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A última batalha – Capítulo final novembro 20, 2010

Posted by eliesercesar in Akizar, a palavra mágica..
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Onde se chega ao fabuloso desfecho dessa fabulosa saga, depois que o Vigilante, acometido de amnésia e, portanto, esquecido da palavra mágica, duela com um inimigo que julgava liquidado.

 

Não sei se foi com a ajuda de forças misteriosas ou por si mesmo que o Cacique conseguiu sair do Centro da Terra. Retornara desta vez sem as Estátuas Animadas. Enquanto eu enfrentava os perigos que me separavam das Torres Submersas, o Cacique andava à minha procura. O Mago Rekerk mandou um mensageiro me avisar da presença do inimigo.

Decidi ir atrás do Cacique, para não adiar mais o confronto final. O combate tiraria definitivamente do mundo eu ou o Cacique. Quem sabe os dois. Se eu vencesse, teria de volta a Princesa dos Olhos de Cristal, reaveria o braço e a orelha decepados. Caso morresse, o Cacique ficaria com o caminho livre para tiranizar o planeta e trazer voltar a Maldição das Estátuas Animadas. Minha responsabilidade era enorme. De mim, dependia o futuro da Terra, semi-destruída pela guerra.

Apanhei o Barbante Encantado, pulei em Adestrus e saí à caça do Cacique. Procurei-o durante dois meses em várias regiões do planeta; nas planícies, nos planaltos, na caatinga, nos desertos, nas cordilheiras, nos gelos. Finalmente, nos deparamos numa praia deserta dos trópicos.

Era mesmo o bandido. O mesmo ar de ferocidade irracional, a mesma determinação em lutar até o aniquilamento, mais perigoso do que antes, devido ao rancor acumulado contra mim e a oportunidade de me destruir na revanche. A única diferença era a pele completamente torrada, conseqüência da temperatura infernal do Centro da Terra, insuficiente para dar cabo do patife, lamentei. Empunhava o mesmo tacape que me levara a orelha.

Havia outro homem ao seu lado. Estava de costas, mas quando se virou reconheci Ferdinando, o mesmo que salvei do chiqueiro do Ciclope Serifan. O que estariam fazendo juntas duas criaturas tão diferentes, o cruel Cacique e o esperto Ferdinando ? Seriam amigos ? Estariam tramando algo contra mim ?

Freei Adestrus a dez passos de ambos. Quando me viu, o Cacique carregou ainda mais a dura máscara de seu rosto. Ferdinando abriu um largo sorriso e, braços estendidos, veio ao meu encontro.

–  Vigilante dos Caminhos Sem Medo, mas que prazer – disse, com efusão. –  Há muito tempo estou à sua procura. Terminei encontrando o Cacique, que também está lhe procurando, porém com intenção oposta à minha.

Ferdinando me abraçou como um velho conhecido. Desconfiado, afastei-o um pouco.

–          Pare de frescura, homem – ordenei.

Ferdinando corou como uma freira diante de uma quadro obsceno. Logo recuperou a presença de espírito.

“Sei que logo haverá um duelo de vida ou morte. Estou pronto a servir de mediador, a fim de assegurar a observância das regras do bom combate, evitando golpes baixos e traiçoeiros”, ofereceu Ferdinando.

O Cacique ficou todo o tempo calado; as pernas abertas, imóvel como se ainda tivesse o rabo preso no Centro da Terra. Quebrou o silêncio com uma voz cavernosa.

– Pensou que tivesse me destruído, Vigilante dos Caminhos Sem Medo ? Ninguém me destrói facilmente. Tenho também os meus poderes. Vou me vingar de todo o mal que me fizeste, da destruição das Estátuas Animadas e da morte de meu filho, o Imperador das Estátuas Ferozes, que esperava a hora de nascer, no bucho da Princesa dos Olhos de Cristal. A Princesa foi minha, foi toda minha e isso você não pode negar.

Miserável ! Não me contive diante daquela canalhice. Disse ao Cacique que o mataria com as minhas próprias mãos e avancei disposto a esganá-lo. Ferdinando tomou a frente, pediu calma e disse que conduziria a luta como um bom juiz.

– Ela foi minha. A Princesa dos Olhos de Cristal foi minha. Não forcei nada. Veio de livre e espontânea vontade, como nos melhores casamentos. – provocou o Cacique.

_ Canalha! – reagi, empurrando Ferdinando e, para minha surpresa, o inimigo recuou, brandindo o tacape.

Ferdinando pediu novamente calma; que lutássemos como dois guerreiros que se respeitam, pelo coragem e destemor, como Heitor e Aquiles; sobrevivesse o melhor. O Cacique concordou. Eu também. Só queria acabar, de uma vez por todas, com uma batalha que julgara definitivamente sepultada

– Vamos à luta. O combate só termina com a morte do rival. Nada de mordidas, cabeçadas e chutes nos culhões – advertiu o juiz.

