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A Chuva dos Punhais Invisíveis – Capítulo 6 agosto 28, 2010

Posted by eliesercesar in Akizar, a palavra mágica..
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Onde se narra como Sir Vigilante dos Caminhos Sem Medo, a caminho do Rio das Águas Venenosas e  envergando uma armadura medieval, livrou um povoado em pânico de uma chuva de aço, intermitente e mortal.

Nenhum sinal no céu – uma nuvem carregada, o coriscar de um raio – denunciava a chuva assassina. Os punhais invisíveis despencavam com a mesma intensidade em qualquer estação do ano. Matavam no outono, no inverno, na primavera e no verão, homens e bichos.

As pessoas mais instruídas e até os metidos a sabichões tentavam explicar o fenômeno. “Gente burra”, diziam uns, “os punhais são pedaços de gelo altamente condensados e impossíveis de serem vistos pelo olho humano”. “Que nada!”, discordavam outros. “Essas armas invisíveis não passam de pedaços opacos de relâmpagos”. “Santa demência”, refutava uma minoria, “pois não está claro, nítido com o sol, que são afiadas partículas de meteorito ?”.

Enquanto a discussão prosseguia, a Chuva dos Punhais Invisíveis continuava matando, inclusive muitos dos debatedores, apanhados de surpresa à céu aberto. Aquele temporal da morte estava restrito à uma determinada região, caminho para o Rio das Águas Venenosas, esconderijo da Serpente da cabeça Iluminada.

Cheguei ao local onde a chuva mortífera caía, vestido numa armadura de cavaleiro andante ( Sir Vigilante dos Caminhos Sem Medo). Adestrus estava protegido com um colete à prova de faca, facão, espada, canivete, adaga, punhal e outras armas brancas. Alcancei um grande povoado em meio à uma tremenda algazarra. Indiferente ao perigo do céu, o povo dançava, bebia e brincava na rua. Todos me olharam espantados com a minha roupa. Ninguém deveria se preocupar comigo. Estava de passagem para o Rio das Águas Venenosas. A armadura era para me proteger dos punhais invisíveis, tranquilizei. Um homem disse que eu deveria tirar a armadura. A chuva caíra na véspera e não voltaria a desabar tão cedo. Não voltou a falar mais. Levou as mãos à cabeça, dividida ao meio. Muita gente tentou se proteger, quando os punhais invisíveis caíram em cima dos aldeões como um toró.

Montado em Adestrus, consegui pegar, na multidão em pânico, uma menina; os pais abatidos pelos punhais invisíveis. Protegi a criança com o corpo dobrado sobre ela. Arrombei a porta de uma hospedaria próxima onde estava um grupo de sobreviventes. O telhado fora reforçado para aguentar o assédio dos punhais. Por uma goteira passava regularmente um desses punhais. Acabava ferindo ou matando alguém, quando não se cravava no assoalho, na mesa ou no balcão de madeira. Todo cuidado era pouco. Os pingos dessa chuva de aço laminado eram pequenos canivetes.

A chuva passou. Acalmei as pessoas na hospedaria. Era hora de enterrar os mortos, socorrer os feridos e procurar sobreviventes na rua Tirei a armadura. Meu braço e minha orelha decepados impressionaram os aldeões  mais do que minha vestimenta de guerra. “Perdi-os em feroz combate”, informei. Pedi que tomassem conta da menina e saí à rua. Minha coragem animou os aldeões que, apesar do receio de uma nova chuva, me seguiram. Lá fora, o espetáculo era desolador. Havia muitos mortos e feridos.

À noite as pessoas foram para casa chorar seus mortos, outra chuva inofensiva feita de lágrimas. Fiquei uma semana na estalagem. Durante minha permanência ali, concebi um plano para vencer a chuva e livrar a região dos punhais invisíveis. Sempre com a armadura, passava o dia inteiro nas serras em busca do que precisava.  Em algumas dessas andanças as chuvas me pegavam, até quando eu voava acima das nuvens. “Então pode ser verdade que os punhais invisíveis vêm mesmo do espaço”, admiti. Apesar de protegido pela armadura, os punhais doíam como um murro.

Quando já desanimava da procura, encontrei o que buscava. Voltei à hospedaria e convoquei uma reunião para a noite. O dono do estabelecimento abriu seu melhor vinho, tintura adocicada que bebi como se fosse da melhor cepa. Expliquei a todos o meu plano.

Na manhã seguinte, torcendo para que o temporal homicida não desabasse sobre eles, os homens saíram de casa com pás, picaretas e carroças. Trabalhando duro, conseguimos uma boa quantidade do minério. Voltamos ao trabalho nos dois dias seguintes.  Por sorte, não choveu punhais naquele período; apenas uma chuvinha bem-comportada, fina e revigorante para todos nós que suávamos na labuta.

Como um engenheiro, instruí homens, mulheres e crianças a montarem a grande peça. Dentre muitos truques, o Mago Rekerk me ensinara também a fazer uma resina capaz de unir o ferro sem precisar soldar com maçarico.

Apelei para a palavra mágica. Akizar! Com a força dos leões da Terra, transportei a grande engenhoca para uma pequena elevação nos arredores do povoado. Pronto! Era só esperar a primeira chuva. Três dias depois, o povoado foi despertado pelo barulho de ferros se chocando. Um clarão vinha do ponto onde a peça foi instalada. “Os punhais invisíveis são também relâmpagos”, pensei. Montei Adestrus.  Fui ver de perto o acontecimento.

Chovia punhais em cima do grande artefato metálico. O super imã atraia os punhais como pára-raios. O povoado estava salvo. Arranjei uma nova família para a órfã – o estalajadeiro e a mulher dele, já afeiçoados pela menina. Cumprida a missão, deixei o lugar, em festa como encontrara.

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Comentários»

1. assis freitas - agosto 29, 2010

salve, Elieser, estou perscrutando os teus escritos, aqui na blogosfera. É bom dar conta que flui caudoloso o rio da criação. Abraço desse amigo de velhas datas,

Assis Freitas

eliesercesar - agosto 29, 2010

Assis, velho amigo, caudaloso é o rio de nossas boas lembranças.

2. Gerana - setembro 5, 2010

Vai indo, vou lendo, mas, vc sabe, vou querer ler em livro.


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