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A Megera da Venta Cavilosa – Capítulo 4 agosto 14, 2010

Posted by eliesercesar in Akizar, a palavra mágica..
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No qual se dá conhecimento de como o Vigilante enfrentou a mulher mais horrenda e perigosa da face da Terra (antes, formosa donzela), livrando os pobres mortais da Maldição da Pesta Negra.

Impossível acreditar que tenha sido bonita um dia. Os mais velhos juravam que, antes de ter a venta cavilosa, a Megera fora jovem formosa e bem feita de corpo. Terrível doença transformou em pústulas a pele leitosa, em nódulos serosos as articulações e em maldade o temperamento brando da moça.

O viajante que conseguisse resistir à pavorosa visão da Megera jamais acreditaria que existira beleza naquele rosto. A Megera tinha um olho três dedos acima do outro, uma só narina; trepidante chaminé de onde escorria um gel fétido que a fazia arquejar ainda mais. No lugar da boca, um orifício arredondado do tamanho de uma laranja, do qual pendia um único, grande e cariado dente. Seus cabelos pareciam vagens embebidas em creolina. Como eu, tinha apenas uma orelha, a minha decepada pelo Gladiador Acéfalo, a dela caída de podre numa de suas muitas andanças pelos pântanos. Do ventre, inchado como um grande saco de gases, a Megera desprendia um cheiro de esgoto.

Nas aldeias e povoados diziam que ela trazia, com seu porte infernal, a Maldição da Peste Negra. A peste matava a granel. Alastrava-se levada pelo vento. Muita gente dizia que a Megera espalhava a epidemia, sem poupar ninguém, sequer os recém-nascidos, como vingança por carregar tamanha feiúra.

Expedições foram armadas para matar a Megera da Venta Cavilosa, único meio de conter o morticínio. Poucas pessoas retornaram dessas caçadas. Os sobreviventes voltaram tão apavorados com o que viram e fugiram para terras distantes, onde se julgavam protegidos dos malefícios da mulher monstruosa.

Como eu não tinha medo de cara feia e precisava enfrentar todos os desafios, até chegar às Torres Submersas – onde o Magnânimo Guardião me devolveria a Princesa dos Olhos de Cristal, um braço e uma orelha – fui à caça da Megera.

O cheiro de carniça e o fedor dos gases expelidos pela Megera me ajudaram na busca. Coloquei uma máscara contra gases venenosos e adaptei outra para Adestrus. A Megera estava de costas examinando os pântanos. Desci empunhando a espada. Percebendo a minha presença, a criatura se virou.

O que vi teria feito retroceder qualquer outro homem. Perto do que enxerguei a descrição que levava da Megera era um retrato de juvenil frescor. Pela primeira vez na vida, tomado de incontrolável pavor, meu cavalo empinou e escoiceou o chão, me derrubando.

Fiquei surpreso com o pânico do destemido Adestrus. Compreendi, porém, que para o animal, aquele ser medonho encarnava a mais misteriosa e insondável aberração da natureza.

Apossados de súbito ódio, os olhos assimétricos da Megera se injetaram em brasa. O simulacro de boca se abriu numa interjeição grotesca. O dente podre foi crescendo como lâmina enferrujada. Serpentes caudalosas, as vagens dos cabelos eriçaram-se ainda mais. A Megera da Venta Cavilosa estava perplexa com a ousadia de um homem prostrado diante dela.

Tenebrosa gargalhada ribombou no ar. Com a espada, quebrei o único dente (já então cumprida língua laminada) daquela assombração. A Megera levou as mãos à caverna de sua boca. Não emitiu um só gemido.

– Como ousa me encarar desse jeito? Quem é você que, mesmo mutilado, desafia meus sortilégios?

A voz da Megera parecia sair das catacumbas.

– Vim livrar o mundo de sua pavorosa presença – respondi.

A Megera soltou um peido, choque de entranhas em decomposição. Era involuntário. Sempre que a raiva a dominava, a criatura desprendia seus gases letais.

A máscara me protegia. Avancei, disposto a dividir ao meio aquela anomalia humana. Os cabelos da Megera cresceram ainda mais e enroscaram-se em meu pescoço. Minha máscara voou. Não morri, com os pulmões arrebentados, porque tive tempo de gritar a palavra mágica. Akizar! O Barbante Encantado apanhou a máscara e colocou-a novamente em meu rosto.

Refeito do susto, decepei com a espada os tentáculos que me asfixiavam. Pequenas cobras deslizaram das vagens partidas e entraram na mata.  A Megera me empurrou  e, em seguida, sumiu na floresta.  Não podia mas segui-la pelo olfato. Os peidos venenosos empestavam a redondeza.