Adestrus à beira-mar, as patas na água, nos observava com pacífica indiferença. Retirei o Barbante Encantado. O Cacique jogava o tacape de uma mão para outra, com habilidade de malabarista.

–          Hoje você deixa este mundo, safado – avisei.

– Vou rachar seu côco com o tacape – devolveu o Cacique, fazendo o ódio me subir  à cabeça.

Não admitia nenhuma insinuação maldosa à Princesa dos Olhos de Cristal, violentada por aquele facínora, prestes a pagar por todos os seus crimes.

Avancei para o Cacique. Na ponta da língua, a palavra mágica. Não tive tempo de gritá-la. Uma pancada na cabeça me fez rodopiar. Antes de cair, os olhos embaçados, a terra girando, vi Ferdinando com um porrete nas mãos; acertara-me à traição, o desgraçado.

Acordei com uma chuva fina no rosto. Não sabia quanto tempo ficara desmaiado. Estava amarrado ao Barbante Encantado. A cabeça doía. Ferdinando amarrara um lenço no lugar da pancada para estancar o sangue. Adestrus estava atado, com grossas  cordas  a  um coqueiro. Sentado na areia da praia, o Cacique me olhava tranqüilo, como se não quisesse mais lutar. Ferdinando mordiscava a polpa de um côco.

E – ò terrível desastre! – eu havia esquecido a palavra mágica. Akiri ?! Akerô ?! Aquidabã ?! Aquidauana ?! Céus, eu estava, agora, indefeso diante de meu pior inimigo. Seria amnésia ?

Eu me lembrava do meu nome e das minhas aventuras, mas fui esquecer justamente a palavra que deveria levar entranhada na alma, como disse o Mago Rekerk.

Ferdinando se aproximou com o facão usado para cortar côco.

– Nada tenho contra você, Vigilante dos Caminhos Sem Medo. Até lhe admiro muito e devo-lhe a vida, mas preciso saber qual é a palavra mágica. Lembra que quando me salvou de Serifan, você disse que era um homem comum, diferente apenas pela força e pelo poder que a palavra mágica lhe dá ? Pois, agora quero conhecer a palavra mágica e deixar de ser  um homem comum. Escreve-a na areia. Não tente pronunciá-la ou o Cacique quebra, com o tacape, todos os seus dentes – mandou Ferdinando.

O Cacique brandia o tacape a poucos centímetros do meu rosto.

– Vamos logo, escreva ou diga cada letra da palavra mágica. Depois eu o solto e o deixo partir com o Cavalo a Jato – prometeu Ferdinando.

– Esqueci. A pancada afetou-me a memória. Mesmo se quisesse lhe dizer a palavra mágica, coisa que nunca me passou pela cabeça, não poderia.

–          Mentira. Você sabe. Diga logo – impacientou-se Ferdinando

– Se soubesse, à essa altura, você e Cacique estariam mortos.

– Você mente, Vigilante dos Caminhos Sem Medo. É algum truque. Não quer falar, hein ? Pois veja isto – disse Ferdinando, erguendo o facão para Adestrus.

O Cavalo a Jato relinchava e tentava, em vão, se soltar.

– Vou cortar as asas do cavalo, enquanto o Cacique esfacela sua cabeça. Vamos Cacique – ameaçou o homem que eu salvara de Serifan.

O Cacique ergueu outra vez a arma. Fiquei intrigado com a obediência dele. Não precisava seguir as ordens de Ferdinando. O que estava tramando ? Será que também queria conhecer a palavra mágica, para depois me matar ? Se fosse assim, Ferdinando, por enquanto, era útil a seus propósitos. Depois também seria eliminado.

– Ande logo, Vigilante – ordenou Ferdinando, o facão voltado para uma das asas de Adestrus. – Não quero machucar o cavalo, nem a você. Diga, de uma vez por todas, a maldita palavra.

Procurei mentalmente a palavra em todas as letras do alfabeto. Nada. Morreríamos todos, eu, Adestrus e Ferdinando. O Cacique dominaria o planeta.

– Vou lhe dar a última chance, Vigilante. – advertiu Ferdinando – Contarei até três. Atenção: dou-lhe uma…

Aquela rápida conta parecia uma eternidade. Qual era mesmo a palavra mágica ? Ò, Rekerk, me ajude, protetor!

– Dou-lhe duas…

Em fração de segundos, o Cacique desceria o tacape em minha cabeça Ferdinando amputaria as asas do Cavalo a Jato. Logo agora esquecera a palavra mágica. Pobre de mim, coitado de Adestrus. Ai que azar!! Ai que azar ?! Claro: AAAKIIIZAAAR!!!

