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MIGALHAS DE VIDA – EM SOB UM CÉU DE GRIS PROFUNDO, TOM CORREIA DÁ VOZ AOS HUMILHADOS E OFENDIDOS. julho 1, 2011

Posted by eliesercesar in Resenhas.
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Um profissional de futuro desempregado faz um bico entrevistando um homem rico sobre a passagem de uma tal Simone – o leitor esclarecido logo conclui que se trata de Simone de Beauvoir – pelo Brasil; um escrivão entediado acrescenta sua opinião aos depoimentos que registra; um escritor pobre espera pagar as dívidas escrevendo a biografia medíocre de ricaço; uma empresa  tritura seus funcionários num regime de trabalho escravocrata; um garoto deixado de escanteio nos babas perde sua grande chance de se consagrar com um gol de placa; um lutador de boxe amador em dúvida em relação à sexualidade; um ladrão em guerra permanente com um cão; um modesto funcionário de escritório forçado a satisfazer os desejos sexuais de três irmãs sem o menor atrativo físico; um rapaz atraído para uma vida de crimes.

 Os personagens de Tom Correia transitam entre a dúvida, a queda e a nulidade, este o pior dos destinos. São fadados a não darem certos na vida, condenados ao fracasso, sem chance de redenção. Os humilhados e os ofendidos de uma sociedade que só tem olhos para o sucesso e excluí a maioria dos homens do processo de produção e consumo, reservando-lhes migalhas de vida, preenchem as páginas de Sob um céu de gris profundo, segundo livro de contos de Tom Correia, o premiado autor de Memorial dos Medíocres (prêmio Braskem de Literatura de 2002).

O estilo de Tom Correia é conciso, enxuto, seguro, como quem – no caso do conto – empunha um leme para fazer uma navegação costeira, já que a viagem transatlântica ficaria para o romancista. Em alguns trechos lembra o coloquialismo desbragado de Bukowski, como em Clinche, título tirado do boxe (quando um dos pugilistas agarra  outro para evitar golpes ou ganhar tempo a fim de se restabelecer para a luta):

“Você por aqui?”

“Tava de bobeira. Vim fazer uns exercícios. Você não come, não?”

“Sem fome. Você sumiu”.

“Saindo com a Cris”.

“Que porra você viu nela?”

“Ela não é essa coca-cola toda, mas você precisa ver o que a safada sabe fazer…E Vilma, tem aparecido?”.

“Me ligou outro dia”.

“E daí?”

“Quer me ver de novo, diz que está apaixonada”.

“Não falei. Não te disse? Manda ver, garanhão. Mulher é tudo cachorra”, animado, me deu fortes tapas no ombro”.

Em Ruínas, o primeiro conto da coletânea, depois de “quase dezoito anos sem licença médica, sem uma mísera falta, sem horário certo para almoço, os eventuais atrasos sempre compensados”, um homem é demitido da empresa. Para sobreviver aceita investigar um determinado episódio da passagem de uma mulher famosa pela Bahia e trava contato com um amigo dela, um homossexual idoso e surpreendentemente vigoroso, como demonstra a insólita luta entre os dois personagens no desfecho da história.

Em Um raibã, um jovem é convidado a escrever a biografia de um ricaço, vê no aluguel da pena a possibilidade de saldar dívidas e fica à espera de um novo contato para concretizar o acerto. Sua triste condição de escritor-fantasma parece ser a única saída para a falta de dinheiro:

Tenho tara por biografias, até por aquelas sem interesse algum. Eu devia me transformar num biógrafo de vidas vazias, um nicho não tão explorado. Li não sei quando que geralmente os velhotes endinheirados querem ver sua vida publicada antes de morrer, mas eu pensava que isso só acontecesse nos grandes centros, não num lugar como esse, onde livros são tratados como entulho a ser removido para os aterros sanitários. Geralmente quem tem dinheiro não sabe escrever. E os que sabem não conseguem ganhar dinheiro. Obter alguma remuneração com certos tipos de arte é pura loteria. Era comum a permuta.

O pobre escritor chega à conclusão, irônica e melancólica, que o valor de um livro não dá para comprar um raibã”, objeto de desejo.

Holerite é uma ficção científica, uma terrível distopia de um mundo mecanizado pelo trabalho escravo. Trezentas pessoas na linha de frente de uma fábrica que não se sabe lá o que fabrica. Há algo de Orwell na terrível profecia de um futuro em que o homem vale menos que zero. Na fábrica, é permitido apenas um breve aperto de mãos entre os colegas. Conversa nenhuma. Os pedidos de demissão são ignorados. Ninguém pode faltar ao trabalho para ir ao enterro de um parente. A pausa para a água é cronometrada. Os celulares não são permitidos. No domingo, o movimenta triplica, o que significa mais trabalho.

Poucos conseguem férias, mesmo assim como compromisso de “apresentar projetos que apontem soluções ergonômicas. Há uma hierarquia stalinista, com os funcionários do alto escalão vigiando os de baixo, sendo observados pelos superiores que, por sua vez, são monitorados por outros mais poderosos. Ninguém escapa da vigilância. Nada passa despercebido. Os operários representam a escala mais baixa. Logo acima vêm os S-1, baixos e brancos. Depois, os S-2, de olhos verdes. Em seguida, As S-3, de traços orientais. Acima delas, as S-4, também de olhos verdes. Há ainda os Super e os Supervisores-Mestres, que vigiam os primeiros e são vigiados pelos Gerentes-Ídolo, os G-1, trazidos de fora. Nenhum funcionário sabe o nome do outro. Eles são identificados por números, trocados a cada dois. Incompleta, a última frase do conto é um achado, prova de que ninguém poderia escapar da kafkiana engrenagem.

Harpias  também o trabalho sufocante, porém, de modo bem mais ameno, já que há saída para o personagem que trabalha num escritório de contabilidade, de propriedade de três irmãs, cada um mais feia, grotesca e gananciosa do que a outra. Elas só pensam em reduzir custos, com a limpeza do banheiro sendo feita apenas uma vez na semana, o cafezinho cortado, os copos plásticos racionados, os vales e adiantamentos suspensos. Terceirização é a saída para o aumento dos lucros e para a diminuição dos encargos trabalhistas. Sob um céu de gris, a última das 13 histórias do livro, é uma trajetória de descaminhos, a imersão de um jovem no mundo do crime até a cadeia, onde, na verdade, o sol pode ser de gris profundo, mas nasce quadrado.

 

 

 

 

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Comentários»

1. Araken Vaz Galvão - julho 2, 2011

Você, César, como sempre é muito objetivo e perspiscaz
Vai ao âmago do livro (isso deduzo, por que não o li).
Abraços


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