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O rio das águas venenosas – Capítulo 7. setembro 8, 2010

Posted by eliesercesar in Akizar, a palavra mágica..
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Aqui se dá conta da forma espetacular  como nosso herói, com a ajuda de um poderoso emplastro, sobreviveu aos miasmas das águas apodrecidas e combateu criaturas dantescas, como as Piranhas de Duas Bocas, a Rã Lambedora, o Surubim dos Infernos e os Crustáceos Predadores.

Grande e caudaloso, o rio não dava peixes comestíveis. Em suas águas viviam apenas aberrações como a Serpente da Cabeça Iluminada, assim chamada porque sua cabeçorra acendia à noite, como um traiçoeiro farol. Há muitos anos, quando o rio (ainda não poluído pela hecatombe da Civilização da Coca-Cola em Drágea) dava sustento aos pescadores, a serpente já atacava. Colocava a cabeça fora da água, lançava um feixe de luz e atraía os navegantes para um banco-de-areia, onde as embarcações encalhavam.

Paciente, a Serpente da Cabeça Iluminada devorava os pescadores, obrigados a deixar o barco pela fome, a sede e o cansaço. Para capturá-la, eu teria que mergulhar no rio.  Nem todo o rio era venenoso. As águas passavam em ondas. Era preciso estar sempre atento à chegada das ondas.

Neste desafio, Adestrus não pode me acompanhar e teve que ficar a poucos metros do rio. Passei no corpo um unguento que o Mago Rekerk me recomendara. A pasta impediria que os meus pulmões estourassem com o veneno das águas.

O emplastro evitava também as queimaduras, de terceiro grau, provocadas pelo mergulho nas águas venenosas. Ao invés de afundar em chumbo derretido, graças ao unguento, mergulhei como se estivesse entrando em águas medicinais. Mesmo cotó, consegui mergulhar com a velocidade de um míssil, batendo velozmente as pernas e o único braço. Bastava pronunciar a palavra mágica.

Primeiro tive que me livrar das Piranhas de Duas Bocas, uma na cabeça, outra na cauda. Ao notar a perseguição das piranhas, enfiei a cabeça para fora da água e gritei: Akizar! Passei a nadar como um sobrevivente de Atlântida, deixando para trás o cardume voraz.

Nadava tranqüilo, quando encontrei, pronta para o bote, a Rã Lambedora. Do tamanho de um porco, a rã  costumava atacar as mulheres grávidas para lamber do ventre os embriões. Parteira do assombro, lambia os futuros bebês com sua língua bifurcada. Até aquele dia eu só ouvira falar da Rã Lambedora como uma lenda para assustar as gestantes mais impressionáveis e as crianças, impressionáveis por natureza. O bicho existia mesmo e era feio de doer. Habitava o Rio das Águas Venenosas. Não iria lamber mais nada, sequer o limo das grandes pedras do rio, decidi.

Arranquei da cintura o Barbante Encantado. O batráquio já se aproximava de mim; a língua dividida, os olhos proeminentes prestes a saltarem das órbitas e a certeza triunfal de que, sem esforço algum, iria lamber mais um embrião.

Akizar! Como um cabo de aço, o cordão enlaçou a língua bifurcada da Rã Lambedora. Comecei a nadar arrastando o animal. Parei repentinamente e, com um forte puxão, arranquei aquela língua dupla e com ela a vida da Rã Lambedora. Todas as mulheres que tiveram seu embrião lambido pela rã estavam vingadas.

Antes de alcançar a Serpente da Cabeça Iluminada enfrentei ainda o Surubim dos Infernos, os Crustáceos Predadores e os Limos Afiados, outras armadilhas do Rio das Águas Venenosas. O surubim vivia na zona mais profunda do rio. A superstição e o medo fizeram os pescadores atribuírem àquele medonho peixe uma ligação obscura com o sobrenatural, uma vinculação irracional com os infernos. Unicórnio fluvial, tinha um grande chifre no meio da cabeça .

Evitei o mergulho, prosseguindo meu curso a nado, para não cruzar com o Surubim dos Infernos. De nada adiantou. Logo depois deparei-me com o assombroso peixe. Como um torpedo vinha veloz ao meu encontro, um borbulhar de espumas, o único chifre, lança assassina em riste. Mergulhei no instante exato em que o peixe-unicórnio veio sobre mim. Era quase do tamanho de um tubarão. Daria para alimentar toda uma aldeia, não fosse maldita e envenenada carne.

O Surubim dos Infernos deu uma rabanada no rio, voltou-se brusco para trás, como um automóvel num cavalo-de-pau.  Encarei a criatura e também retrocedi. Aceitar os combates era meu destino. Nadei com mais vigor ao encontro do surubim e de seu chifre mortal. Erámos dois bólidos a caminho da colisão. A velocidade aumentava, vertiginosa. Eu, cada vez mais próximo do peixe. O surubim bem pertinho. A poucos metros do monstruoso peixe, gritei a palavra mágica. No momento do choque, me esquivei e, com o Barbante Encantado em forma de arpão, varei o Surubim dos Infernos, da goela ao rabo.

Foi mais fácil do que eu imaginei vencer os Crustáceos Predadores. Esses animais devoravam-se uns aos outros e atacavam em grupo. Tinha, cada um, o tamanho de uma bacia. Caranguejos e camarões aos bandos, todos deformados. Os camaraões com tentáculos de polvo, os caranguejos com tenazes envenenadas e em forma de tridentes.  Ambos traiçoeiros e mortais.

Transformei meu providencial cordão num gererê gigante, pesquei os Crustáceos Predadores e os joguei à margem do rio. Ao contrário das águas sufocantes, o ar puro era veneno para aquelas criaturas alimentadas pela podridão. Morreram em poucos segundos.

Também não tive maiores dificuldades para passar pelos Limos Afiados. Sedimentados ao longo dos anos, eram como espadas capazes de cortar tudo o que resvalasse neles. Minha habilidade de espadachim foi decisiva. Akizar! Com uma poderosa espada fui partindo ao meio, quebrando, rachando e entortando todo limo que encontrei pela frente, num raio de três quilômetros.

Sem nenhum arranhão, cheguei à toca da Serpente da Cabeça Iluminada. A água do rio era agora cristalina e pura, potável e saborosa, sem mais uma gota de veneno.

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