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PARTIDO DA MÍDIA – Em seu novo livro, Emiliano José mostra como a mídia brasileira tomou o partido do neoliberalismo contra a Constituição. abril 16, 2011

Posted by eliesercesar in Resenhas.
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Emiliano José esgrime sua pena para fazer jornalismo de resistência.

Se há ainda algum leitor de jornal ingênuo ou estudante de jornalismo que acha a imprensa imparcial, isenta e apartidária – mitos que cristalizados pelo baronato da mídia – deve ler, sem demora, o mais recente livro do jornalista, deputado federal (PT-BA) e professor aposentado da Universidade Federal da Bahia, Emiliano José: Jornalismo de Campanha e a Constituição de 1988 (Edufba/Assembléia Legislativa da Bahia, 2010). Fruto de sua tese de Doutorado em Comunicação e Cultura Contemporânea pela Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia, o livro mostra, como tomando o partido do capital nacional e internacional, os grandes veículos da imprensa brasileira (concentrados nas mãos de um pequeno grupo de empresários) entraram em campanha política para desconstruir a Constituição-Cidadã, visando  reduzir a presença  do Estado na condução das decisões econômicas e pavimentar a hegemonia do neoliberalismo.

Neoliberalismo assim definido por Roberto Campos, o Bob Field dos interesses externos, um dos  maiores arautos da soberania do mercado no Brasil e fonte oracular da imprensa em campanha, segundo o próprio Emiliano José: “o casamento da democracia política com mercado econômico”. Bodas instáveis como se verá ao longo das crises periódicas que atingem o capital financeiro, filho bastardo do mesmo Estado que pretende diminuir e para o qual recorre em busca de socorro, como na mais recente bancarrota provocada pela chamada bolha imobiliária nos Estados Unidos quer acabou contaminando a economia mundial.

Impulsionando pelo denominado Consenso de Washington, a reunião do Instituto Internacional de Economia, realizada entre 14 e 16 de janeiro de 1993, na capital dos EUA, para estabelecer um amargo receituário econômico para a América Latina, o neoliberalismo já estava consolidado nos países desenvolvidos, desde os anos 80 do século passado, a partir dos governos de Margareth Thatcher, na Inglaterra, Ronald Reagan, nos EUA e Helmut Khol, na Alemanha. Portanto, era preciso impor aos países em desenvolvimento uma doutrina financeira que pregava a substituição do Estado do Bem-Estar pelo Estado mínimo e da responsabilidade social dos governos pelas leis   inflexíveis de um  mercado deificado pelo credo monetarista.

Para isso era preciso deflagrar uma forte campanha que fragilizasse e desacreditasse o Estado em todas as suas instâncias, de indutor da economia  a provedor dos excluídos. Soberano, o Senhor Mercado se encarregaria de tudo, o Estado seria uma instituição meramente regulatória e pronta para corrigir desvios, sempre no interesse das mesmas forças que o combatiam. Quem não sobrevivesse à competição (do desempregado ao pequeno empresário) era vítima incapaz da seleção natural da nova ordem econômica mundial. Tal campanha, ostensiva e sub-reptícia, como demonstra Emiliano José, foi levada a cabo pela grande imprensa.

Num autêntico jornalismo de resistência, Emiliano analisa “como a imprensa contribuiu para as modificações na constituição de 1988 e como participou da construção do ideário neoliberal”. E o faz tocando o dedo na ferida de um  jornalismo que se apresenta como imparcial, mas age como se seguisse o programa de um partido político, um novo PMB (Partido da Mídia Brasileira).

No livro, o jornalista e escritor aponta como, a fim de pautar a Constituição e de reformá-la nos interesses do capital, principalmente no Capítulo da Ordem Econômica, “a mídia começa a desenvolver, sob pressupostos anteriores, toda uma estratégia de defesa do neoliberalismo e, mais do que isso, o seu desempenho configura a existência de uma operação com natureza fortemente propagandística a favor de algumas idéias básicas, constituindo tanto uma agenda negativa quanto uma agenda positiva para a consecução do que poderia ser chamado de jornalismo de campanha”. Em síntese, essas idéias negativas constituíam-se em minar o Estado, reiterar a gravidade do déficit público, do inchaço do funcionalismo, da corrupção no serviço público (como se não existisse na iniciativa privada), dos altos salários de uma casta de servidores, sintomaticamente os marajás do discurso de campanha de Collor, pregar a reforma da Previdência e martelar na necessidade de privatizações para abrir a economia ao capital estrangeiro, conforme o mantra do mesmo Roberto Campos que, em entrevista a uma revista semanal, insistia que era preciso “privatizar, privatizar e privatizar”.

Foi o que Fernando Collor de Mello  iniciou e o outro Fernando, o Henrique Cardoso, para quem a oposição brasileira deve esquecer o povão,consolidou, mesmo privatizando estatais, como a Companhia Vale do Rio Doce, a  preço muito inferior ao seu valor de mercado e de suas reservas minerais. Aliás, para os privacionistas, o preço pouco importa, o fundamental é afastar o Estado da gestão econômica.  O povo, sobretudo as camadas mais carentes de políticas públicas, que se dane e sobreviva aos trancos e barrancos em seu ofício secular de sobrevivência.

Como um zapatista do jornalismo de resistência, Emiliano José esgrime sua pena para denunciar o partidarismo de uma mídia que só não é 100 % partidária porque ainda não teve coragem de disputar uma eleição, optando por apoiar explicitamente áulicos e candidatos que se identificam com o seu idear io político e por se esconder atrás da cortina de vidro de uma falsa isenção.

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Comentários»

1. Bomfim - abril 18, 2011

Emiliano é um desses políticos – são poucos – que a gente ainda confia e que sempre realiza ações que reafirmam a nossa confiança. Na condição de escritor já é um nome consagrado na literatura nacional, pelo menos deveria ser. A resenha, portanto, é pertinente, porque sobre um cidadão decente, que sempre honrou tanto a categoria dos jornalistas quanto a dos escritores. E um exemplo de militância, coerente e íntegro.

2. Breno - abril 18, 2011

Essa resenha ficou ótima.


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