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Akizar – Capítulo 3 – O Ciclope Serifan agosto 8, 2010

Posted by eliesercesar in Akizar, a palavra mágica..
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O CICLOPE SERIFAN – Onde se conta a estratégia do nosso herói para vencer o duelo com um gigante caolho, glutão e canibal, que mantinha aprisionada uma provisão de seres humanos e cuja ferocidade inibia o movimento do mar.

Serifan tinha uma particularidade que o diferenciava dos demais ciclopes: seu único e enorme olho estava esparramado no meio da testa; não deitado, natural nos outros gigantes de sua espécie, mas em pé. Não propriamente em pé; um pouco perpendicular, como um olho transversal. Acho que ele via tudo de banda. Este defeito adicional, numa anatomia já deformada, poderia me ser útil.

De gulodice desmedida, Serifan criava homens, como porcos em chiqueiros, para comê-los às dezenas, petiscos incapazes de diminuir a sua fome portentosa. Vestia apenas uma tanga. Tinha um grande porrete, com o qual esmagava todos aqueles (pessoas ou bichos), que tivessem a má sorte de cruzar o seu caminho. Morava numa gruta à beira de um mar de águas paradas. As pessoas mais crédulas diziam que a ferocidade do Ciclope inibia, inclusive, a maré.

Empunhando uma espada medieval, cavalguei Adestrus à procura de Serifan, mas minha busca foi retardada, quando cruzei com um enxame de moscas gigantes, cada uma do tamanho de urubu. Depois de um zumbido ensurdecedor, os desmedidos insetos expeliam pela boca pegajosa uma substância tóxica, que paralisava qualquer animal por um dia inteiro.

Homens e bichos atingidos pela gosma sonífera acabavam devorados pelas feras da floresta. Passei todo o dia escondido com Adestrus na mata, tempo para encontrar os ingredientes de um potente inseticida, fórmula do Mago Rekerk. Preparado o veneno, ordenei ao Barbante Encantado que assumisse a forma de uma mangueira comprida. Voei com Adestrus, furando o bloqueio das moscas. Antes que elas pudessem esboçar qualquer reação, manejei o Barbante e comecei a borrifar o inseticida nas grandes  nuvens negras voando lá embaixo.

Com um chichiar metálico, as moscas gigantes caíam aos milhares. “Agora, ao Ciclope”, pensei. Quando cheguei à beira da gruta, não encontrei Serifan. Aproveitei a ausência dele para libertar de uma jaula fétida cerca de duzentos homens e mulheres, mantidos em cativeiro e alimentados para a merenda do gigante. Ferdinando, o mais falante dos prisioneiros,  contou que Serifan, seguindo um costume de todas as manhãs, saíra cedo para inspecionar seu território.

– Toda semana ele renova sua provisão de homens, invadindo aldeias e povoados. Não duramos mais que sete dias em cativeiro. Graças a você estamos salvo, pelo menos por enquanto, viajante – disse Ferdinando.

– Sou o Vigilante dos Caminhos Sem Medo – identifiquei-me.

– O Vigilante! Louvado seja Deus! Ouvimos falar de você, de como enfrentou a Maldição das Estátuas Animadas e liquidou os Crocodilos Voadores. Seu nome é justiça, Vigilante dos Caminhos Sem Medo! – reverenciou, boquiaberto, Ferdinando.

– Modere sua admiração. Sou igual a vocês, diferente apenas  pela força e o poder que a palavra mágica me dá. No mais, igual a qualquer mortal – pedi, num acesso de fingida humildade.

Combinei com Ferdinando um plano para matar Serifan. Os prisioneiros voltaram para o cativeiro como se nada tivesse acontecido. Escondi Adestrus na mata. Vencendo o nojo ao fedor, também entrei no chiqueiro.

O Ciclope retornou no começo da tarde. Trazia num imenso bocapiu uma ração extra de homens. Despejou de vez o conteúdo no chão. Alguns dos novos prisioneiros morreram naquela aterrissagem desajeitada. Faminto após a incursão em suas terras, Serifan meteu o braço de guindaste  chiqueiro adentro e mastigou um grupo mais próximo de pessoas. Ferdinando interveio:

Serifan! Seri, meu velho! Modere seu apetite. Temos aqui um prato especial para você. Um homem criado em laboratório, antes da guerra da Civilização da Coca-Cola em Drágea. Sua carne, com proteínas concentradas, basta para alimentar todo um exército de Ciclopes. Seus nervos são macios  e leitosos como palmitos. Seu sangue contém o Elixir da Força Bruta, capaz de lhe tornar o mais forte dos gigantes. Não perca tempo com outras vitaminas. Leve-o à mesa, Seri, antes que a Megera da Venta Cavilosa tome, para si, esse repasto do céu.

