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VISIONÁRIO BIOENERGÉTICO outubro 4, 2010

Posted by eliesercesar in Artigos.
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Capa da revista Caros Amigos.

 

– Físico baiano, Bautista Vidal demonstra como o Brasil pode se tornar a maior potência mundial em energia.

Há uma diferença sutil entre o homem utópico e o visionário. A utopia situa-se no campo do desejo, daquilo que a porção mais generosa da humanidade gostaria de ver concretizado – uma vida melhor e mais digna para todos, a preservação da natureza num ambiente predatório de competitividade industrial, o respeito sagrado às diversidades que, na dialética social, diferenciam e complementam a humanidade; enfim, um “pacote do bem”, para usar uma expressão em voga num tempo “politicamente correto” e socialmente injusto.

Já o visionário enxerga para além do seu tempo; como os grandes profetas da humanidade, não necessariamente bíblicos, apocalíticos ou integrados. O homem de visão é aquele que, no curto espaço da vida, percebe o que está por vim para as novas gerações. É, por natureza, um previdente; por temperamento, um provedor e, por instinto, um sobrevivente.

No Brasil, temos exemplos do visionário, de Santos Dumont,a Juscelino Kubitschek; de Celso Furtado, com a criação da Sudene, a Rômulo Almeida, na Bahia, com sua importância para a implantação do Polo Petroquímico de Camaçari. Nesse seleto grupo de homens com visão de futuro encontra-se um baiano pouco falado em seu Estado, mas respeitado pela comunidade científica internacional: o engenheiro e físico José Walter Bautista Vidal. Com pós-graduação em Física pela Universidade de Santford (EUA), professor de várias universidades brasileiras, autor de livros sobre o potencial energético brasileiro e o lugar do Brasil entre as grandes potências do mundo, Bautista Vidal foi o titular da primeira Secretaria de Ciência e Tecnologia do Brasil, criada em 1969, pelo então governador da Bahia Luís Viana Filho.

Intransigente defensor da soberania nacional, sobretudo no setor energético – chave de todo desenvolvimento – Bautista Vidal é, acima de tudo, um visionário desenvolvimentista, responsável pelo primeiro grupo de geofísicos que descobriram o petróleo na Bacia de Campos (RJ) e criaram, para a Petrobras, a Plataforma Continental, empreendimento, na época, considerado inviável. Ele implantou ainda o Instituto de Física da Universidade Federal da Bahia (UFBA) e cerca de 30 instituições de tecnologia no Brasil, dentre elas o Centro de Pesquisa e Desenvolvimento (CEPED), concebido para assegurar o suporte tecnológico do Pólo Petroquímico de Camaçari, mas, esvaziado, 16 anos depois.

Bautista Vidal empreende uma espécie de cruzada pela soberania nacional, como se depreende do títulos de um de seus livros De Estado Servil a Nação soberana – Civilização Solidário dos Trópicos (São Paulo: Editora Universidade de Brasília/Vozes, 1996). Durante toda sua formação acadêmica e política, Bautista Vidal se debruçou sobre dois temas cruciais da modernidade: a crise energética, provocada por um modelo que utiliza basicamente o petróleo como motor do desenvolvimento e a dependência tecnológica dos países, antes em desenvolvimento e, agora, emergentes, como as nações do BRIC (Brasil, Rússia, Indiana e China) para empregar a nomenclatura atual.

Segundo ele, no caso brasileiro, a dependência tem raízes históricas e começou bem antes de 1822, quando Brasil se separou de Portugal. Exatamente em 1703, quando a Coroa Lusitana assinou o Tratado de Methuen, tornando-se, indiretamente, uma colônia da Inglaterra, condição agudizada em 1808 coma a Abertura dos Portos às “Nações Amigas”. Esta situação só viria a ser minimizada com a Revolução de 30 e com o Governo de Getúlio Vargas, que começou o processo de industrialização nacional, sob o argumento de que “o país que consegue construir suas próprias máquinas é um país vitorioso”. Desse modo, com a implantação da Companhia Siderúrgica Nacional, Getúlio lançou os alicerces da indústria de base e da política de substituição de importações, consolidada com a criação da Petrobras, em 1953.

