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Patriota da humanidade – Mark Twain criticou o imperialismo dos Estados Unidos maio 6, 2011

Posted by eliesercesar in Resenhas.
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Críticos contumazes da política expansinista dos Estados Unidos, principalmente após a invasão do Iraque, ordenada por George W. Bush e sustentada pelos seus “petrocratas”, o cineasta Michael Moore e o sócio-linguista Naoum Chomsky têm um predecessor ilustre: o escritor Mark Twain, pseudônimo de Samuel Langhorne Clemens (18835-1910). Mais associado a autor de livros infanto-juvenis e de clássicos da moderna literatura norte-america, como As Aventuras de Tom Sawyer e As Aventuras de Huckleberry Finn, Mark Twain foi um corajoso opositor das intervenções dos EUA e de impérios europeus em países do que hoje se convencionou chamar de “Terceiro Mundo”, entre o final do Século XIX e o começo do Século XX.

Como membro ativo da Liga Antiimperialista Norte-Americana, fundada em 1898, em Boston, o escritor condenou a Guerra Filipino-Americana1, a intervenção na China, na denominada “Revolução dos Boxers”2, A Guerra dos Bôeres3 e também a anexação do Havaí, (antigas Ilhas Sandwich) aos EUA, em 1900. Com o mesmo ardor de quem representou a consciência crítica norte-americana naquele período finessucular, Mark Twain se opôs ainda à criação do Estado Livre do Congo4, defendeu a libertação da Rússia do jugo czarista , o direito do voto às mulheres norte-americanas, os negros, os judeus e os pele-vermelhas. O autor de O príncipe e o plebeu aproveitou sua enorme reputação internacional para condenar, através da imprensa e em conferências, a opressão e o imperialismo. Toda esta faceta desconhecida por muitos admiradores do criador de Tom Sawyer,é descortinada no livro Patriotas e Traidores — Antiimperialismo, política e crítica social, Mark Twain, lançado pela Editora Fundação Perseu Abramo, na sua coleção “Clássicos do Pensamento Radical”. Com organização, introdução e texto de abertura de Maria Sílvia Betti, professora de literatura norte-americana da Univseridade de São Paulo, a coletãnea de ensaios e artigos de Mark Twain, que inclui também o conto (na verdade, uma pequena novela) O homem que corrompeu Hadleyburg, uma das mais impressionantes histórias do escritor, o livro ganha indiscutível atualidade sob o prisma da atual invasão do Iraque.Em outubro de 1900, numa entrevista em que repudia a intervenção nas Filipinas, o escritor que representou para muitas gerações de jovens o que Monteiro Lobato (aliás, seu primeiro tradutor no Brasil) significou para muitos brasileiros, parece condenar a ratoeira em que os EUA se meteram no Golfo Pérsico e da qual não sabe como sair: “Tentei muito e, ainda assim, não consigo entender como fomos nos envolver naquela confusão. Talvez fosse impossível não entrar — talvez fosse inveitável que tivéssemos de lutar contra os nativos daquelas ilhas — mas não consigo entender,e nunca consegui chegar à origem de nosso antagonismo contra os nativos. Na minha opinião, deveríamos agir como seus protetores — jamais oprimi-los sob o nosso tacão. Cabia a nós livrá-los da tirania espanhola, permitir que organizassem seu próprio governo e esperar que ele estivesse pronto para ser avaliado. Não deveria ser um governo ajustado às nossas idéias, mas um governo que representasse os sentimentos da maioria dos filipinos, um governo de acordo com as idéias filipinas. Esta teria sido uma missão digna dos Estados Unidos. Mas agora…Ora, nos enfiamos numsa confusão, num lamaçal de onde, a cada passo, torna-se imensamente mais difícil sair. Gostaria muito de nos ver saindo de lá e de tudo o que aquilo significa para nós como nação”.

Flagrante o paralelo Filipina-Iraque, para os olhos atuais . Não foi com o chulo pretexto de livrar o Iraque da tirania de Saddam Hussein, de aplainar o caminho para a democracia e estabelecer eleições livres, que os EUA invadiram aquele país do Golfo Pérsico, com o apoio cortesão da Inglaterra e mais discreto de outros países? Ali, os bravos marines não se atolaram numa lamaçal (falam-se em 100 mil mortos civis, a parte mais fragilizada de qualquer guerra), num mar de fúria e sangue que parece engolfá-los cada vez mais na bárbarie e na insensatez ?

