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APOTEOSE DA BOLA – Baiano Cyro de Mattos acrescenta mais um título à estante do futebol fevereiro 12, 2011

Posted by eliesercesar in Resenhas.
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O escritor baiano Jorge Amado disse, certa vez, que, na literatura brasileira, ele  fizera o ciclo do cacau e José Lins do Rego  o  da cana-de-açúcar. Em seguida, observou que faltava um paulista escrever o ciclo  do café. Ao cacau, açúcar e  café  do país poderíamos acrescentar  o futebol, um ciclo ainda aberto e em  permanente renovação, Sim, a bola, presente em todos os fins de semana desportivos do Brasil e até no meio da semana,com  sua legião de heróis e anti-heróis que se esfalfam em campo  para empurrar um objeto redondo de couro para o gol ou impedir que as redes balancem.

O futebol está cheio de mitos, jogadores que atuaram como verdadeiros maestros e gladiadores, que experimentaram a glória e o fracasso, o riso e a lágrima, a  euforia do gol marcado e a decepção traiçoeira do gol contra. Goleiros que tomam frangos homéricos, zagueiros que entregam a bola ao atacante, centroavantes que perdem gols incríveis, também cartolas venais, times comprados,  juízes que se vendem e torcedores que se matam no entorno dos estádios, jogadores que tiveram a carreira precocemente encerrada, devido à uma falta criminosa; onde tudo isso em nossa literatura?

É realmente incrível que num país onde os meninos – e, mais recentemente, também muitas meninas – jogam bola, nem que seja num campinho de barro, futebol e ficção ainda não tenham formado uma dupla pra lá de entrosada. Claro que há boa literatura inspirada  futebol. Porém, dificilmente daria para lotar  parte da arquibancaa de uma prateleira de livraria.

Sobre o fosso que há entre a bola e a ficção, o escritor Deonísio da Silva escreveu, em artigo intitulado “As letras do maior esporte nacional”, na edição do Jornal do Brasil, de 25 de maio de 2002: “O futebol está para literatura brasileira assim como camelo para o Alcorão. Ninguém nega a importância de cada um dos temas nos respectivos domínios, mas se não encontramos o camelo em nenhuma das suratas (as divisões do Alcorão), também o futebol tem sido evitado pelos nossos poetas e prosadores. Isto é, até o presente, quem se aventurou escreveu bem […]”

O autor de Avante, Soldados: Para trás, ainda faz uma lista de autores que extraíram do futebol a matéria-prima de sua ficção: Edilberto Coutinho, com  os contos de Maracanã, adeus, Ewelson Soares Pinto, com o romance A crônica do valente Parintins, um conto do vascaíno Rubem Fonseca (“Abril, no Rio, em 1970”, do livro Feliz ano novo”), alguns poemas e algumas crônicas de Carlos Drummond de Andrade, “uma verdadeira ode a Ademir da Guia, enaltecendo seu estilo”, da lavra de João Cabral de Melo Neto, poemas e crônicas de Affonso Romano de Sant’Anna, feitos durante a Copa do Mundo de 1986, no calor da hora e, claro, as imortais crônicas provenientes da chuteiras de Nelson Rodrigues. Acrescentaríamos também  crônicas de Paulo Mendes Campo.

Há mais. É só garimpar. O autor desta resenha também já fez seu arremesso em direção à estante da bola, com O azar do goleiro, publicado há duas décadas. Agora me chega às mãos O goleiro Leleta e outras histórias fascinantes de futebol, do baiano  Cyro de Mattos, publicado pela Editora Saraiva, em 2009. Cyro tem muita habilidade com as letras e soube tratar muito bem a redonda, nos jogos do “Campinho do Fole”, do outro lado do Rio Cachoeira, em Itabuna, sua terra natal. Levado pelo pai, o menino Cyro frequentava, aos domingos, o Campo da Desportiva, de grama maltrata onde viu “o drible de Pururuca, o gol de Juca, a defesa de Asclepíades, a matada de Santinho, a catimba de Tombinha, o nó de Carrapeta, a investida fulminante de Fernando Riela e o craque Leo Briglia, que jogou no Fluminense do Rio de Janeiro e foi campeão da primeira Taça Brasil, pelo Bahia”.

