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TESOURA DE OURO maio 29, 2011

Posted by eliesercesar in Contos.
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O autor descobriu, no bairro do Alto das Pombas em Salvador, a barbearia da vida real.

Também sou de profissão barbeiro. Ainda menino, aprendi o ofício com meu pai, Quintino Arembepe dos Santos, Tino Arembepe, por quase meio século o maior especialista do “Tesoura de Ouro”. Depois de muitos anos de cabelos, barbas, bigodes, costeletas e cavanhaques bem-cortados e cuidadosamente aparados, meu pai comprou essa barbearia que agora me pertence. Respeitado por fregueses do povo e autoridades, Tino Arembepe era mestre-de-obras, arquiteto, engenheiro, escultor e ourives   na arte de embelezar as pessoas pelo trato da barba e dos cabelos. Não embelezava todo mundo, é verdade. Muitos clientes saiam do “Tesoura de Ouro” com a aparência pior do que ao chegar, apesar do serviço caprichado de meu pai; mas aí, a culpa era da Providência, que distribui pelo mundo feições desiguais. Não adianta: se o sujeito é muito feio, corte de cabelo nenhum dá jeito; alguns até ajudam a realçar a feiúra, pelo contraste entre o penteado bonitinho e o rosto desajeitado. Digo por experiência de ofício.

Meu pai me ensinou a manusear a máquina zero (ah, pelei muitos cocos ….) e outras mais modernas. Hoje, a máquina esta aposentada; é tudo na tesoura, moderninho. Homem agora não quer os cabelos muito curtos. Muitos preferem uns cortes de frescos, desses que a gente vê na televisão: os cabelos partidos ao meio, penteados para os lados, cheios no topo da cabeça e rentes na base do pescoço. O que posso fazer, se o freguês é quem manda? É corte de fresco? — penso com minha tesoura então lá vai: tec, tec, tec, tec, tec, tec, e eu podando a juba do pirobo. Gosto do meu trabalho: amolar a tesoura e a navalha, friccionar o pincel no potinho com o creme de barbear, cobrir a queixada do cliente com a espuma, retirá-la com a lâmina, como um marceneiro ao polir a superfície de uma madeira até ela ficar lisinha e (barba já feita), queimar o local com loção; cortar e fazer o pé do cabelo e, por último, tascar o talco no cangote do freguês. Outro dia discuti com um rapaz que não queria me deixar colocar o talco após o corte. Faço questão, é a marca registrada do barbeiro, é a nossa etiqueta, insisti. O fedelho quis chiar, mas terminou concordando. Já cortei todo tipo de cabelo: carapinha, blequepáuer, lisos, longos e ralos. Não tenho preferência por nenhum deles; qualquer um cai na tesoura (tec, tec, tec, tec, tec, tec); afinal, se cabelo fosse mesmo bom, a terra comia. Havia um advogado, Simão Rubens Gonçalo que, apesar de careca, era um dos meus clientes mais assíduos para fazer o cabelo. Pois não se deu que mesmo calvo de nascença, esse Simão Rubens tinha a mania de colocar uma peruca na cabeça lisa e, toda semana, me pedia para lhe aparar os cabelos. Vinha sempre com uma peruca diferente. Devia ter uma coleção delas; excentricidade de rico, pois o tal Simão Rubens tinha muito dinheiro. Na primeira vez em que sentou na minha cadeira de barbeiro, pensei que estivesse de gozação. Quem já viu aparar uma peruca e ainda mais numa barbearia? O advogado instalou-se na cadeira, olhou atentamente as folhinhas de mulher nua, abriu um jornal, bocejou e disse: “tenha a bondade de aparar-me essa incomodatícia cabeleira”.

