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O Guardião das Torres Submersas – Capítulo 13 outubro 27, 2010

Posted by eliesercesar in Akizar, a palavra mágica..
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No qual se apresentam as águas profundas de uma avançada civilização, varrida de uma cordilheira pela febre do mar, formada por homens-peixes, banhada em ouro, convivendo em harmonia,  e conduzida por um líder sábio e generoso.

As torres submergiram com um maremoto que varreu um continente. Ficavam numa cordilheira também engolida pela febre do mar. Eram sete colunas gigantes, construídas há séculos por uma civilização de homens-peixes. Encerravam um vasto tesouro, jóias, porcelanas, especiarias, tapetes finos, brasões e armas.

O maremoto inundou a cordilheira, mas não dizimou completamente a raça dos homens anfíbios, povo de cultura e desenvolvimento superiores aos demais de sua época. O rei daquela gente era o Magnânimo Guardião. Embora muito rico e poderoso, o Magnânimo Guardião Não possuía o tesouro que mais almejava: a Serpente da Cabeça Iluminada. O Mago Rekerk disse que se eu levasse a cobra-farol ao chefe dos homens-peixes, o Guardião teria como trazer de volta, intocada e bela, a Princesa dos Olhos de Cristal. Um dos poucos poderes que o Magnânimo Guardião das Torres Submersas não tinha era fazer aparecer, subjugada a seus pés, a Serpente da Cabeça Iluminada. Sequer poderia despachar um grupo de homens-peixes para o Rio das Águas Venenosas, atrás da grande cobra. Os anfíbios morreriam ao primeiro contato com as águas letais. O Guardião precisava de um homem destemido e forte para capturar o desejado animal.

Rekerk me dera o mapa das Torres Submersas, as quais alcancei após seis dias de viagem com Adestrus. Foi o itinerário mais tranqüilo das minhas andanças, pois não encontrei um único contratempo no caminho.

Num ponto do oceano, o cume de uma montanha indicava as Torres Submersas. A Serpente da Cabeça iluminada ia comigo, sedada e amarrada ao Barbante Encantado, para que não me desse nenhum trabalho. Adestrus pousou no alto do monte, solitária ilha na imensidão do mar. Reconheceu o lugar assim que o avistou. Logo desapareceu na água. Nunca o vira mergulhar. Ele sabia nadar como os  cavalos comuns, mas até aquele momento não dera mostra dessa outra habilidade.

Meia hora se passou. Eu já começava a me preocupar com a possibilidade do cavalo, novamente em casa, não querer mais retornar. Logo agora, que eu já me afeiçoara ao animal. De repente, Adestrus ressurgiu da água, carregando uma criatura verde e rugosa, com dois metros de altura, feição humana, nadadeiras de peixe e, em lugar dos cabelos, pequenas escamas brilhantes. Era um dos anfíbios, emissário do Magnânimo Guardião.

O homem-peixe saltou do cavalo, carregando um tridente e um escudo em forma de estrela. Eu me levantei de um salto, pronto para qualquer ataque.

– Não tenha receio, humano – tranqüilizou-me o anfíbio, falando mina língua – O Magnânimo Guardião, meu rei e benfeitor, me mandou escoltá-lo você até as Torres Submersas. Sou Derek, capitão dos homens-peixes.

– Sou o Vigilante dos Caminhos Sem Medo. Trouxe a Serpente da Cabeça Iluminada – avisei, apontando a grande cobra presa ao Barbante Encantado.

– A Serpente! Não é possível ! Homem algum conseguiu se aproximar dela e escapar com vida – espantou-se o robalo semi-humano, logo convencido ao ver o animal aprisionado.

– O Magnânimo Guardião saberá recompensá-lo por tão precioso serviço. Vamos partir. Meu soberano o espera.

Montei Adestrus, levando aquela tainha humana na garupa. Mergulhamos no mar, sem que eu precisasse passar o unguento do Mago Rekerk para respirar debaixo d’água. Ali já se manifestavam os poderes do Magnânimo Guardião. Duas horas depois, chegamos às Torres Submersas, onde o espetáculo era deslumbrante. Com se banhadas em ouro, seis torres douradas formavam um círculo, com a sétima, a maior de todas, no meio, obelisco pontificando a incrível cidade dos homens-peixes.

Nas ruas havia crianças e adultos da raça de Derek, cardume, quase gente, no corre-corre da cidade. A vida no lugar parecia, ao mesmo tempo, caótica e organizada, como nas grandes metrópoles do passado.

