jump to navigation

PRATELEIRAS VAZIAS – Supermercado da solidão, novela de Lima Trindade, oferece, no atacado, o vazio da existência. abril 21, 2011

Posted by eliesercesar in Resenhas.
trackback

Uma grande loja de varejo em que as pessoas – “fantasmas apagados, quase vivos, anêmicos” – despejam, no atacado, suas frustrações, suas angústias, suas vidas amargas e vazias. Assim o escritor Lima Trindade concebe uma metrópole brasileira, no caso Brasília, sua terra natal, na novela Supermercado da Solidão  (Brasília: LGE, Editora, 2005). Em estilo ágil, como um conto prolongado e capítulo curtos, Lima Trindade narra a vida  de pequenos funcionários e donas-de-casa esmagados pelo peso quase insuportável de uma existência que se repete como as novelas de televisão, sequiosos de ascensão social, mas condenados à uma espécie de solidão coletiva, uma melancolia de classe , justamente aquela espremida entre os despossuídos e os que ostentam uma riqueza da qual sente inveja.

No meio dessa horda de solitários da vida moderna, (o homem coletivo das grandes metrópoles que vê seus sonhos de consumo soçobrarem, dia após dia), uma demonstração de que sobreviver com integridade ainda é possível: Bernardo e Cléo. Ele um peixe fora d’água desse aquário de desilusões, a grande cidade. Ela, uma jovem  que decide recomeçar a vida embalada pelo sentimento de maternidade.

Fragilizado por uma doença renal e obrigado a se submeter a sessões de hemodiálise três dias na semana, Bernardo, o fio condutor da história, como um personagem romântico, é um herói estóico. Suporta a dor e o vazio da vida ao redor com uma determinação de mártir e a certeza de que logo se livrará de toas as atribulações, numa recusa, consciente, em lutar pela vida, em asseghurar seu lugar nas prateleiras vazias  de um supermercado da solidão.

Para fazer jus ao título, a  novela está cheia de situações de consumo, ou melhor de desejo de compras, já que a posse, no geral, fica apenas na intenção de posse:

– Veja só, Estrela, fui no açougue de manhã bem cedo, pra comprar uma alcatra pro almoço, e o menino que embala a carne me deu o folheto de propagandas do jornal de hoje.

– Não diga! É o que eu estou pensando?

– É.

– O microondas?

– O microondas.

– Em promoção?

– Em promoção.

– E o que mais ? Quis saber dona Estrela.

Nesse supermercado de vidas supérfluas:

As lojas testemunhavam verdadeira variedade de estilo. Seria essa a visão que tinham do cosmopolitismo?, perguntou-se. E ofereciam-se eletrodomésticos, roupas, calçados, brinquedos, livros, perfumes, máquinas fotográficas, quadros, malas, bolsas, incensos, flores, animais domésticos, viagens, computadores, cortinas, carros, escovas de dentes, óculos, colares, latas, cds, dvds, aparelhos de telefone celular, móveis, fé, diversão, alimentos, venenos, o sonhado e jamais esperado, toda a sorte de objetos e serviços, desde a pequena banca, até o megastore, a loja de departamentos.

Uma overdose de consumo, para deslumbrar os olhos e intoxicar a mente. Onde a vida, autêntica e sincera, longe de artificialismo para torná-la apenas um pouco  mais suportável, com a ilusão da compra e a brevidade da posse? Que vida sincera, se, como diz Lima Trindade, “o mundo desnorteara-se na ânsia de não-morrer, no excesso de vazios sem respostas, na angústia de palavras sem direção” e, “nessa briga virara um monstruoso supermercado”? Nas prateleiras desse supermercado de autômatos, “embaladas em sacos plásticos, nossas emoções; tristezas e alegrias amontoadas em doses calculadas”. Portanto, quem vai às compras? Olha que há promoções para todos os gostos, neste supermercado em que todos se igualam.

Na orelha da novela, o professor de literatura e poeta Sandro Ornellas define o livro de Lima Trindade com a precisão de  caixa registradora:

No supermercado da solidão do mundo contemporâneo, vende-se retalho de tudo para se montar uma colcha de nada.

Lima Trindade, pairando acima das prateleiras de seu supermercado.

A vida recatada e discreta de Bernardo entra numa onda de intromissões quando ele ganha uma fortuna resultante de uma ação trabalhista. A partir daí, nem ele, nem a família tem mais sossego. Todos querem se aproveitar do dinheiro do rapaz que desprezavam como um pária, um inválido e até, (há quem suspeitasse à boca pequena), um maricas. Porém, rico, o rapaz se transforma aos olhos da plebe:

Bernardo era agora respeitado. Ingressara num patamar de superioridade. E, se fossem parar para refletir, explicava-se agora a estranheza de seu comportamento no passado. Bernardo não era da mesma natureza deles. Estava claro. Nascera para ser rico. Não tropeçaria na vida. O que antes eles interpretavam como fraquezas, percebiam, hoje, serem virtudes inquestionáveis: recato, altivez e honra.

Todos almejam algo do novo rico, ajuda financeira ou vender algum produto, mas Bernardo, vítima de uma doença crônica, permanece imune aos prazeres fáceis, aliás, a qualquer tipo de prazer, pois parece se comprazer em ir se liquidificando-se, aos poucos, como uma bola de sabão que teve seu colorido fugaz.

É possível, que a doença renal crônica de Bernardo tenha sido uma alusão à Aids, enfermidade que se, de fato, o acometesse,  daria aumentaria a musculatura dramática do personagem. Mas esta é uma opção do autor que em nada afeta a composição do personagem. O poema Epigrama Nº 7, de Cecília Meirelles, que encerra o sofrimento de Bernardo deveria figurar como epígrafe do último capítulo. Do que jeito que está fica meio solto. Talvez, precisasse de outro personagem (Cléo?) que o associasse a Bernardo, sobretudo no último verso – “A minha raça quer passar”, fazendo assim a ponte necessária entre o poema e a história.

Prateleira de vidas miúdas, o supermercado simbólico construído por Lima Trindade tem filas enormes, formadas por todos os solitários do mundo.

Anúncios

Comentários»

1. Helena Martins Rodrigues Helentry - julho 19, 2013

Li atenciosamente seu texto e amei conhecer um pouco sobre o livro que pretendo adquirir. Obrigada!


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: