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Uma estreia sensível – Em Barroca, Mariana Paiva se mostra orvalhada de lirismo novembro 7, 2011

Posted by eliesercesar in Resenhas.
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O livro de estreia, sobretudo de um escritor iniciante, é como um cartão de visita que anuncia a obra do presente, mas demonstra as potencialidades do artista para trabalhos vindouros. Por isso, mesmo, deve ser lido não só com o olhar rigorosamente atual, como requer a leitura dos jornais, mas também projetando as possibilidades que, nas entrelinhas, permitem se entrever o talento em formação, a busca pelo timbre próprio, a procura da marca pessoal; enfim, a conquista do estilo autoral.

Todo livro (e não somente o primeiro)  desafia a coragem de se expor, já que arte  é também exposição sem retorno. A jornalista Mariana Paiva esgrime sem eu primeiro livro, Barroca, toda uma inquieta sensibilidade, Ávida por apreender o instante  fugaz da existência  – (“Quanta vida a gente deixa passar”) – como para enfrentar os desafios do futuro, sem olhar para trás:

Quero mala para arrumar,

estrada para andar: quero destino.

Barroco é um livro impressionista, que expõe uma alma sensível e perplexa diante de um mundo que parece se repetir num tempo circular e causar a mesma estranheza de  episódios fadados a acontecerem outra vez:

De haver algum deus das

coincidências que se diverte muito

com a minha vida.

O próprio título, Barroca, soa como uma armadilha para os mais apressados, já que a autora, de mãos dadas com todos,  vive, como diria Drummond, o tempo presente, a vida presente, e  flerta com o moderno e até com o pop:

Incrível como as piores músicas são

as que dizem as maiores verdades.

O eu feminino se releva como refletido num espelho distante, que outro não é, senão o espelho da memória que aprisiona o tempo e liberta a alma:

Cada canção nesse disco tem uma história.

guardo todas – como uma velha guarda na penteadeira

pó-de-arroz vencido, bibelôs de louça,

fotos de amores antigos esmaecidos pelo tempo.

O mesmo tempo em que “já não existe mais meio-dia; e que lembra uma “manhã perto das flores que dava para ver de sua janela, as flores rosa, as folhas de um verde lindo, o sol, o céu azul, seu cheiro, minha vida, a água caindo, seu beijo, minha história, sua história, nossa história que não acaba nunca dentro de mim”.

Mariana Paiva  faz uma prosa poética, orvalhada de lirismo e também de  ironia:

Os homens sempre pensam que podem tudo.

Ela sabe que o tempo da poesia é quando, como Vinicius Moraes definia o seu tempo. Diz Mariana:

O tempo não passa,

mas não passa, não passa, não passa.

O enigma do mundo se mostra  como uma opção pelo avesso, já que “a vida é sorte ou revés”:

Quem me decifrou foi o errado.

Ora, é isso! Se eu for

mesmo um enigma,

 não é o certo que vai me desvendar.

Há ainda, na poesia de Mariana Paiva,  a preocupação em não  revelar todos seus segredos:

A graça é essa mesmo:

conto o milagre, mas esconde o santo.

Esconda, mesmo, Mariana. Já não basta revelar o milagre da poesia num cenário,  barulhento e estéril,  de pagodeiros?

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