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HISTÓRIAS PORTÁTEIS – Em A segunda sombra, Carlos Barbosa esgrime sua ficção minimalista. setembro 29, 2010

Posted by eliesercesar in Resenhas.
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Depois de mergulhar nas águas profundas de um romance de formação, com o recém-lançado Beira de Rio, Correnteza – Ventura e desventura de um salta-muros no tempo da ditadura, o jornalista e escritor Carlos Barbosa retorna à prosa, com um nado de superfície, como se boiasse, despreocupado, em um lago de aparência calma, porém, cheio de armadilhas: a patada que a vida está sempre pronta a desferir nos momentos aparentemente mais tranquilos da existência, como ao lembrar que, neste mundo, tudo é incerteza. Com o poder de síntese e a linguagem precisa, às vezes dura, outras poética, desta vez Carlos Barbosa traz à tona 80 minicontos no livro A Segunda Sombra (Rio de janeiro: 3×4 – Um Selo da Editora Multifoco, 2010). Flashes da vida, já que insinua muito mais do que conta uma história, seja em momentos de revelação ou de situação-limite, ponta de um iceberg submerso na consciência do leitor, convidado a reconstruir o que leu, o miniconto é também a sombra de um conto, caso se possa admitir que o conto é, por sua vez, a silhueta de um romance.

Se o bom conto é aquele em que a história fica em aberto, o miniconto soa com um fímbria de luz em um quarto escuro, luz que não clareia, mas convida à claridade exterior. Este subgênero do conto, minimalista, agora em moda e, ao mesmo tempo, a apontar para um difícil poder de concisão – como o axioma – e uma certa indolência criativa (algo como a pressa de terminar o que ainda poderia ser esticado, já que tratamos, aqui, de sugestões de histórias), tem o efeito de perturbar o leitor e tirá-lo de seu comodismo habitual. O miniconto jamais responde. Indaga e levanta suspeitas. Um exemplo cruel (na primeira pessoa, o que é pouco comum no subgênero):

Dias das Mães

Desta vez, dei umas porradas na velha.

Apenas sete palavras, mas que mexem com a imaginação do leitor, instigado à procura dos motivos. Afinal que monstro que é este, que no Dia das Mães, ao invés de um presente, de um gesto de carinho, desfere porradas na velha? O que o teria levado à tamanha barbaridade? Vingança? Ódio reprimido da infância? O pai constantemente traído por uma megera? Desequilíbrio mental? E porque desta vez? Já quisera antes agredir fisicamente a mãe e não tivera coragem? Para o autor não importa, os motivos, cada um que procure sua própria explicação para o ato condenável.

Outro exemplo do poder de espanto instântaneo do miniconto.

Campo Santo

Sempre que passo defronte de um cemitério, sinto inveja dos mortos.

Então – pergunta-se o leitor – quem é esta pessoa, um suicida em potencial e sem coragem para o desenlace fatal, um morto-vivo que prefere a paz dos mortos às atribulações mundanas, um doente terminal castigado por dores atrozes ou ainda alguém que já não suporta mais a acusação do remorso? Porta aberta para a imaginação, o miniconto, portanto, comporta diferentes interpretações, ao gosto do leitor.

Mas, chega de exemplos. É de Carlos Barbosa que estamos  falando.

FOGO FÁTUO DA CRIAÇÃO –  Lembranças de Viagem, o primeiro miniconto do livro, é a denúncia da ganância humana e da falta de solidariedade entre os homens, a lei da selva e do salve-se quem puder. Um homem sofre um grave acidente de automóvel. Um grupo de curiosos se aproxima. O socorro iminente? Que nada:

Ele os viu, um a um, reviraram o carro e levarem seus pertences. Assistiu depenarem seu próprio carro – não se podia mexer, não podia falar. Depois o deixaram lá, gaveta revirada, e foram cuidar de suas vias.

Disso ele se lembra bem.

Em Debute, os pais da aniversariante, sequiosos por dar um presente inesquecível para filha, se transformam em alcoviteiros. Contratam um belo modelo. Não para animar a festa, mas para depois da festa. In supremo trata de uma desilusão cósmica. Depois de destruíram o planeta, os homens enviam um astronauta para uma galáxia vizinha, “em busca de uma experiência redentora”. O viajante do espaço retorna com a “boa nova”:

– Desistam, somos todos iguais.

Boca transporta o leitor para o que aparenta ser um crime por motivo fútil. Uma mulher sensual ler um livro e sua boca veludosa excita o narrador. Ela desvia os olhos e retorna à leitura:

Foi esse, o motivo, doutor, confesso.

O Nevoeiro é o remake – em forma de miniconto – de um filme recente do mesmo nome. Sob a densa névoa, uma  criatura espreita na rua. Ela é “o outro, o dominador, o exterminador, o impiedoso”. A Bunda e o Assento denuncia a truculência que subjuga os pobres e deserdados da sorte. Enquanto espera atendimento em um pronto-socorro de um desses SUS da vida, um paciente, “febril, enjoado e com tonturas”, senta-se no chão, por falta de um assento digno. O segurança se aproxima e mando-o levantar-se. O outro tem uma dessas iluminações instantâneas:

– Moço, o senhor ta dizendo que eu não posso botar minha bunda onde qualquer um pode pisar e cuspir?

