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Patologia do poder – Selassié gostava de reggae. agosto 8, 2010

Posted by eliesercesar in Reportagem.
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Nem de jegue.

Na Bahia, uma música  diz que “Selassié era um rei que gostava de reggae”. Puro reducionismo dos admiradores destes lados dos trópicos do etíope Rás Tafari Makonnen que, em novembro de 1930, foi empossado imperador da Etiópia com o nome de Hailé Selassié I. Governou  por quase meio século, com mão de ferro, aquele miserável país africano, julgando-se o Rei dos Reis, descendente direto de Salomão. Na verdade o que Selassié gostava mesmo era de ser comparado ao enviado de Deus, submeter seu povo à opressão, viver nababescamente,  enquanto a população sucumbia à fome e à desnutrição e  conduzir um império forjado na subserviência, na bajulação, nos privilégios de uma elite corrupta, na delação e num impiedoso aparelho policial-militar.

Esta é a imagem nada edificante do ídolo dos rastafaris, cultuado inclusive pelo cantor jamaicano Bob Marley, que emerge das quase duzentas páginas do livro O Imperador, do jornalista polonês Ryszard Kapuscinski, o lançado pela coleção Jornalismo Literário, da Companhia das Letras, que já brindou os aficionados das grandes reportagens com títulos como Hiroshima, de John Hersey, A Sangue Frio, de Truman Capote e  A Milésima Segunda Noite da Avenida Paulista, do brasileiro Joel Silveira.  Com o subtítulo “Os bastidores  do palácio de Hailé Selassié I, o tirano que governou a Etiópia por 44 anos”, O Imperador trata-se, na verdade, de uma ácida, porém irônica, patologia do poder.

Corresponde de agências de notícias, jornais e revistas, na índia, Paquistão,

Ásia, América Latina e África, testemunha de 27 golpes de Estado e diversas revoluções,  em seu livro Kapuscinski disseca, com a perícia de um patologista social, a doença chamada poder, com todas as mazelas, baixezas, vilanias e (por que não ?) atos heróicos que ela dissemina no organismo da sociedade. É um livro obrigatório para jornalistas, professores e estudantes de jornalismo e para todos aqueles que se interessam por política, história e sociedade. Na contramão de muitos jornalistas, sobretudo dos correspondentes estrangeiros, para escrever seu livro-reportagem Kapuscinski foi ouvir não os detentores do poder que caíra em desgraça em setembro de 1974, mas os serviçais e servidores palacianos que acompanharam com humildade, respeito, medo e resignação, o longo reinado de Hailé Selassié. Dentre os exaustivos depoimentos colhidos pelo jornalista, figura o do apagado funcionário encarregado de colocar uma enorme almofada embaixo do alto trono do pequeno monarca, para que os augustos pés de Sua Majestade, não ficassem  balançando em posição constrangedora diante dos súditos e das delegações estrangeiros. Também a entrevista do servidor incumbido de emitir um quase imperceptível aceno de cabeça para que o auto-intitulado “Leão de Judá”, percebesse que havia chegado o fim de determinada audiência e não perdesse mais seu excelso tempo  com conversa fiada..

Uma velha crença do jornalismo diz que ninguém conhece mais os hábitos dos poderosos, os bastidores e os segredos dos palácios do que funcionários subalternos (não se deve esquecer que foi o depoimento de uma simples motorista que precipitou a desgraça de Collor de Mello). Foi dando voz aos pequenos, homens simples, leais e devotados, até o fim, ao imperador, em que Kapuscinski acabou na insuspeita opinião do escritor Salman Rushdie,  escrevendo um livro que transcende a reportagem para dar lugar “a uma narrativa de pesadelo sobre o poder”. O livro é narrado do ponto de vista dos servidores palacianos,  permeado, aqui e ali, por incursões contextualizadoras do jornalista. Para proteger suas fontes da perseguição do novo regime, Kapuscinski identifica os entrevistados apenas pelas iniciais.