Derek me levou à torre central, palácio do rei daquele mundo submerso. Pesada porta de ferro se abriu à nossa passagem. Um amplo salão se descortinou tomado por um séquito de guerreiros. No trono real, um homem muito grande, bem maior do que meu guia, de cabelos cumpridos, não totalmente brancos, barba grisalha, olhos de um azul mais intenso do que o azul daquele mar perdido; as maçãs do rosto rosadas e salientes, a expressão serena e salomônica de quem está acostumada a arbitrar a justiça sem nenhum drama de consciência. Potente e nítida, sua voz trovejou:

– Você capturou a Serpente da Cabeça Iluminada. Feito notável que demonstra o seu valor de guerreiro, ainda mais meritório, porque vejo que lhe falta um braço. Nenhum dos meus soldados seria capaz de semelhante façanha, sem demérito para o meu bravo exército. Conte-me.

– Nobre Guardião,- respondi – tenho por escrúpulos não relatar os feitos de combate; nada fiz além da obrigação de um guerreiro, ao se defrontar com as injustiças do mundo.

O imperador do homens-peixes pigarreou, coçou a barba, tossiu e disse, na mesma voz portentosa:

– A humildade enobrece ainda mais o seu caráter invulgar. Você não é uma fanfarrão, mas também não deve ter a modéstia dos fracos, nem a timidez dos tolos. Portanto, conte-me tudo.

De bom grado relatei todas as minhas aventuras, da luta com as Estátuas Animadas à captura da Serpente da Cabeça Iluminada, sem acrescentar ou diminuir qualquer detalhe. O Guardião me ouvia com atenção. Fui detalhista somente ao revelar como perdera a Princesa dos Olhos de Cristal e sinceramente dramático ao confessar o que tal perda representava para mim. O soberano da cidade submersa franziu o cenho. Pareceu impressionado, quem sabe mesmo comovido com a minha história. Era um bom sinal.

– Bravo Vigilante dos Caminhos Sem Medo. – disse o Magnânimo Guardião, após o meu relato – Ofereço a você o posto de comandante, de meu  lugar-tenente, braço direito, sem desprestígio do leal Derek. Há séculos vivemos em paz, mas não podemos descuidar da proteção das Torres Submersas. Inimigo numeroso pode aparecer um dia, em busca dos tesouros que guardamos, não por usura, sim por tradição de apreciar a beleza.

A oferta me pegou desprevenido. Após breve reflexão, respondi:

– Generoso Guardião, integrar o seu exército é demasiada honra para mim, prêmio imerecido na condição de comandante. Os homens-peixes não precisam de mim para se defender, ao passo que a minha gente só tem ao lado dela o Vigilante dos Caminhos Sem Medo. Tenho que garantir a segurança desses homens indefesos. Além do mais, preciso recuperar a Princesa dos Olhos de Cristal.

O Magnânimo Guardião sorriu:

– Outra não seria a atitude de um guerreiro honrado. Grande é a nobreza de seu coração, mas não precisa pressa. Rogo que passe alguns dias nas Torres Submersas. Depois  pode voltar para casa com o Cavalo a Jato. Agora, vamos à Serpente da Cabeça Iluminada – pediu o rei dos anfíbios.

Ordenei ao Barbante Encantado que soltasse a cobra. O cordão largou a prisioneira, voltou ao tamanho normal e enroscou-se em minha cintura. A Serpente jazia, gigantesca minhoca. Fui assaltado por um receio súbito. Se a descarga elétrica nos olhos da cobra tivesse lhe tirado a capacidade de se iluminar ? Com o curto-circuito sua engenhosa bateria poderia ter pifado. Neste caso, a Serpente não teria mais valor para o Magnânimo Guardião e eu nunca mais veria a Princesa dos Olhos de Cristal.

Nervoso, despejei na cabeça da cobra as gotas de um elixir, receita do Mago Rekerk. A Serpente abriu os olhos e levantou a cabeça, logo inundada por uma luz vermelha, azul em seguida e depois amarela.

O Magnânimo Guardião não conteve uma alegria infantil. Aproximou-se da cobra e estendeu a mão num afago impossível.

– Meu tesouro! Minha Serpente de Luz! – acarinhou.

Temi que a Serpente atacasse o Guardião. Os soldados anfíbios mantinham-se num grave suspense. Ao invés de abocanhar a mão do rei dos homens-peixes, como era de seu instinto, a grande cobra colocou para fora a língua pegajosa e passou a lamber os dedos do Guardião.

Fiquei uma semana nas Torres Submersas, onde o Magnânimo Guardião me contou como pereceu a Civilização da Coca-Cola em Drágea. Quando parti, ele me disse que eu teria de volta a Princesa dos Olhos de Cristal, mas somente após decisiva batalha que me aguardava. Eu me despedi do Magnânimo Guardião das Torres Submersas, dos homens-peixes e até da Serpente da Cabeça Iluminada. Como na vinda, Derek me escoltou.

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