Porém, como sublinha Bautista Vidal, o modelo dependente foi retomado nos anos 50 e no Governo Militar, sobretudo a partir de 1979 e impulsionado nos anos 80 do século passado com o chamado “Consenso de Washington” e a glorificação global do neoliberalismo.

BRASIL, POTÊNCIA ENERGÉTICA

 

Para Bautista Vidal, "o Brasil é o dono do sol".

 

Parafraseando o filósofo e escritor existencialista francês, Jean-Paul Sarte, para quem “o homem está condenado a ser livre”, Bautista Vidal costuma dizer que “o Brasil está condenado a ser a grande potência energética do planeta”. Por quê? Primeiro, pela vastidão de seus recursos naturais renováveis, já que o Brasil detém cerca de metade das regiões intertropicais úmidas do planeta, muita água e muita terra para a agricultura. Segundo o cientista, o Brasil pode garantir a alimentação de todo sua população e ainda dispor de mais de 90% de seu território, “inclusive para todos os outros fins, como o suprimento de suas necessidades básicas de energia e a produção de excedentes agrícolas e energéticos para exportação”

Segundo o físico, no Brasil, a agricultura e a pecuária ocupam apenas 13% do território. Por isso, diz Bautista Vidal, “a terra vai ser o grande responsável pela energia que movimenta o mundo e o alimento que mantém a vida e com toda essa terra que temos aqui, com o valor mundial da energia, o mercado é que permitirá fixar essa gente na terra aos milhões”.

Sobre o assunto, Bautista Vidal observa, no livro De Estado Servil à Nação Soberana – Civilização Solidária dos Trópicos: “Cerca de 30% do território brasileiro é constituído de terras impróprias para a agricultura, mas apta à exploração florestal; a utilização de metade desta área, ou seja, de 120 milhões de hectares, para a formação de florestas energéticas, permitiria a produção sustentada de do equivalente a cerca de 5 bilhões de barris de petróleo por ano”. Ou seja, à época em que o livro foi escrito: duas vezes a produção da Arábia Saudita. Tudo isso, com o ganho ecológico de não depredar o patrimônio florestal, explorando, racionalmente, os recursos renováveis, através do reflorestamento e do manejo sustentável da mata nativa.

No mesmo livro, o físico enumera o potencial mineral do país, em escala mundial: 95,4% de nióbio, 52% de titânio; 48% de tântalo; 47,1 de berílio; 11% de vanádio; 100% de quartzo de primeira qualidade; 8,3% de zircônio; 7% de níquel, “além de reservas de porte de minério de ferro, alumínio, manganês, cobre, ouro e muitos outros essenciais à construção de uma sociedade moderna industrializada”.

De acordo com o cientista baiano, “Deus é Brasileiro, porque nos deu os ingredientes básicos para para o processo energético: o sol e a água”. Fonte universal de energia, sol o tem uma participação fundamental no processo de desenvolvimento defendido por Bautista Vidal. Sobre o Astro-Rei, revela o professor:

“ O sol é um reator a fusão nuclear. A quantidade de energia do sol que incide sobre a bacia Amazônica, por dia, é equivalente a energia de 6 milhões de bombas nucleares. O reator a fusão nuclear seria aquele que transforma a matéria em energia, pela relação de Einstein; energia igual a massa vezes a velocidade da luz ao quadrado, a luz numa velocidade de 300 mil quilômetros por segundo ao quadrado; um grama de matéria, um grama de hidrogênio produz energia equivalente a a mil toneladas de petróleo. Energia é poder, energia é crescimento econômico, prosperidade…E o Brasil é o dono do sol”.

Conforme Bautista Vidal, a energia que provém do sol equivale a todas as reservas de petróleo descobertas em todos os tempos e ainda as que não foram encontradas. Por isso, ele faz uma comparação cósmica: “A civilização do petróleo, é a civilização de um dia”. E diferencia: “Agora, essa quantidade de energia não incide sobre a terra de maneira democrática e equânime. Ela é concentrada nas regiões tropicais. Se você chega em Viena as três horas da tarde, tem que se acender as luzes da rua, porque falta luz para não colidir e, aqui, temos essa abundância de luz fantástica”. Daí, com esse sol e muita água (componente necessário à fusão nuclear), o potencial do Brasil para se transformar na “Nação Solidária dos Trópicos”.