ESTÍMULO Á CORRUPÇÃO

O poder de Hailé Selassié era tão grande que, em todo o império, qualquer gasto acima de dez dólares precisava ser aprovado pessoalmente pelo soberano e “um cano furado só podia ser trocado se o imperador aprovasse a despesa”.  Em determinado trecho de O Imperador, um servidor do Salão Dourado de um dos 13 palácios de Hailé Selassié dimensiona o grau de corrupção do império do rei que gostava de reggae, como se canta na Bahia: “Não consigo me lembrar de um só caso em que o gracioso monarca tenha anulado uma promoção ou expulsado alguém do palácio por corrupção. Corrompam-se à vontade, desde que permanecem leais a mim! Graças à sua extraordinária memória e também ao incessante fluxo de informações sigilosas que corram pelo palácio, nosso monarca sabia  exatamente o valor da fortuna de cada cortesão. Mas o conhecimento dessa contabilidade, ele guardava somente para si: e o utilizava apenas quando desconfiava de que alguém não lhe estava sendo leal. Bastava ele vislumbrar uma sombra de deslealdade para confiscar tudo do desgraçado e mandar para longe aquela ave-do-paraíso! Graças a essa contabilidade, o Rei dos Reis tinha todos na mão. E todos sabiam disso”. Será mesmo que essa permissividade com a corrupção só se vê na Etiópia de Hailé Selassié ou pode detectado bem mais perto do imagina o nosso vão conhecimento da história política contemporânea?

Pois, o livro de Kapucinski tem o mérito adicional de permitir que se tracem paralelos com, por exemplo, a Polônia stalinista onde o jornalista nasceu em 1932. Como observa o jornalista Mario Sérgio Conti no posfácio de O Imperador, “ao falar da autocracia etíope, de seus ministros medíocres e corruptos, do medo disseminado, das pompas oficiais em contraste com a pobreza dominante, Kapuscinski na verdade estaria falando do stalinismo polonês, de seus burocratas aproveitadores, da repressão política, da apatia social: a Etiópia do livro serviria de metáfora para a Polônia Stalinista”. Somente para a Polônia stalinista — perguntaria o leitor brasileiro — ou, aqui nos tristes trópicos,  o livro-reportagem, quase três décadas depois, conservaria sua brutal atualidade?

Passemos, portanto, a alguns episódios narrados pelo jornalista polonês que favorecem tais paralelismos. Para apresentar ao mundo um verniz de desenvolvimento, enquanto fora da corte a população morria de fome, “o infatigável amo vivia viajando, inaugurando pontes, novas cidades, edifícios, aeroportos e batizava todos com o seu nome”, conforme depoimento de um serviçal da corte. Enquanto o país vivia a miragem de um progresso fictício e insustentável, posto realizado com empréstimos estrangeiros, os estudante universitários diziam que não se podia falar em desenvolvimento se a miséria continuava a mesma”.  E indagavam: “Que desenvolvimento é este, se o país está esmagado pela pobreza generalizada, se províncias inteiras morrem de fome, se são poucas as pessoas que se podem dar ao luxo de possuir uma par de sapatos, se só um punhado de súditos sabem ler e escrever e se quem contrai uma doença mais séria acaba morrendo por não haver hospitais nem médicos? Só se vêem ignorância, e barbárie, humilhações, despotismo, tirania, exploração e desespero por todos os lados…”. As críticas dos estudantes eram respondidas com a invasão da universidade, espancamentos, prisões e mortes.

Em um dos momentos em que não dá voz aos palacianos, Kapuscinski releva que “a maldade e a torpeza eram requisitos indispensáveis para alguém ser agraciado  com o título de nobreza, serviam de critério para o monarca escolher seus favoritos e cobri-los de benesses e privilégios”. É claro que o monarca  tomara também atitudes nobres. Uma delas foi abolir o costume medieval de que um acusado de homicídio (acusado, apenas) fosse esquartejado pelo membro mais próximo da família da vítima. Outra foi a supressão do “método afarsata” (“quando um crime era cometido em algum lugar, as forças de segurança cercavam o vilarejo ou a cidadezinha e deixavam a população inteira passar fome até que o culpado fosse denunciado”). Mas o perfil do rei que prevalece no livro é traçado pelo jornalista na página 116 de O Imperador: “Hailé Selassié era ao mesmo tempo uma figura simpática, um político astuto, um pai trágico, um sovina patológico, que condenava inocentes à morte e inocentava culpados, tudo de acordo com os labirintos da política palaciana e sua impenetrável ambigüidade” .

Quando foi desentronizado pelo jovem oficialidade do exército, em 12 de setembro de 1974 — 14 anos depois de sufocar um golpe de estado e quatro anos antes de morrer confinado em um dos seus palácios, aos 82 anos e ainda julgando-se imperador — Hailé Selassié I, foi acusado de possuir, em bancos estrangeiros, uma fortuna de mais de meio bilhão de dólares. Mas, para muitos, como na canção baiana,  continua sendo apenas um rei que, com  jamaicana animação, gostava de reggae.

Fiquem com este mito e dancem à vontade!.

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