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O Barbante Encantado – Capítulo 11 outubro 13, 2010

Posted by eliesercesar in Akizar, a palavra mágica..
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De como, à maneira do Rei Arthur, sem a força dos brutos, mas com a energia dos puros, nosso herói desentranha da rocha poderosa arma.

A palavra mágica somente não me garantiria a vitória nos combates. O Mago Rekerk me disse que eu precisava também do Barbante Encantado e do Cavalo a Jato.

Ciente de que vivia em um novo mundo, de que meu passado ficara para trás e das minhas novas responsabilidades de guerreiro, deixei a Montanha do Topo Celestial. Teria que encontrar o valoroso cordão. Com um forte abraço, me despedi do Mago. “Adeus, Vigilante dos Caminhos Sem Medo. Daqui para frente, você será a justiça armada do mundo. Jamais esqueça a palavra mágica. Você pode gritá-la, mas ela não pode ser ouvida por outra pessoa, só se você quiser ensiná-la, o que nunca deve fazer. Leve-a entranhada na alma. Boa sorte, filho”, desejou-me Rekerk.

Tive que atravessar o Vale das Sombras Tortuosas para chegar ao  Barbante Encantado. A região era habitada pelos Morcegos Tricéfalos. O cordão estava escondido numa pedra limada, à beira de um córrego diáfano, mas traiçoeiro: suas águas eram ácido disfarçado.

Demorei quatro dias e quatro noites para chegar ao Vale das Sombras Tortuosas, que alcancei em pleno sol. Foi pisar o vale e uma noite antecipada encobrir o dia. Como carregava tocha, fósforo e querosene (recomendados por Rekerk), iluminei o caminho.

Tremenda criatura surgiu na minha frente, após uma hora de caminhada. Três cabeças, dentes pontiagudos e um manto negro como asas. Pelo tamanho, aquele Morcego Tricéfalo poderia sugar todo o sangue de um boi. A ratazana aérea voou ao meu encontro. Joguei mais querosene na tocha para aumentar o fogo. O aleijão de morcego tentou me atingir com sua tríplice boca. Dei um salto rasante. Estendi a tocha e o fogo tomou as asas do morcego, animal em chamas, caindo agonizante na mata. Adiante encontrei mais cinco tricéfalos. Desta vez a tocha incendiária não me serviria contra tantos inimigos. Sedenta esquadrilha das trevas voou em minha direção. Pela primeira vez, empreguei a palavra mágica. Akizar! Arco e flechas surgiram em minhas mãos. O sol varreu a mata densa. Acostumados ao escuro, os Morcegos Tricéfalos ficaram desnorteados. Ofuscados pela claridade, procuraram a copa da árvore mais próxima. Armei cinco vezes o arco. Cinco vezes disparei a arma e uma flecha se cravou no coração de cada morcego.

Livre dos tricéfalos continuei a busca, sem me preocupar com qualquer perigo, até me defrontar com Coruja dos Olhos Giratórios. Do tamanho de um prato, cada olho girava com a velocidade de uma centrifugadora. O animal soltou um chiado grave. Tentaria me atacar, como as demais criaturas do Vale das Sombras Tortuosas ? Na dúvida, armei o arco e a flecha; a flecha em riste, o arco retesado; os olhos fixos nos enormes discos rotativos da Coruja; a decisão, fria, calculada, de matar o animal. Afrouxei a pressão do braço que segurava o dardo fatal. Então apareceu uma visagem: montada em um cisne, tão alvo quanto ela, a Princesa dos Olhos de Cristal. Seria mesmo a minha adorada ou apenas o delírio de quem sente uma saudade sufocante  ? Realidade ou sonho; a Princesa me disse: “Seja generoso, meu senhor. Poupe a Coruja. Que mal o bicho fez aos homens ? Proíbe a natureza que  animal dócil ou sedenta fera  possa ter grandes olhos rotatórios ? Melhor, então, exterminar todo o Planeta que, como os olhos desse inofensivo ser, também gira sem parar”. Boquiaberto, pensei em perguntar para a amada onde ela se encontrava, mas uma nuvem  a encobriu a e ao límpido cisne que a carregava.

Outra vez, voltei minha atenção para a Coruja dos Olhos Giratórios. Era verdade: o animal parecia inofensivo; havia, em seus olhos, a insistência incômoda de rodopiar nas próprias órbitas. Retirei a flecha do arco e segui caminho.

Logo depois cheguei ao Córrego de Ácido Disfarçado e localizei a pedra lisa onde se enroscara o Barbante Encantado. Mais uma vez o Mago Rekerk acertara e de novo,  agradeci sua proteção.

O cordão ligava-se à pedra com a mesma cor e consistência minerais. Tentei puxá-lo. Nenhum movimento, sequer o mais leve deslocar-se. Puxei com mais força. O Barbante não se moveu um milímetro. Quis removê-lo com um punhal. Nada. Compreendi que o cordão estava preso à pedra  por encantamento, como a espada do Rei Arthur. Força alguma conseguiria retirá-lo de seu casulo secular. Eu teria que tirar o Barbante da pedra, não com a força dos brutos, mas com a energia dos puros; demonstrar – para a misteriosa natureza da pedra e do cordão entranhados – que era merecedor daquele valioso tesouro.

Fechei os olhos. Daquela vez resolvi não apelar para a palavra mágica. Se o Barbante tivesse que ser meu, seria sem truques ou magia. Toquei o cordão com a ponta dos dedos. O Barbante se ergueu dócil e se aninhou na palma da minha mão, como um ordinário cordão de padaria.

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