DENDÊ E BABAÇU – Sobre o potencial energético da biomassa brasileira, em entrevista à revista Caros Amigos em dezembro de 1997, há 13 anos, portanto, o professor diz que o Brasil tem centenas de óleo, como os de mamona, girassol, soja, dendê e babaçu, para lembrar que somente o dendê que, à época representava o plantio de 70 milhões de hectares, ainda assim com baixa produtividade de floresta e sem nenhuma tecnologia, daria para produzir 6 milhões de barris de óleo diesel, por dia, praticamente a produção de petróleo da Arábia Saudita. Eu que dizer do babaçu do Maranhão, “energeticamente maior do que a Arábia Saudita?

“O babaçu, esse coquinho, tem a amêndoa central, da qual se extraí o óleo e substitui o diesel; tem a parte dura, celulose pura, excepcional carvão natural, sem nenhum poluente; tem o amido do qual se faz álcool para substituir a gasolina e a palha, que produz calor. Do coco do babaçu, se pode construir um gigantesco complexo petroquímico e energético, jamais visto no mundo e para sempre, mantendo a floresta”, ensina o físico.

Bautista Vidal diz que esse enorme potencial só não foi devidamente explorado devido ao esvaziamento intencional do sistema nacional de C&T, pelo processo neoliberal”. E exemplifica a sabotagem do setor: Existe uma riqueza de babaçu extraordinária, e tínhamos mais de quarenta projetos nas fundições, nas siderúrgicas, a própria Siderbrás tinha um projeto de fazer siderugia de porte a partir desse coque, e tudo foi engavetado. Eu tinha comigo, trabalhando na área tecnológica, 1.600 investigadores. Tinha a melhor equipe de motores de turbinas no Centro Técnico Aeroespacial, e tinha mais de quarenta institutos tecnológicos. A maioria o neoliberalismo fechou”.

Autor dos livros De Estado Servil a Nação Soberana – Civilização Solidária dos Trópicos (1987); Soberania e Dignidade, Raízes da Sobrevivência (1992), O Esfacelamento da Nação (1994);

A Reconquista do Brasil (1997) e Poder dos Trópicos (1998, em co-autoria com Gilberto Felisberto Vasconcellos), José Walter Bautista Vidal aponta quatro níveis de corrupção no Brasil. O primeiro e mais baixo é ilustrado com os “Anões do Orçamento” e movimentaria algo em torno de US$ 1 milhão. O segundo é os privatizações. “

“Você pega uma Usiminas,a segunda mais eficiente indústria siderúrgica do mundo, com um patrimônio de US$ 15 bilhões e, com corpo próprio e entrega por um valor que não dá para comprar um Gol usado, segundo um documento oficial do Procurador Geral da República.. Pega uma Companhai Siderúrgica Nacional valendo US$ 7,8 bilhões e vende por US$ 28 milhões, havendo US$ 78 milhões em espécie no cofre e US$ 200 milhões em produtos no pátio. Pega o complexo petroquímico, vinculado à Petrobras, que representou investimentos do Estado de US$ 3,5 bilhões , e entrega pelo valor de R$ 1 mil. Pega a Vale do Rio Doce, uma coisa incomensurável, um patrimônio para dentro de 500 anos, dezenas de gerações à frente e, e entrega por um valor ridículo”, revela o físico baiano.

O terceiro nível da corrupção, conforme Bautista Vidal, é o setor financeiro que, num período de dez anos, de acordo com estudos da Fundação Getúlio Vargas, transferiu do setor produtivo para os banqueiros US$ 17 bilhões. Por último, evm a transferência dos grandes patrimônios estratégicos, como o genético e o mineral. “São quatro níveis de corrupção. Um é corrupção de ladrão de galinha e os outros três são institucionalizados”, comparou, na histórica entrevista à Caros Amigos.

Físico com o DNA da política, José Walter Bautista Vidal é um defensor intransigente da soberania nacional e das riquezas do Brasil, um país que pode se tornar o celeiro e o dínamo da economia mundial, se seus governantes estiveram à altura desse portentoso desafio histórico.

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