BANDEIRA DESONRADA — Em uma de suas invectivas contra o patriotismo — “a alma e a substãncia do que geralmente se chama patriotismo é a covardia moral, e sempre foi” — Mark Twain parece estar falando de George W.Bush e seus “petrocratas” e do desprezo que este grupo poderoso, ao manipular uma mídia subserviente, manifesta pela chamada opinião pública: “Dizemos que existe opinião pública nos Estados Unidos, mas não existe. Nossos pensamentos são todos de segunda mão. Quantas pessoas hoje são capazes de decidir se é melhor para o país comércio livre ou tarifas alfandegárias? As únicas opiniões que a maioria de nós tem sobre esse tema são opiniões tomadas de segunda mãos de alguns homens que querem influenciar a nossa forma de pensar, e eles tendem a pensar numa direção que atenda melhor a seus interesses particulares ou a dos partidos que representam. Então, não temos cidadania, e nosso chamado patriotismo torna-se um patriotismo usado em benefício dos partidos políticos e transformado em slogan partidário. Não tem sido em nome desses interesses de poucos e do conservadorismo político e religioso travestido de opinião pública, que cenetenas de jovens norte-americanos têm matado e morrido no Iraque ?

Mark Twain mostra todo a sua corrosiva indignação quando o assunto é mesmo o patriotismo. “Cidadania? Não temos cidadania! Em lugar dela, ensinamos o patriotismo, de que Samuel Johnson nos dizia, já há 140 ou 150 anos, ser o último refúgio de um canalha”, diferencia o autor de Um inque na corte do Rei Arthur.. Para ele, ao invadir as Filipinas, com propostos exapansionistas, os EUA desonraram a bandeira nacional, “com uma mancha que jamais será apagada”. Diz Mark Twain, em entrevista em 20 dE novembro de 1907: “Ainda hoje, nas escolas públicas, ensinamos nossas crianças a saudar a bandeira, não se deve mais honrá-la, ainda que seja a nossa bandeira. A verdadeira cidadania consiete em proteger a bandeira da desonra; tornar o emblema de uma nação conhecido de todas as nações, igualmente verdadeiro, honesto e honrado. E deveríamos esquercer para sempre aquela frase: ‘Minha Pátria, certa ou errada, minha Pátria”.

A forte imagem da bandeira desonrada pespegada por Mark Twain à consciência coletiva norte-americana de seu tempo, levou um desafeto do escritor a afirmar que se ele fosse levado a sério pelas suas declarações, certamente já teria sido linchado. Mark Twain, que também combateu o linchamento, respondeu que o seu crítico nada tinha contra ele, exceto o fato dele se opor à guerra política e não ter ido lutar nas Filipinas. E ponderou: “Mas, isso não prova nada. Não quer dizer que um homem seja um traidor. Onde está a prova? Somos 75 milhões aprimorando nosso patriotismo. Ele próprio fez a mesma coisa. Seria completamente diferente se a vida do país estivesse em perigo, sua existência em jogo; então — e esse é um tipo de patritismo — seríamos todos voluntários ao lado da bandeira, e ninguém iria pensar se a nação estava certa ou errada; mas quando não se trata de qualquer ameaça à nação, mas apenas de uma guerrinha distante, então pode se dar que a nação se divida em torno da questão política, metade patriotas, metade traidores, e ninguém seria capaz de distinguir entre eles”.

Mas o velho Samuel Langhorne Clemens, timoneiro das letras do rio Mississipi, nem sempre foi um antiimperialista. Sua aversão à política externa dos EUA representou uma verdadeira conversão de quem acreditava nas intenções altruístas da águia americana e nas intenções humanitários dos falcões da guerra. Ao retornar da Europa, em 15 de novembro de 1900, revoltado com o Tratado de Paris, que pôs fim à Guerra Hispano-americana, o escritor, além de denunciar a existência de campos de concentração nas Filipinas (como se supeitam haver hoje em Guatánamo, em Cuba e no Iraque) pronunciou o seguinte libelo antiimperialista:

“Quando parti destas terras, em Vancouver, era um ardente imperialista. Queria ver a águia americana sair voando sobre o Pacífico. Ela me parecia cansada e domesticada, satisfeita apenas com as Rochosas. Por que não abrir as asas sobre as Filipinas, eu me perguntava. E me dizia que seria muito bom. Eu dizia com os meus botões, aqui está um povo que sofre há 300 anos. Temos capacidade de torná-lo livres como nós, dar-lhes um governo e um país que sejam só seus, colocar uma miniatura da Constituição americana a flutuar no Pacífico, funfar uma república absolutamente nova que há de tomar seu lugar entre as nações livres do mundo. Pareceu-me grandiosa a tarefa que nos havíamos imposto.

