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FAMÍLIA DE PASCUAL DUARTE – TRAGÉDIA GREGA NOS CAMPOS DA ESPANHA. junho 16, 2011

Posted by eliesercesar in Resenhas.
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Camilo José Cela (1916-2002) escreveu também os romances A colméia e Mazurca para dois mortos.

O mundo fechado da tragédia grega desaba nos ombros de um pobre camponês espanhol, da região de La Coruña, no romance A família de Pascual Duarte, de Camilo José Cela, Prêmio Nobel de Literatura de 1989. Surgido no mesmo ano de O Estrangeiro (1942), do francês Albert Camus, o romance de Cela provoca a mesma sensação de incômodo e espanto da história de Mersault que, como Pascual Duarte, também comete o assassinato. De início pessoa de boa índole, mas levada a rompantes e atos intempestivos, Pascual Duarte se assemelha a um herói moderno dos trágicos gregos – Édipo, Antígona ou Prometeu – manietado por um destino imutável e inexorável.

 Ele tem a consciência dorida de seu caminho irremediável rumo à perdição: “Quem sabe se não seria Deus que castigava pelo muito que havia pecado e pelo muito que ainda haveria de pecar.! Quem sabe se não estava escrito na divina memória que a desgraça seria meu único caminho., a única senda pela qual meus tristes dias haveria de transcorrer”, remói-se o personagem. E os dias de Pascual Duarte são mesmos tristes. Ele vê a irmã se prostituir, a mulher e filho bem amado morrerem, o irmãozinho demente ter as orelhas comidas pelos porcos e, pouco depois, morrer afogado numa talha de azeite.

 Depois mata dois homens e, num desfecho digno de tragédia grega, assassina a própria mãe, uma megera indigna da menor piedade. Não é pouca coisa. Porém, Pascual Duarte parece conformado à fatalidade:

 De nada nos vale apertar o passo quando nos vemos surpreendido pela tormenta no meio da lhanura. Ficamos molhados da mesma forma e nos cansamos muito mais. Os relâmpagos nos assustam, o ruído dos trovões nos perturba e nosso sangue, como que incomodado, nos golpeia as têmporas e a garganta.

 

Pascual Duarte também sabe quanto  pesa um morto assassinado:

 Mata-se sem pensar, isso bem provado o tenho; às vezes, sem querer. Odeia-se, odeia-se intensamente, ferozmente, e abre-se a navalha, e com ela bem aberta chega-se, descalço, à cama onde dorme o inimigo. É de noite, mas pela janela entra o clarão da lua; enxerga-se bem. Sobre a cama está deitado o morto. A gente o olha, escuta sua respiração; não se move, está quieto como se nada fosse acontecer […]

 A cena lembra o início de A condição humana, romance de André Maulraux, em que um militante político vacila um pouco, antes de matar o inimigo que dorme em santa paz. Pascual Duarte atribui seu destino trágico à má estrela que o ilumine num cenário de penumbras:

 

Dá pena de pensar que nas poucas vezes nesta vida em que ocorreu-me não comportar-me mal, essa fatalidade, essa má estrela que, como á disse antes, parece comprazer-se em acompanhar-me, torceu e dispôs as coisas de tal forma que a bondade acabou por não servir à minha alma em coisíssima  nenhuma […]

 Tanto sofrimento o fazia achar o cemitério onde enterra o filho parecer um sol. Porém, na vida de Pascual Duarte tudo era noite escura. Uma noite escura e longa que atormenta as almas perdidas.

 

 

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