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O Mago Rekerk – Capítulo 9 setembro 21, 2010

Posted by eliesercesar in Akizar, a palavra mágica..
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Em que se revela a incrível transformação do filho de um ferreiro e de uma dona-de-casa em um poderoso feiticeiro, futuro protetor do Vigilante.



Até os seis meses de idade, Ernestino foi um bebê comum. Como qualquer criança de colo, chorava, dormia muito, comia e cagava, exigindo sempre, com gritinhos guturais, a presença da mãe. Nada denunciava os poderes que o menino teria um dia. O garoto surpreendeu os pais quando, certo dia, começou a falar numa língua estranha: a linguagem cifrada dos mágicos.

Houve quem pensasse que o menino tivesse parte com o demônio. Neste caso, desapiedavam-se os fanáticos, melhor matar o rebento do diabo, atirá-lo ao fogo, do penhasco, onde sofreria natural lapidação, jogá-lo ao mar, onde se estourariam seus pulmões das trevas.

Os pais de Ernestino resistiam aos maus instintos da gente inculta. Matariam quem (homem ou mulher, jovem ou velho) se atrevesse a encostar um dedo no menino. O pai era um ferreiro temido pela monumental força física. Jamais alguém se arrojaria a desafiá-lo para a briga. Robusta, a mãe também era respeitada por sua valentia. Diziam até que ela costumava bater no marido, infinitamente mais forte, porém incapaz de revidar à agressão da mulher.

As brigas entre os pais de Ernestino pareciam não passar de boatos de despeitados, pois a mulher demonstrava saber controlar suas emoções, como naquele dia em que os fanáticos ameaçaram matar seu filho. “Ò gente ignorante”, disse ela, “então Ernestino não revelava, em suas artes de fala estrangeira, a sabedoria dos gênios? Não era verdade que se mexera muito no ventre ? Não foi Jesus também precoce, impressionando os doutores, fariseus, escribas e saduceus, ainda menino ?”.

– Blasfêmia! Blasfêmia vil ! Comparar cria de Belzebu ao Menino Jesus – bradou um homem.

– Obra de Satã! Semente do Cão! – vociferou uma mulher.

Apesar da respeitada valentia, os pais do menino se assustaram com o ódio e intolerância daquelas pessoas.

– Cambada de bestas. – reagiu um rapaz. – Deixem a criança sossegada. Vão para suas casas, rezar se quiserem, mas deixem essa família em paz.

Diante daquela reação inesperada, o grupo partiu resmungando impropérios. Os pais de Ernestino agradeceram ao rapaz, um forasteiro que partiu logo depois e nunca mais foi visto na região. Talvez tivesse sido designado – pelas forças misteriosas que comandariam o futuro da criança – para livrar aquela família do cerco dos fanáticos.

Numa manhã, quando o pai fazia ferradura em sua oficina e a mãe cuidava da casa, os homens voltaram e raptaram Ernestino, que brincava no quintal de botar formigas para brigar. O menino foi levado à praça. Crentes de que assim poderiam evitar o sortilégio do mal, os homens iriam sacrificar o garoto. Ao saber do rapto do filho, o ferreiro pegou duas grandes barras de ferro, a mulher empunhou dois facões e juntos abriram caminho na pequena multidão, derrubando um, quebrando perna de outro e rachando cabeças. O ferreiro foi dominado depois de derrubar umas vinte pessoas. A mulher subjugada após dar um grande talho na barriga de um homem e decepar a mãe de uma velha, que segurava um rosário. Pai, mãe e filho foram acorrentados.

– Vamos acabar com a trinca de Satanás – propôs uma mulher com uma barba rala.

– É – concordou alguém próximo. – A maldita trindade das trevas.

A turba se alvoroçou, tal lobo pressentindo ovelhas. Empunhando paus e pedras, os mais afoitos partiram para o massacre. Foi aí que os poderes do menino se manifestaram pela primeira vez. Ernestino disse uma palavra estranha e as correntes derreteram-se como manteiga. O menino repetiu a mesma palavra: um forte vento, como jamais se viu na região, levou todos que se encontravam na praça, menos o próprio Ernestino, sua mãe e seu pai. Nunca se soube o paradeiro da multidão. Estava encantada em outro dimensão. Era a explicação aceita no lugar.

Para o assombro ainda maior dos pais, a criança cresceu até virar um senhor de cabelos longos e grisalhos, barba pontudo e bigodes retorcidos, mais velho do que o próprio ferreiro.

– Meu bom senhor. Excelente senhora. – disse o homem, numa voz modulada e segura. – Não sou mais Ernestino. Agora sou Rekerk, o mago que reencarnou no corpo de uma criança e foi devolvido à sua aparência normal, como estava escrito nos antigos pergaminhos. Não tenham receio, porque nada de mal aconteceu a Ernestino. O menino continua em mim, pois todo mago tem em si uma criança, em sua arte de inventar malabarismos e magias. Adeus e obrigado por terem cuidado tão bem do menino que tive a felicidade de voltar a ser, enquanto esperava o cumprimento de imemorial profecia.

Antes de partir, o mago recompensou, com terras férteis e ouro, os pais de Ernestino. Deu-lhes mais três filhos, a fim de compensar a falta do menino. Vagou pelo mundo, ajudando os justos e punindo os malvados, sempre com justiça e sabedoria, até se alojar de vez no topo de uma montanha.

O próprio mago me contou sua história, muitos anos depois, quando resolveu me proteger e me ensinar a estranha palavra que pronunciara para salvar a si mesmo, na pele de Ernestino e aos pais do menino, da fúria dos fanáticos.

Sem esta palavra, não existiria o Vigilante dos Caminhos Sem Medo e, há muito tempo, eu já teria sucumbido nesta época de guerras e de desastres.

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