Mas repensei muito desde então, li com todo o cuidado o Tratado de Paris, e vi que nunca tivemos a intenção de libertar, mas de subjugar aquele povo. Fomos até lá para conquistar, não para salvar.

Também comprometemos a força desta nação em manter e proteger o sistema abominável estabelecido pela Igreja Católica nas Filipinas.

Parece-me que nosso prazer e dever seria tornar livresd aquelas pessoas e deixar que elas próprias resolvessem sozinhas as suas questões internas. E é por isso que sou antiimperialista”.

E, para finalizar o discurso inflamado de Mark Twain, um patriota da humanidade, a frase que soa como um antídoto para rapacidade expansionista dos EUA, impulsionada pela política do “big stick”, assinada em 1904 pelo presidente Roosevelt, para oficializar a possibilidade de intervenção externa dos Estados Unidos, sempre que os norte-americanos julgassem necessária: “Eu me recuso a aceitar que águia crave suas garras em outras terras” .

FILHO DO COMETA

Cometa de Halley marcou o destino do autor de Tom Sawyer.

Samuel Langhorne Clemens nasceu em 30 de novembro de 1835, na pequena cidade de Flórida, no Missouri (EUA) sob a bênção do Cometa de Halley. Naquele dia, o astro cortava os céus com sua cauda luminosa de dragão sideral. Foi o bastante para que, mais tarde, o jovem escritor previsse que morreria 75 anos depois do seu nascimento, coma o retorno do mesmo cometa. Acertou em cheio. Seu distante padrinho do espaço veio buscá-lo no começo de 1910, três quartos de séculos depois. Talvez, resida nesta estranha coincidência, o intenso brilho que marcaria a trajetória de Mark Twain entre os fogos-fátuos presos à terra.

Aos 12 anos, com a morte do pai é forçado a trabalhar, primeiro como aprendiz de impressor, depois como tipógrafo e, em seguida, como jornalista. Aos 18 anos sua vida sofre uma guinada radical, quando o jovem Samuel, ávido por viagens, desce o Mississipi até Nova Orleans num dos famosos barcos a vapor da época, mais tarde imortalizado em seus livros. Já escrevendo artigos para jornais e contos, é na instável arte da navegação que vai encontrar o pseudônimo que o consagraria: Mark Twain, grito dos navegadores para indicar a profundidsade de 3,65m, aviso de que a barra já havia sido transporta e que já se podia navegar a todo vapor. E foi assim que o velho Samuel navegou durante sua longa jornada pelo rio turbulento da vida: a todo vapor. E com todos, como demonstram seus escritos humanistas.

Dentre seus principais livros figuram A célebre rão do condado de Cavaleras e outras histórias (1866), As aventuras de Tom Sawyer (1876), O príncipe e o plebeu (1881), A vida no Mississipi (1883), As aventuras de Huckleberry Finn (1885) e Um ianque na corte do rei Artur (1889).

1 Guerra Hispano-Amricana, iniciada em 1898, sob o pretexto de libertar Cuba, Guam e Porto Rico do domínio espanhol, terminou com o Tratado de Paris, no qual a Espanha conrcordava com a inpedendência de Cuba, cedia o controle de Guam e Porto Rico e vendia as Ilhas Filipinas aos Eua por US$ 20 milhões.
2 Combate à sociedade secreta I-ho-chuan (Punhos Virtuosos e Harmonisos), fundada, em 1898, por camponeses do norte da Chiana, peritos em artes marciais, para destituir a dinastia Ch’ing, no poder há 250 anos e expulsar os estrangeiros do país. Para defender os interesse da sgrandea potências no país, um exército internacional, formado por norte-americanos, britânicos, francesses, russos, italianos e japoneses inavde a China e, dois anos, depois sufoca a sublevação.
3 Guerra dos Bôeres (1899-1902), iniciativa do Alto Comissariado da Colônia do Cabo, na África do Sul, para controlar as minas de ouro das Repúblicas de Transvaal e do Estado Livre de Orange, no bôer holandês, que asseguraria aos britãnicos do domínio de todo o continente.
4 Em 1884, com o apoio internacional, o rei Leopoldo II, da Bélgica, cria o estado Livre do Congo, com o argumento de que era necessário acabar com a escravidão dos nativos, protegendo seus direitos e garantindo o livre comércio. O que se viu, no entanto, foi um dos maiores genocídios da história. Désposta sanguinário, travestido de filantropo, Leopoldo II, reduziu em 15 milhões a população do Congo, com torturas, mutilações, assassinatos e trabalho escravo para aumentara s exportações de marfim, borracha, óleo vegetal e outros produtos nativos.
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