Engasguei. Incomodatícia, pode até ser (pensei com minha tesoura), cabeleira, jamais. Tratava-se apenas de uma peruca vermelha que lhe caia tão bem quanto uns óculos de sol num rinoceronte. Cortei-lhe mesmo assim os falsos cabelos, com muita cautela para a peruca não cair ao impacto de uma escovada mais forte. “Tem um bonito cabelo, senhor”, elogiei, após o serviço. Simão Rubens sorriu, deu-me uma boa gorjeta, ajeitou, com pequenas apalpadelas, sua cabeleira ao espelho e saiu satisfeito. Voltou toda semana à barbearia, durante cinco anos e meio, até a sua morte. Morreu envenenado por um tônico capilar que comprara no Marrocos e com a cabeça  não mais pelada e sim coberta de pústulas enegrecidas, derivadas da solução mágica que não lhe dera a cobiçada cabeleira, mas a morte prematura e humilhante. Os inimigos de Simão Rubens zombaram do coitado: morrer daquele jeito, com o coco em perebas, diziam, impiedosos. O vaidoso advogado foi enterrado com uma peruca importada de Paris, que pertencera a um nobre da corte de Luís XVI, o guilhotinado, como noticiou um jornal escandaloso. Pobre Simão Rubens. Era um bom cliente; oxalá tenha conseguido no outro mundo a bela cabeleira que tanto desejou nesse.

Como na barbearia da ficção, o tratamento na Tesoura de Ouro também é caprichado: tec, tec, tec...