Ribeirinho do São Francisco, Carlos Barbosa conhece a beleza indomável de uma cheia, como demonstra em Enchente:

O rio venceu o cais, invadiu a praça, subiu os degraus da igreja.

Minha mãe, protegida e a seco, foi lá ver:

– Que tragédia, meu Deus! Mas como é bonito!

No curto espaço de um miniconto (fogo fátuo da criação), Carlos Barbosa tem tempo de esgrimir sua prosa poética: “Procuro um presente que grude feito idéia rebelde, vontade de chocolate ou nossa pouca sorte. Um presente que te faça pronto para ser a moça que, um dia, se debruçará sobre meu leito de morte. Feito um sim no olhar”. (Presente). Em Mecha, mostra a inutilidade última das palavras: “Meu confuso silêncio, a mais bela frase que jamais se ouvirá”. Filosofia (séria) de botequim, Códice 1,   retrata um Deus humanizado, um Deus ferido pelo homem, sua mais imperfeita criação e  que tem cicatrizes.

A maneira mais moderna de se estar sozinho (com amigos virtuais, enquanto alguém lá fora está disposto a estender a mão amiga), a solidão cibernética, é o tema de Netgirl. Parafraseando a canção de Chico Buarque, o tempo passou na janela e só a Netgirl – graduada com louvor no Orkut College e destaque na MSN Corporotion – não viu. Logo (que fina ironia!) ela, que colara o aviso, na porta do quarto (base universal de seu cyber espaço) o aviso pedindo que não invadam sua privacidade, enquanto a escancara no Orkut. Serial corrobora com a tese de que para matar mais de uma pessoa, basta a apenas assassinar a primeira:

Matou por um copo d’água. Ficou ainda mais sedento.

A curiosidade pode não matar gato, como diz um velho ditado popular, mas é bem capaz de cegar um olho, principalmente se o curioso abre a janela de casa para ver um tiroteio na rua:

Não morreu, mas perdeu o olho.

Morta a Pauladas é uma piada de humor negro:

É que ele achava a moça boa pra cacete.

Solitudinária nada mais é do que a solidão que formiga na metrópole:

40 apartamentos – 40 galáxias.

Quase 200 pessoas – estrelas esgotadas.

Mais porteiros, visitantes e empregados estressados.

E a faxineira que vem toda quarta cantando “bororó, bororoó”.

Todos moram comigo.

E eu moro só.

J. O herói do sertão é um anti-herói matuto de seis minicontos seqüenciados; uma vítima de leis absurdas e de decisões polêmicas. No primeiro minicionto, o ingênuo tabaréu, prestes a completar 70 anos, conta que não pode se aposentar porque, lá pelos idos de 73, um funcionário preencheu errado a papelada do imposto da terra, escrevendo que ele tinha cinco empregados:

[…] Daí eu pergunto; tivesse cinco empregados, já não estaria aposentado faz tempo?

Na sequência, o caboclo padece sob uma draconiana lei de proteção ambiental  que não permite a derrubada de uma árvore, nem que seja para salvar uma criança da fome. Seu erro foi consultar se podia derrubar uma mata, no fim da roça, “pra vender lenha”. Claro que não podia, é proibido e punido com multa:

Essa mata tá na minha terra e não poso dela dispor…Agora, todo mundo botou abaixo suas matas e vendeu a lenha e ganhou dinheiro. Nenhum deles foi lá perguntar se podia. Eu fui, de besta.

É que (para não perder a piada) J. O Herói do Sertão não conseguia intuir que, se à época existisse o Ministério Público e leis de proteção ambientais, Deus não teria construído o mundo em seis dias para descansar no sétimo, já que sua obra divina provavelmente teria sido embargada no segundo da criação.

Sombra luminosa do conto, o miniconto tem em Carlos Barbosa um esgrimista hábil de histórias portáteis.

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Comentários»

1. VITRINE : : 3×4 | microficções - setembro 30, 2010

[…] Resenha – Jornal A Tarde […]

2. eliesercesar - setembro 30, 2010

A resenha de A Tarde foi feita por mim e publicada com cortes, por motivos editoriais. em Salve, Cesar, postei-a na íntegra.

3. Lidi - setembro 30, 2010

Elieser, gostei muito da tua resenha. A segunda sombra é mesmo excelente. Os minicontos contemplam o que há de melhor no gênero: uma narrativa curta, seca e, ao mesmo tempo, poética, irônica, com uma dose de humor e reflexão, possibilitando sempre a atuação do leitor como um co-autor da história. Sem dúvida, o livro de Carlos Barbosa nos proporciona uma leitura prazerosa e leve. Abraço.

4. blunethost - outubro 14, 2010

ótimo conteúdo adorei seu blog.


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