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SUPREMO DITADOR – No romance, Eu o Supremo, Augusto Roa Bastos faz uma autobiografia alheia, ao escrever as memórias de José Gaspar Rodríguez de Francia, emblemático ditador paraguaio. janeiro 27, 2011

Posted by eliesercesar in Resenhas.
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Roa Bastos: "Se queremos falar de alguém, temos que ser esse alguém".

Esdrúxula combinação de ditador, tirano e déspota esclarecido, José Gaspar Rodríguez de Francia governou o Paraguai com mão-de-ferro, durante 27 anos, até a sua morte, em 20 de setembro de 1840. Em seu governo o país, a primeira República da América do Sul, experimentou um crescimento econômico invejável. Tributário da Revolução Francesa, El Supremo, Ditador Perpétuo, como se intitulava, Rodríguez de Francia, o Dr. Francia, acabou com os privilégios da aristocracia, distribuiu terras para os camponeses, incentivou a agricultura e a industrialização, tornou obrigatório o ensino médio, conseguindo acabar com o analfabetismo em seus país, – isso no começo do Século 19 – perseguiu os jesuítas e proibiu a Inquisição.

Avançadas no tempo, suas reformas econômicas e administrativas transformaram o Paraguai na grande potência latino-americana de sua época, resguardada por um poderoso exército. Ao contrário do Brasil, da Argentina e do Uruguai, subservientes aos interesses da Inglaterra (a maior potência mundial do período), desafiou as nações poderosas, chegando ao ponto de proibir as imigrações. Por tal ousadia, pagou deliberadamente o preço do isolacionismo. Quase três décadas após a morte do ditador, o país seria literalmente arrasado pela Tríplice Aliança, na guerra genocida que uniu brasileiros, argentinos e uruguaios contra os paraguaios.

José Gaspar Rodríguez de Francia é o personagem principal de um dos maiores romances da América Latina, Eu o Supremo, do escritor paraguaio Augusto Roa Bastos (1917-2005). Emerge das páginas do romance um homem que, como um Moisés na Terra Prometida do Novo Mundo,chamou para si próprio, num impulso quase místico e megalômano, a responsabilidade de conduzir seu povo para um futuro de glória, redenção, independência e orgulho pátrio, mesmo ao custo de passar as armas os opositores do regime.

Filho de um brasileiro, Dr. Francia formou-se em filosofia e teologia e ganhou respeito como intelectual. Foi também um político ilustrado, leitor de Cícero, Dante, Voltaire, Rousseau, Montesquieu e, claro, Maquiavel. É irretocável, seu perfil, escrito em primeiro pessoa por Roa Bastos, como se extraído das próprias memórias do Ditador Perpétuo, cargo que induziu o Congresso a outorgá-lo em 1814 e do qual, plenipotenciário, desfrutou até a morte. O romance foi definido pelo escritor Antonio Callado como “uma autobiografia escrita por outra pessoa” e “provavelmente o melhor livro da literatura paraguaia”.

O talhe de estadista dos trópicos de Rodríguez de Francia impressionou o inglês Thomas Carlyle que, em 1844, quatro anos após a morte do ditador, escreveu o ensaio “Dr. Francia” em que não esconde a admiração por um personagem que enfrentou, com coragem e altivez, o seu império colonialista da Inglaterra. A mesma admiração que, muitos anos depois, inspirou o brasileiro Callado a escrever (na orelha da edição brasileira de Eu o Supremo – Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1977. Trad. Galeno de Freitas): “Francia, fundador do Paraguai, é realmente uma figura de estadista de molde tão incomum que, se imaginássemos outros Francias em mais três ou quatro de ‘nuestros países’, poderíamos imaginar uma América Latina bem diferente do que é, bem mais forte a seu modo, bem mais inventiva e original. Francia não queria que o Paraguai se parecesse com a Espanha, ou com a França, ou com a Inglaterra. Ele queria criar uma outra espécie de civilização nestas plagas. O Paraguai dos seus sonhos – e das suas realizações – era auto-suficiente, desconfiado em relação às grandes potências, altivo, acreditando firmemente na sua capacidade de criar algo novo”. É inevitável o arroubo da fácil comparação: não seria o venezuelano Hugo Chavez, com marketing bolivariano, um êmulo atual de El Supremo?

Apresentado o personagem histórico, falemos do romance que o retrata como um velho espelho que fragmenta mas não falsifica a imagem.

HOMEM QUE FEZ A HISTÓRIA

Dr. Francia: "Eu não escrevo história. Faço".

Roa Bastos se introjeta tanto El Supremo que, ao dar voz ao ditador, parece que o próprio Dr. Francia está ditando suas memórias, tamanha força do personagem e a verossimilhança do relato. Em um trecho do romance, o escritor revela o segredo da entranhada caracterização psicológica. “Se a todo custo se quer falar de alguém, não apenas temos de nos por sem eu lugar: temos de ser esse alguém”. Ou seja, não basta apenas pensar e agir como a pessoa que se quer retratar. É preciso se colocar na pele dela, e, ainda mais, achar que é ela, numa transmigração – e essa é a vantagem da arte – que oferece o caminho de volta. Só assim, completa Roa Bastos, “unicamente o semelhante pode escrever sobre o semelhante”.