Com a fuga da Megera, Adestrus reapareceu. Pensei em dar-lhe uma surra com o Barbante Encantado, mas ponderei que devia muito a Adestrus e desisti da sova. Além disso, a Megera da Venta Cavilosa era mesmo de assustar qualquer pessoa ou animal.

À cata da diabólica criatura, trotei com Adestrus. No meio da marcha, encontrei uma pequena casa de madeira. Cercada de flores e frutos silvestres, encimada por uma chaminé, a casa soltava uma fumaça translúcida. Retirei a máscara protetora. Um cheiro de comida divina inundou-me as narinas, abrindo meu apetite. Que diferença do fedor da Megera! Há pouco, podridão. Agora, sândalos.

“Tem alguém aí?”, bati na porta. O que se abriu diante dos meus olhos não foi uma reles porta de madeira. Foi o portal do paraíso. Não era simplesmente uma bela mulher, que me acolhia da soleira da porta, com um sorriso luminoso; não era apenas um querubim. Estava diante da mais bela criatura da Terra.

Inútil tentar explicar seu esplendor. Debalde qualquer esforço para relatar sua formosura; os suaves contornos do rosto, a delicada tessitura da pele, a delgada cintura – ah, os seios ! – manga-rosa, os lábios, escorregadia carne e os olhos diáfanos da primeira primavera…

A mulher era ainda mais bela e modelada do que a Princesa dos Olhos de Cristal.

– Entre – convidou-me, numa voz angelical, mostrando o marfim polido dos dentes.

Na tranqüilidade daquele paraíso, só Adestrus se mostrava agitado.

– Quieto – ordenei, com uma palmada nas ancas do animal.

Ele relinchava e dava coices. Levei-o ao pequeno curral da casa.

– Desculpe. O cavalo anda agitado – falei para a jovem.

– Não foi nada – disse ela.

– Procuro a Megera da Venta Cavilosa – informei. – Como você consegue viver perto de tamanho perigo?

– Os espíritos bondosos do bosque me protegem – respondeu a moça, numa cantata.

Era incrível que a terra abrigasse tamanha disparidade: a Megera da Venta Cavilosa e a criatura celestial daquela casa. No mesmo mundo, fedor e perfume. Acolá, maldade e mágoa. Aqui, serenidade e ternura.

A jovem perguntou se eu queria comer.

– Sou o Vigilante dos Caminhos Sem Medo – apresentei-me, – e você ?   A moça hesitou um pouco e respondeu: “Meg”. Envolvente, se aproximou de mim.

Vigilante dos Caminhos Sem Medo – repetiu, o rosto cada vez mais próximo ao meu.

Então me abraçou.

Um estrondo de madeira arrebentada me tirou do enlevo. Com um coice fenomenal, Adestrus derrubara a porta. Dentes em riste, avançou para morder a jovem; os olhos vítreos indicavam que o animal tentava vencer grande resistência interior. Num estalo compreendi tudo. Como fora burro! O feitiço de Circe foi quebrado.

– Meg. Meegeeeraaa! – berrei.

A bela face juvenil transmudou-se em horror e pus. Retirei o Barbante Encantado. Guilhotina afiada, o cordão enlaçou o pescoço da Megera.

– Não me mate. Fui mulher formosa, como pôde ver. Filha dedicada. Já é morte mais cruel ser obrigada a contemplar, todos os dias, as fezes do meu rosto – suplicou a Megera.

Sua história me interessava. Afrouxei um pouco a pressão do Barbante, a fim de deixá-la falar. Sim, tinha sido bela, mas filha ingrata. Matara os pais, envenenados, para se apossar da fortuna deles e dividi-la com um homem por quem se apaixonou. O amante terminou traindo-a com outra mulher. Cega de ódio, a Megera matou os dois e passou a envenenar também todos os homens por quem se interessava, até que misteriosa doença a transformou na mais medonha de todas as criaturas do mundo. Contava tudo isso para não morrer, desditosa que era.

Girei o Barbante Encantado a cabeça da Megera. Não caiu a venta cavilosa, rolou ao chão a bela cabeça da infante parricida. Só na morte a Megera conseguiu recuperar a paz e a beleza de seu rosto, pensei.

O resto do corpo, contudo, já estava coberto por todos os vermes da putrefação. Compadecido daquele destino infeliz, enterrei a cabeça da Megera. Perdi tempo. Em poucos segundos, a terra foi revolvida. Daquele crânio, empapado de sangue, saíram cobras, lagartos e escorpiões, em direção à floresta.

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Comentários»

1. Gerana - agosto 21, 2010

Elieser: o livro sobre Vasconcelos Maia ficou pronto?

2. eliesercesar - agosto 22, 2010

Olá, Gerana. O livro já foi entregue. Deve ir para o prelo em breve.


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