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Pequenas grandes histórias – Tardes com anões reune microcontos de sete autores baianos. outubro 17, 2011

Posted by eliesercesar in Reportagem.
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Sem a Branca de Neve, a coletânea Tardes com anões foi sensação na Flica; livrinho reúne ficção minimalista de sete anões, nada nanicos.

Sem a Branca de Neve, que ficou em Salvador, os sete anões, nem um tanto nanicos, estavam lá. Explicando melhor a fábula da vida real, nem sempre alegre, mas também, por vezes,  melancólica e sem final feliz: sete escritores baianos deram um tom diferente à Festa Literária Internacional de Cachoeira (Flica), que se encerra no domingo (16 de outubro) em Cachoeira – município do recôncavo  baiano, a 110 Km de Salvador – ao lançarem o livro de minicontos Tardes com  anões.

Cada anãozinho, o mais alto deles com 1,80 m e o mais abaixo com 1,68m, escreveu sete microntos, totalizando 49 histórias minimalistas, empregando o mínimo recurso de linguagem para tentar abrir horizontes na imaginação do leitor. “Se o romance revela, o conto omite, pois o bom conto não deve contar tudo, mas deixar uma janela aberta para uma história paralela a que se pretende contar, o miniconto apena insinua. São, na verdade flashes de vida”. Quem explica sou eu mesmo, Elieser Cesar, um dos anões, de 1,76m.
Participam também da coletânea, Carlos Barbosa, Igor Rossoni, Lidiane Nunes (a única anãzinha  desse bosque das letras miúdas), Mayrant Gallo, Rafael Rodrigues e Thiago Lins. A organizadora da coletânea e fada-madrinha dos anões literários é a professora de literatura, fotógrafa e produtora cultural Gal Meirelles. Em formato de bolso – o que, para um anãozinho, em grandeza relativizada, deve ter o tamanho do fascículo de uma enciclopédia – a coletânea foi produzida com a intenção de oferecer um produto diferenciado na Flica.

Lançado sábado à noite no Pouso da Palavra, pela editora Vento Leste,  o livrinho virou logo um sucesso de vendas. Também pelo precinho: apenas R$ 5.00. “Gostei. Levei dez para presentear meus amigos em Salvador”, contou a estudante universitária Andréia Lima, que fez questão de pegar o autografozinho de cada anão. Até o pessoal da Fundação Pedro Calmon (FPC), coordenadora o evento, como o próprio presidente da instituição, o historiador Ubiratan Castro, não resistiu ao charme minimalista dos anões literários e levou seu livrinho, para depois de uma leiturazinha maneira , abrigá-lo num cantinho da estante. Escondidinho entre Guerra e Paz e Dom Quixote.

Ingênua ou desavisada, uma garota não compreendeu a brincadeira ou a ironia latente da pequena obra, e perguntou onde estavam os anões.  Um sorvete para ela. Dessa vez, dos grandes. Para a próxima Flica, Gal Meirelles promete uma nova coletânea, encorpada com setenta minicontos de cada participante. Sugestão de título: Os anões cresceram.

A Flica promoveu, de terça-feira ao domingo, 16 mesas de debate e reuniu 33 autores, nacionais e estrangeiros, dentre eles os brasileiros Fernando Morais, Hélio Pólvora e Miguel Sanchez Neto, os portugueses Pedro Mexia [ em que?] e João Pereira Coutinho e o cabo-verdiano Germano Almeida.

Confiram abaixo algumas histórias dos anões:

Nova Ordem

O novo padre baixou a norma:
– Em minha igreja não entra mais gente morta!
E esclareceu:
– Nada mais de missa de corpo presente!
O povo do lugar cumpriu direitinho a nova ordem ao enterrá-lo no dia seguinte
(Carlos Barbosa)

Interpretação dos sonhos

Capistrano sonhou com uma cobra.
Jogou no bicho.
Deu macaco.
Jogo de novo.
Deu burro.
Insistiu no jogo.
Deu peru.
Ainda apostou.
Deu elefante.
Tentou mais uma vez.
Deu águia.
Foi passear na roça.
Deu cobra.
(Elieser Cesar)

Asseio

– Desça já daí.
Foi o que Dona Miúda ouviu da filha, ao escalar o editorial do nono andar.
Edna Lúcia – desincubida – retoma unhas, inda por tingir.
(Igor Rossoni)

Ferida

Como uma borboleta que acaba de sair do casulo, descobre que pode voar e tem as asas cortadas por um menino cruel que sente prazer em brincar de Deus. Assim eu me sinto.
(Lidiane Nunes)

O mundo do silicone

Duas mulheres conversando na esquina da Rua General Labatut;
– É, ele é ousado… Bem ousado!
– Não, ousado, não…  Como eu diria? Deixe-me ver… Peitudo!
– É. é isso! Peitudo!
E as duas, com as mãos em concha sob as tetas, iam mostrando uma à outra o que era possuir tal atributo.
(Mayrant Gallo)

O que realmente importa

Ela chorava copiosamente em meu ombro. Enquanto tentava consolá-la com palavras de amor, eu pensava em coisas vãs, e pedia a Deus para que não manchasse minha camisa.
(Rafael Rodrigues)

Quietude

Uma quietude tomara conta do lugar. Aos poucos, as pessoas entravam e se aproximavam de mamãe. Estendiam o braço, e ela, um tanto trêmula, fazia o mesmo.
Enquanto os cumprimentos se sucediam, encaminhei-me até papai. Ele estava bem vestido. O caixão, bem ornamentado.
Mamãe continuava a receber cumprimentos.  E em meio à quietude que tomara conta do lugar, papai soltou um longo suspiro de insatisfação.
(Thiago Lins)

(Publicado originalmente no jornal digital Bahia 247 – www.bahia247.com.br )

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