Culto, o José Gaspar Rodríguez de França do escritor paraguaio medita também sobre o ofício do escritor. “Escrever não significa converter o real em palavras, mas sim fazer com que a palavra seja real. O irreal só está no mal uso da palavra no mal da escrita”. Numa sentença lapidar, que tanto serve para escritores e poetas afoitos, para os quais qualquer arroubo confessional e qualquer bobagezinha sentimental, se convertem em obra de arte, Roa Bastos adverte, pela voz do ditador: “as frases idiotas não voltam atrás”.

Eu o Supremo é também pródigo em frases lapidares. Vejamos algumas delas: “O homem de boa memória não lembra nada porque não esquece nada”; “o que é a fé senão crer em coisas sem nenhuma verossimilitude; ver por espelhos no escuro”; “o dicionário é um ossário de palavras vazias”; “que água de rio tem antiguidade?”; “sempre há tempo para ter mais tempo”; “quem pretende relatar sua vida perde-se no imediato”; “o poder Absoluto é feito de pequenos poderes”; “quando é preciso raciocinar, o povo não sabe senão andar às tontas na obscuridade”; “a idiotice não tem limites, sobretudo quando anda aos tropeções pelos estreitos corredores da mente humana”, e “quem guarda sua boca, guarda sua alma”. Podíamos ainda citar “quando a chuva é forte, os homens se enlameiam e os porcos ficam limpos”, ou “criei fama de mentiroso para dizer impunemente a verdade”, mas, fiquemos por aqui. Que o leitor, curioso, confira outras máximas de Roa de Francia.

Dr. Francia galga o poder em um período de desordem, em que “um governo sucedia a outro governo em redemoinho da anarquia; o da manhã não sabia se ia durar até a noite”. Por isso, era inflexível na manutenção da ordem. Diz o Ditador Perpétuo: “Nem a liberdade nem coisa alguma pode subsistir sem ordem, sem regras, sem uma unidade, concertadas no núcleo do supremo interesse do Estado, da Nação, da República, pois até as criaturas inanimadas nos predicam a exatitude. De outro modo, a liberdade pela qual temos feito, estamos fazendo e continuaremos a fazer os maiores sacrifícios , irá degringolar em desenfreada licenciosidade, que a tudo reduziria em confusão num campo de discórdias, de balbúrdias”.

Inexorável em seu rigor e implacável em sua bondade, como dizia de si mesmo, El Supremo manda fuzilar um grupo de conspiradores que tentaram derrubar-lhe do poder, dentre eles Fulgencio Yegros, com quem dividira o governo após a independência do Paraguai do domínio espanhol.

Embora republicano, José Gaspar governou como um Rei Sol dos Trópicos. Sempre teve plena convicção do alcance de seu poder e da dimensão pantagruélica de sua fome poder. Sabia que um simples palavra sua teria ampla audiência em todo o país e que um ditador fala até quando se cala. “Se o homem nunca fala consigo mesmo, o Supremo Ditador fala sempre aos demais. Dirige sua voz diante de si para ser ouvido, escutado, obedecido. Embora pareça calado, silencioso, mudo, seu silêncio é de mando”, observa o mandatário pela pena de Roa Bastos.

Ateólogo, como se professa, Dr. Francia, em seu ufanismo patriótico, chega a “nacionalizar” a Igreja Católica Apostólica Romano e transforma a catequese em Catecismo Pátrio. Se o Papa se dignasse a visitar o Paraguai, teria oferecido ao Sumo Pontífice o cargo de capelão. Fanfarão, manda um recado para os ingleses: “Diga-lhes por ordem minha que meu enferrujado urinol vale mais, muitíssimo mais, do que a suja coroa, e que não estou disposto a trocá-lo por ela”.

Homem de ação, El Supremo resume toda a sua ambição numa frase, digna de um César que atravessou os conflagrados campos guaranis: “Eu não escrevo história. Faço”. Roa Bastos escreveu, uma história ficcionalizada pelo gênio criador.

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Comentários»

1. José Bomfim - janeiro 27, 2011

Companheiro Elieser
Brilhante!
A América Latina precisa de alguns Drs. Gancia verdadeiros, sem conversa fiada como alguns que têm aparecido por aí.

2. Elizio Brites - janeiro 2, 2015

Vejam como retrocedemos, em 1.919 o vizinho Paraguai já erradicava o analfabetismo, obrigando todos ao ensino médio, teve determinada época quando o País se preparava para uma super população em função do desenvolvimento previsto e planejado, chegou a ter mais salas de aula que alunos.

3. Elizio Brites - janeiro 2, 2015

Vejam como retrocedemos, no século 19 o vizinho Paraguai já erradicava o analfabetismo, obrigando todos ao ensino médio, teve determinada época quando o País se preparava para uma super população em função do desenvolvimento previsto e planejado, chegou a ter mais salas de aula que alunos.


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