Mas, deixemos de firulas e vamos entrar em campo com os jogadores de papel de Cyro de Mattos.

DA REVOLTA Á GLÓRIA NUM CAMPO DE FUTEBOL

Quem  jogou bola sabe muito bem como é a revolta de um bom jogador que amarga a reserva por decisão unilateral do dono do time ou (no caso dos babas de rua), do dono da bola. Esse é o tema de

O Bahia contra o Brasil, o primeiro conto do livro. Gordo e gago (misto de Ronaldo, em sua forma atual, com Ataliba, também do Corinthians para quem se lembra do jogador)  Badeco, “um droga de meia, esquerda, metido a craque, mas toda hora estava caindo em campo e se embaraçando com a bola”,  impunha sua vontade no Bahia. No time, só jogava quem ele queria e pronto! No primeiro jogo contra o Brasil, o Bahia levou uma lavagem vergonhosa. “Badeco nunca se conformou com a derrota sofrida pelo Bahia de forma humilhante para o Brasil da rua de cima”. Mesmo assim, deixa de fora das partidas, o melhor jogador do Bahia – o menino que relata a história na primeira pessoa – sob a alegação de que era pequeno em relação aos outros. Por Badeco, então, o baixinho e endiabrado Osni não teria chances de brilhar tanto no Vitória quanto no Bahia. O reserva de luxo extravasa seu descontentamento: “Não me conformava em não ser o ponta-direita do Bahia. Eu era um ponta-direita de dribles curtos, ligeiro nas investidas, chutava com os dois pés. Encarava qualquer marcador, passava por ele com facilidade, ia pra linha de fundo e lançava a bola certinha, como se fosse jogada com a mão para a cabeçada do atacante na pequena área. Quando eu batia escanteio, de vez em quando a bola fazia uma curva rasteira e ia como um raio pra dentro do gol. Por que Badeco não me dava uma chance de jogar no time pra que só assim eu pudesse mostrar as minhas qualidades de craque?”.

A chance para o garoto nada modesto (e que craque deve ser modesto, já que modéstia é virtude de cabeça-de-bagre?) veio com a revanche contra o Brasil. O Bahia perdia por 2 a 0, quando um zagueiro do Brasil deu um chutão na bola que caiu no rio e foi levada pela correnteza. Impasse em campo. O juiz esperou meia hora por outra bola e já ia encerrar a partida, quando o pequeno craque mantido na reserva ofereceu sua própria bola. Agora, sim, ele era o dono do jogo. A partida recomeçaria, coma condição de que ele entrasse em campo. Entrou e arrasou. Na primeira bola que pegou, driblou três adversários e mandou a pelota para o fundo das redes. Um minuto depois, “mal o Brasil tinha dado a saída ”, o garoto roubou a bola, driblou novamente três e, num repeteco do primeiro, fez o segundo gol, decretando o empate.

Exagero? Jogada factível para os excêntricos e imprevisíveis  deuses do futebol.  O desempate viria a seguir. Adivinhem pelos pés de quem? É próprio autor do gol que narra: “Colocaram o zagueiro Magarefe, um mulato musculoso e alto, pra colar em mim e não deixar que eu pegasse na bola outra vez. Se fosse preciso, era pra me empurrar com o ombro pra que eu caísse no barranco e fosse parar lá embaixo no rio. Coloquei a bola entre as pernas do besta e parti feito um corisco na direção do gol. A bola que chutei com raiva passou por baixo da barriga do goleiro Barbosa, aí não deu mesmo pra evitar que os torcedores do Bahia entrassem em campo, viessem me abraçar e me levar nos ombros pela rua da beira-rio”. Quem maldade de Cyro! Logo Barbosa e também uma bola que entra por baixo da barriga do goleiro, chutada não por Ghiggia, como na final Brasil 1×2 Uruguai, na final da Copa de 50, mas pelo Maradona grapiúna.

