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MEU PRIMO maio 11, 2011

Posted by eliesercesar in Contos.
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Lá em casa todo mundo sempre tratou bem o meu primo, apesar de suas esquisitices. Passava o dia jogando sinuca, bebendo demais e falando da vida dos outros, mais ainda das mulheres casadas. Por causa da língua solta recebeu uma facada, numa briga na feira. Meu primo se curou, mas ficou uma cicatriz bem feia na barriga. A tentativa de morte não segurou sua língua.

Era um caso perdido, pensavam muitos na cidade, dando de ombros, como quem não liga para a travessura de um menino. O meu primo era isso mesmo: um menino crescido no corpo de um homem abestalhado. Acho que era até donzelo. Não que fosse feio. Tinha até boa aparência. Mulato forte, de olhos verdes e cabelos lisos, não teria trabalho para arranjar mulheres, se não fosse visto, por todos, como um bestão. Um tolo temido, desde que tentou agarrar, a pulso, a filha do dono da farmácia, moça namoradeira que os outros rapazes pegavam facilmente, mas, para meu primo, inacessível. Foi uma  zoada danada. Quiseram até prender o tarado, como passaram a chamar meu primo, levar para a capital, condenar à prisão. Mas meu pai conhecia todo mundo na cidade. O sobrinho tinha um parafuso a menos… Todos não  sabiam?  Deixassem que ele o vigiaria de perto. Com o tempo tudo se acomodou e meu primo nunca mais atacou  mulher alguma. Gastava o dia jogando sinuca, bebendo e falando da vida dos outros. Melhor do que sair agarrando as moças na rua. A cidade prosseguia com a calma de um lugar pequeno e manso. Até que, no bar, meu primo jurou que na próxima sexta-feira (faltavam apenas três dias), eu poderia me esconder onde quisesse,  que ele me acharia de qualquer jeito. Podia me enfiar no centro da Terra que ele, toupeira teimosa, iria me buscar.

Todos em casa ficaram surpresos. Porque logo eu? Eu que me dava bem com o meu primo, embora fosse bem mais novo do que  ele? Não o ajudava nas caçadas, colocando, no embornal, as nambus e rolinhas fogo-pagô que ele matava, nos raros dias em que largava a vadiagem no bar? Quando eu era um pouco menor, não me trazia presentes: bodoques, ioiôs, time de botões e até uma bola couraça? Também eu não retribuía, prestando toda a sorte de pequenos favores; comprar cigarros, dar recados, levar a marmita que minha mãe preparava para ele, vivendo, sozinho, na casa que foi de meu tio? Então porque esta birra comigo? Ninguém entendeu nada. Meu pai deu de ombros, mais uma esquisitice do meu primo. Para chamar a atenção, emendou minha mãe. Em casa, resolvemos não nos preocupar mais com a brincadeira de meu primo. Até que a aposta foi pegando. Primeiro, na gozação. Tá bom,  aposto dez pratas que você não encontra ninguém, topava um. Tá aqui, quinze contos, como você vai bater com os burros n’água, provocava outro. Minha porca pelas suas botas, que você não acha nem uma mosca, desafiava mais um. Aquilo ia tomando foro de bolsa de aposta, feição de um bolão, jeito de loteria descabida. As apostas cresciam e meu primo se inchava, metido à besta: acho, acho, sim; acho esse peste onde ele se meter, mesmo debaixo das saias de tia. Na quinta-feira, toda a cidade só pensava numa coisa: meu primo me acharia ou não? Mas como deixar de me achar, seu eu não tencionava me esconder? E me esconder de quê? Da doidice de meu  primo? Isso mesmo, aquele é maluco, desde pequeno, disse mãe. Melhor eu me esconder no sítio de minha madrinha; para evitar o pior, com maluco não se brinca. E toda aquela gente atiçando a maluquice de meu primo. Estariam todos endoidecendo na cidade? Que coisa mais sem cabimento… Minha mãe era assim mesmo, precavida. Besteira. Não vai acontecer nada, descartava meu pai, fumando, tranqüilo, na rede da varanda.

Aconteceu.

Por insistência de minha mãe, fui para casa de minha madrinha, a duas léguas de casa. Trotava no jumento, quando meu primo apareceu na estrada. Parei o animal. Oi, primo! A resposta foi um solavanco que me derrubou do jumento. Meu primo me amarrou com uma corda. Para que eu não gritasse, amordaçou-me com um lenço. Não satisfeito, tapou-me os olhos com um pano fedorento. Meu primo montou no jumento e me levou amarrado, como um caçador de recompensa de filme de caubói carregando seu prisioneiro. Foi assim que chegamos à cidade.

A notícia logo se espalhou. Como havia prometido, meu primo me encontrara naquela sexta-feira. Não demorou e muita gente se juntou na praça defronte de uma mangueira. Agora, o corretivo, avisou meu primo. Em seguida rasgou minha camisa, amarrou-me na árvore, de costas para o povo, tirou um chicote e começou a me açoitar. O povo dava risadas, até os meninos riam como no circo;  todos se contorciam de rir, indiferentes aos lanhos que o couro cru fazia em minhas costas. Tudo parecia uma brincadeira engraçada, mas não para mim, ardendo em chagas. O suplício não durou mais porque, avisado por um bom vizinho, meu pai chegou. Espingarda de caça em punho, ordenou que me soltasse. Meu primo ainda me deu uma chibatada. Solta o rapaz, repetiu meu pai. Indeciso, meu primo olhou para a pequena multidão, como quem pergunta o que fazer, sorriu, retirou o facão da bainha, pendurada na cintura e avançou para meu pai, que recuou um passo. Foi só um tiro; certeiro.

(Do livro A garota do outdoor)


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