O maior orgulho de meu pai foi ter cortado os cabelos do presidente João Goulart, pouco antes de sua excelência fugir do país, com medo dos milicos. Por insistência do senador Fenelon Filho, de quem sempre cortava os cabelos e fazia a barba na Bahia, Tino Arembepe fora a Brasília, acompanhar, no tribunal, o julgamento de uma ação trabalhista contra o “Tesoura de Ouro”. A viagem, que o fez cagar-se no avião (conto esse detalhe porque essa é uma historia verídica e, quando se fala a verdade, não se deve omitir nada), foi paga pelo senador, em cujo apartamento meu pai ficou hospedado. Ao chegar ao Distrito Federal, Fenelon Filho (que Deus o conserve na santa paz), soube que o barbeiro oficial do presidente da República quebrara a perna, ao brigar com a mulher que o corneava, justamente no dia do corte de cabelo presidencial. Por privar da intimidade de João Goulart, o senador acabou levando meu pai para tão honrosa tarefa. O presidente não tinha lá muitos cabelos, mas mesmo assim, aquele corte foi a maior glória profissional de Tino Arembepe. Depois do serviço, ele até pensou em pendurar a tesoura. Estava realizado. Voltou de Brasília com a indenização ganha, e consagrado por várias reportagens em jornais. O “Diário de Noticias” da época estampou: “O Tesoura de Ouro corta os cabelos do Presidente Goulart”, confundindo a razão social do salão em que meu pai trabalhara com o nome do barbeiro. “A Tarde” foi mais longe: publicou uma fotografia de meu pai, sorridente, aparando os cabelos de sua excelência, envolta num avental de barbeiro como um freguês qualquer. “Foi o melhor cliente que já tive, elogiou Tino Arembepe”, complementou o jornal. Guardo a sete chaves os recortes dos jornais da época. Com o dinheiro da indenização, meu pai abriu sua própria barbearia. Para ela vieram muitos clientes do “Tesoura de Ouro”, que só a Tino Arembepe confiavam suas preciosas cabeças e queixadas. Trabalhamos quinze anos juntos, até meu pai morrer. Morreu de câncer no estômago, repetindo em sua agonia, que se fosse para o céu apararia de bom grado, as madeixas luminosas dos anjos, ou, em caso contrário, se Deus o castigasse com o ácido do inferno, empunharia sua tesoura para cortar as crespas asas do demônio. Enterrei-o com a sua inseparável tesoura. Fregueses antigos e novos foram ao sepultamento . Depois da morte de meu pai, mudei o nome do estabelecimento. De “Barbearia Pai e Filho”, o ponto passou a se chamar “Barbearia Beveli Rio”, nome americano, muito apropriado para esses tempos modernos e de muita estrangeirice. Deu certo. Depois de “Béveli Rio”, a clientela até aumentou. Qualquer dia desses coloco um menino para me ajudar (meus filhos não querem saber de tesoura, desejam ser doutores, o mais velho já  está até na faculdade). Ensino o ofício ao garoto e lhe pago qualquer mixaria. Também tenho fregueses importantes: médicos, vereadores, deputados, jogadores de futebol, desembargadores, jornalistas. Uma vez cortei os cabelos de Francisco Cuoco. Ele estava de ferias em Salvador e veio à minha barbearia. Sentou na cadeira, com afetação de galã, e pediu que lhe aparasse os cabelos, já ultrapassando os ombros. Não precisava mais deles compridos; acabara de filmar a novela em que necessitava de uma vasta cabeleira. Pode deixar, Seu Francisco. Sabe, minha patroa assiste todos os dias a sua novela. Peguei a tesoura, borrifei com água os cabelos do ator e fui cortando: tec, tec, tec, tec, tec, tec. Ele não deixou-me fazer o pé do cabelo. Tudo bem, o senhor é quem manda. Troquei a tesoura grande por uma menor e — tic, tic, tic, tic, tic, tic — aparei os fios mais pontudos para deixar a cabeleira certinha. Depois pus o talco no cangote do artista. Pronto, Cristiano; quer dizer, Seu Francisco; é que eu também assisto, de vez em quando, “Selva de Pedra”. Pedi um autógrafo ao ator. É para Alzira, minha patroa, ela gosta muito do senhor e do Tarcísio Meira também, só não  aprecia  Tony Ramos, acha enjoado. Cuoco rabiscou sua assinatura num lenço de papel, pagou o corte e foi embora sem agradecer, nem dizer “até logo”. Gente metida, essa de televisão, pensei com minha tesoura. Gosto de tomar umas pingas, mas somente nos dias de folga. Barbeiro que se preza, não deve andar por aí bebendo, a torto e a direito, à vista ou fiado, a fim de não correr o risco de tremer as mãos ao usar a navalha. Graças a Deus, em muitos anos de ofício, nunca cortei ninguém; somente uns beliscãozinhos com a tesoura, num momento de distração (alguém me chamando, uma mosca azucrinando o ouvido…). Certa vez quase dou uma navalhada num sujeito. Foi num bar. Tinha ido beber num dia de descanso. O homem estava bêbado e disse que todo barbeiro é viado, pois passa o tempo todo alisando a cara dos clientes. Respondi que aquele procedimento era necessário para deixar a barba bem escanhoada e a cabeleira apilada. “Bicha! Todo barbeiro é bicha”, berrou o ébrio. Muita gente segurava o riso no bar. Pai de família, cumpridor dos meus deveres conjugais e extraconjugais, não podia engolir o desaforo. Afinal, era barbeiro;  não cabeleireiro de madame. Puxei a navalha do bolso avancei disposto a retalhar o desaforado. Quatro mãos me seguraram. O borracho foi empurrado para fora do bar. Tropeçou, se aprumou, cambaleou e ainda presepou: “alisa homem, hic”. Fiquei vermelho de raiva. Nunca mais o vi. Foi a sorte dele. Chamar de viados todos os representantes de uma profissão honrada, enobrecida pela tesoura de Tino Arembepe e de tantos outros barbeiros…Tomara que tenha morrido de cachaça. Agora eu estou aqui, nesse calor infernal, nesse tédio de quatro da tarde. Dia fraco. Só um bigode para aparar e ainda por cima ralo. Alzira querendo televisão nova; os meninos, dinheiro para viajar de férias escolares. Eu não quero tirar a reserva da caderneta de poupança, o investimento é bom e o governo garante. Oba! Aí vem um cliente; vasta cabeleira. Pego maquinalmente a tesoura. Se for para tosar, é só dar as ordens, penso avançando em direção ao freguês, tesoura engatilhada, saboreando de antemão o corte: tec, tec, tec, tec, tec, tec…

(Este conto foi publicado no livro A garota do outdoor e na Antologia Panorâmica do Conto Baiano – Século XX, organizada por Gerana Damulakis).

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