Ao ouvir o nome da Megera, Serifan arregalou ainda mais a tangente de seu olho.

– A Megera ?! A Megera da Venta Cavilosa, maldita seja, não me roubará este manjar celestial. Basta ter inclinado o meu olho. Também quem me mandou olhar para aquela peste… Vamos, homenzinho, mostre logo a refeição que vale mais do que vocês todos – impacientou-se o gigante.

Ferdinando fez uma mesura, inclinando os ombros e abaixando um pouco a cabeça, como os artistas de circo. “Ei-la”, apontou-me. Serifan abriu ainda mais a vesga amêndoa de sua cara. Ele me olhava com o pescoço dobrado. Portanto, tinha de mim uma noção unilateral. Essa limitação não impediu o imenso troglodita de ver os meus defeitos:

– Esse, o alimento dos deuses ?! É cotó. Não tem uma orelha. Ninguém engana Serifan.

O gigante ameaçou destruir, com um soco, todo o chiqueiro. Ferdinando não perdeu o sangue-frio.

– Calma, Seri.

– Não me chame de Seri, homenzinho.

– Desculpe. Calma, Serifan.

– Desembuche.

– Esse homem é mesmo muito especial. O braço dele alimentou uma tribo inteira de canibais. Arrancada por cientistas, sua orelha foi reduzida a minúsculas células que devolveram a audição a um milhão de surdos. Digo mais, respeitável Serifan: se uma lágrima, um pingo sequer de choro, desse homem cair, como um colírio, em seu olho deslocado, você volta a ver as coisas como realmente são.

Serifan balançou a cabeça, para lá e para cá, como uma criança surpreendida por um acontecimento além de sua compreensão. Com a mão em concha, o gigante me apanhou. Fomos para a gruta. Lá, tomou uma bacia de conhaque. Enquanto o Ciclope estava no aperitivo, desatei o Barbante Encantado. Serifan soltou um assombroso arroto e afrouxou um pouco mais a pressão da mão que me prendia. Aproveitei para escapulir e montar em Adestrus, que viera atrás de mim.

O Mastodonte caolho se espantou, ao ver a fuga de uma presa que julgava tão fácil. Deixei a gruta no Cavalo a Jato.  Um sol radiante dava às árvores uma coloração semi-prateada.

– Volte aqui, volte aqui, miserável – berrou o Titã, em meu encalço.

Fiz Adestrus voar velozmente e girei, de surpresa, diante do enorme olho do Ciclope. Serifan sacudia a cabeçorra, tentando acompanhar os giros do cavalo, mas não conseguiu seguir os movimentos concêntricos de Adestrus. O defeito sobressalente de seu olho não o deixava ver os objetos em posição normal, mas quase sempre inclinados ou mesmos invertidos, quando não de cabeça para baixo.

Zonzo com as evoluções do Cavalo a Jato, Serifan tentou agarrar o animal no ar, como fazemos com os pernilongos. Sua possante mão segurou apenas o vazio. Parecia uma marionete ensandecida.

Invoquei a palavra mágica, transformei o Barbante Encantado num escudo resplandescente, que cresceu de tamanho, na proporção das minhas forças. Mirei o escudo, agora iluminado pelo sol, na córnea do gigante. Já era tarde quando o Ciclope tentou tapar a vista com as mãos. A claridade fulgurante do escudo o derrubou, já cego do olho quase imprestável.

Serifan berrou como se atingido por um caldeirão de lavas. Com o Barbante Encantado, agora retesado e pontiagudo, vazei o olho do Ciclope. Se tivesse lhe trespassado o coração, a morte teria demorado um pouco mais. Terminaram os dias de gulodice e estupidez de Serifan.

Soltei os prisioneiros. Como a fome flagelava aquelas terras devastadas, os homens quiseram fatiar a carne do Ciclope, mediante o argumento de que não comeriam gente, mas um animal maior do que dez elefantes que, em vida, comera milhares de pessoas.

– De jeito nenhum – proibi. – O Vigilante dos Caminhos Sem Medo jamais permite que se profane os despojos de um guerreiro morto em combate, mesmo o mais cruel deles.

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