O Barbante se desprendeu de meu corpo.

– Dou-lhe três”.

Com toda a sua força, o Cacique desceu o tacape. Ágil, interceptei-o, fazendo o cordão de escudo; dei um chute no inimigo, que caiu na areia. Corri a tempo de evitar que Ferdinando decepasse a asa de Adestrus. Empurrei o traidor. Ele estatelou-se longe e perdeu os sentidos. Soltei o Cavalo a Jato.

Virei-me para o Cacique.

– Agora, só nós dois. Era essa sua coragem, lutar contra um adversário indefeso ?

O Cacique me olhava furioso. Arremessou o tacape. Esquivei-me a tempo e, como um bumerangue, a arma voltou às mãos de seu dono. O inimigo lançou outra vez o tacape. Pulei, evitando que me levasse a orelha restante como me levara a outra  Cego de ódio, chutei outra vez os ovos do Cacique. Desta vez sentiu o golpe e se curvou, como um jogador de futebol ao receber uma bolada nos quimbas. Compreendi que ele voltara mais fraco do Centro da Terra. A perda de sua força talvez tenha sido o preço de sua sobrevivência. Por isso, o Cacique fizera o estranho pacto com Ferdinando. Precisava de ajuda para me derrotar, o auxílio de um traidor.

Não seria possível também que o Magnânimo Guardião das Torres Submersas tivesse tirado o Cacique do Centro da Terra, para que eu encerrasse as minhas aventuras por onde praticamente as iniciara ?

Akizar! Transformei o Barbante numa espada. O Cacique continuava encurvado, massageando os culhões. Não perdi tempo e decepei a cabeça do inimigo, como fizera com a Megera da Venta Cavilosa; joguei-a num ponto distante do mar para ser comida pelos peixes. Enterrei o corpo, bem fundo, na areia. Acordei Ferdinando, molhando-lhe o rosto com a água do mar.

– Agora você, miserável!

O homem tremia como as ondas do mar.

– Não me mate, Vigilante”- suplicou.

– Tenho um plano melhor para você – avisei.

O traidor arregalou os olhos; o queixo tremia

– Um plano ? Ai. meu Deus! Qua…Qua…qual ?

Peguei-o pelo pescoço, montei Adestrus (Ferdinando na frente, tremendo muito, eu atrás) e deixamos o campo de batalha.

Paramos no Rio das Águas Venenosas. Ali, construi um barco de madeira. Coloquei Ferdinando na pequena embarcação. Com toda a minha força e o auxílio da palavra mágica, empurrei o barco. Parecia uma lancha veloz, já ganhando distância.

A sorte estava lançada. Se sobrevivesse aos perigos do rio, estaríamos quites. Caso contrário, teria o fim merecido.

Montei Adestrus e voltamos para a praia. Um velho caminhava à beira-mar. Tinha um porte alto. Reconheci o Magnânimo Guardião das Torres Submersas e apeei o cavalo.

Guardião

– Poupe suas palavras, Vigilante dos Caminhos Sem Medo. – cortou o Guardião – Terá agora sua recompensa.

Em seguida estalou os dedos. Meu braço reapareceu. Num ímpeto de curiosidade, leve a mão ao vazio da orelha. Estava lá, outra vez, a orelha decepada, redondinha.

– Adeus, bravo filho – despediu-se o Magnânimo Guardião das Torres Submersas, desaparecendo nas águas.

Foi o Guardião desaparecer e surgir, diante dos meus olhos incrédulos e de meu coração disparado, bela,iridescente e imaculada, a Princesa dos Olhos de Cristal.

– Minha Princesa… – precipitei-me ao encontro da amada. – Tudo passou.

Toquei-a, abracei-a, beijei-a Não era miragem. Era mesmo minha desejada, em carne, osso e espírito.

Coloquei a Princesa dos Olhos de Cristal na garupa de Adestrus e rumei para o futuro, onde nos aguardava o Cavaleiro da Eterna Harmonia. Daqui para frente, eu não teria mais que lutar com fenômenos como a Chuva dos Punhais Invisíveis, o Rio das Águas Venenosas, Os Limos Afiados e o Vale das Sombras Tortuosas. Também não precisaria mais enfrentar bestas como os Crocodilos Voadores, o Ciclope Serifan, a Megera da Venta Cavilosa, a Múmia

Corredora dos Pântanos, os Morcegos Tricéfalos, a Serpente da Cabeça Iluminada, o Surubim dos Infernos, os Crustáceos Predadores, a Rã Lambedora, o Cacique, as Estátuas Animadas e muitos outros inimigos, que nos aguardam e espreitam neste vasto mundo de emoções e de perigo.

 

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