus se esquivando. Chegara o momento de apelar outra vez para a palavra mágica. Akizar! Um grande extintor de incêndio apareceu atrelado à sela do meu cavalo. Mesmo com um braço só consegui manusear o utensílio e parti para o contra-ataque.

Quando o Crocodilo-Dragão cuspiu sua chama mortal, acionei o extintor. Entalado, o Crocodilo-Chefe começou a cair qual um caça abatido em bombardeio. Desabou no alagadiço, com a barriga para cima. Compreendi que seu ponto fatal era a grande bola vermelha pouco acima do ventre.

Rápido, apanhei um estaca e (lança improvisada) enterrei-a na marca rubra do inimigo. O uivo do Crocodilo-Rei sacudiu muitas léguas. Uma substância verde jorrou do bucho da fera, salpicando uma grande extensão de terra ao redor. Plantas, ervas, pequenas árvores e animais miúdos foram pulverizados pelo sangue de ácido.

O rei dos voadores foi murchando, definhando até virar uma carcaça esturricada. Logo que o viram liquidado, uns vinte rastejantes saíram do charco e carregaram a couraça calcinada.

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Comentários»

1. Gerana - agosto 4, 2010

Muito bacana.


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