Todos aqueles que acompanham o futebol já viram goleiros diferenciados como o excêntrico  Higuita, o presepeiro Leão, o artilheiro Rogério Zeni e imprevisível Marcos, capaz de defesas sensacionais e frangos fenomenais. O personagem  de O goleiro Galalau, a segunda história do livro, se enquadra  nesta categoria de arqueiros que fogem aos padrões. Alto, magro e desengonçado,  acalentava o projeto de fazer uma defesa inesquecível: “vocês vão ver um dia, cedo ou tarde, isso vai acontecer”. Aconteceu. No final do campeonato e desta maneira: “Nelore tomou uma boa distância da bola, fez o sinal para o canto que ia bater o pênalti num gesto de deboche pro goleiro Galalau, como se naquela hora estivesse dizendo pra ele que futebol é pra homem, saí daí, vara de tirar mamão, pra essa não há salvação, essa bola você nunca vai pegar. E todos viram a bola ir como uma bala pelo alto, no lado esquerdo do goleiro, e até hoje, os meninos do bairro que assistiram ao lance inacreditável comentam já como gente idosa. Galalau pulou um pouco para o lado, esticou o braço direito e pegou com uma só mão a bola que veio num chute violento para romper as redes”.

O dia em que vi Garrincha jogar, a terceira história  é um fato real que encantou os olhos do adolescente Cyro de Mattos. No Campo da Desportiva, o Botafogo de Garrincha, Nilton Santos, Didi e Zagalo jogou um amistoso com a Seleção Amadora de Itabuna, para comemorar o aniversário de emancipação política do município. Seria mais um passeio da Estrela Solitária sobre mais um adversário, não fosse o aguaceiro que alagou o campo, em menos de quinze minutos. Resultado do jogo: Seleção de Itabuna 1×2 Botafogo. Dia de glória para os grapiúnas. Levar apenas dois gols e ainda fazer um no temido Botafogo.

O Goleiro Leleta, quarto e último conto, é uma história de superação, pródiga no futebol, em que jogadores gravemente lesionados, goleiros, zagueiros e atacantes execrados pela torcida conseguem dar a volta por cima e resgatar o status de ídolos. No dia em que o próprio pai está sendo velado dentro de casa, Leleta decidi jogar a partida decisiva e salva o seu time, ao pegar um pênalti, dando um salto rápido, como se feito de borracha, tocando a bola com a ponta dos dedos e mandando-a para fa.

Leve como uma bola que, num toque sutil do atacante, encobre o goleiro adiantado e emocionante como uma partida decidida nos últimos minutos da prorrogação O goleiro Leleta, embora direcionado  para um público mais jovem, é um livro indicado para todas as idades, principalmente para aqueles que apreciam uma boa partida de futebol e que sabem o que fazer com uma bola nos pés. Com ele, Cyro de Mattos fez a sua apoteose da bola.

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Comentários»

1. Iva Maria Oliveira Vianna - junho 4, 2015

MUITO BOM ESSE COMENTÁRIO FIQUEI SABENDO DO ESFORÇO dE JORGE AMADO PELO CACAU,JOSÉ LINS PELA CANA DE ACÚCAR E O CAFÉ? NA VERDADE O FUTEBOL É BEM DISPUTADO NO BRASIL A TERRA DO FUTEBOL,QUE CONTINUEMOS A EXPLORAR ESSAS CRONICAS, TODO TRABALHO LITERÁRARIO SOBRE O FUTEBOL PARABÉNS ELIÉSER CÈSAR.


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