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Os Encantos da Morte – Em livro de contos, o médico e escritor Alfredo Gonçalves de Lima Neto emprega a pena de Doutor Thanatos. janeiro 9, 2012

Posted by eliesercesar in Resenhas.
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Hieronymus Bosch

Último mistério da existência, experiência pessoal, intransferível e, para muitos, dolorosa, a morte tem também sua sedução; aquela mesma atração que, segundo Nietzsche, faz o abismo olhar para quem passa o tempo todo olhando para o abismo. Médico de formação, escritor por vocação e com o bisturi afiado para as letras, Alfredo Gonçalves de Lima Neto, encontrou naquela que o poeta Manuel Bandeira chamou de “a mais indesejada das gentes”, inspiração para o livro de contos “Os Encantos da Morte”, lançado no final do ano passado.

São seis histórias que deixam transparecer um leitor voraz e um criador que, num sadio exercício de intertextualidade dialoga com outros autores, como argentino Jorge Luís Borges (“O criador de sonhos”) e com realismo mágico de Gabriel Garcia Márquez, Juan Rulfo, Júlio Cortázar e outros (“Nos caminhos do abandono”). O que não significa que o autor – radicado em Valença, no baixo sul do estado e membro da Academia Valenciana de Educação, Letras e Artes (Avela), fundada por inspiração do inquieto escritor Araken Vaz Galvão – não tenha timbre próprio.

As histórias de “Os Encantos da Morte” encantam pelo pulso seguro de quem domina a narrativa e a estende com a difícil arte da fabulação, prolongando e desdobrando a trama até o surpreendente desfecho como um enredo policial. Assim é, por exemplo, “As quatro mortes do Senhor Faustino”, a trajetória de um homem que abandona a família em defesa de uma causa (uma revolução ou uma conspiração humanitária), é odiado pelos familiares, com exceção da filha, Esperança, cujo nome é um achado simbólico para a personagem  ansiosa por rever o pai (um monstro como todos diziam ou um homem incompreendido e injustiçado?).

Depois de muito tempo sem ouvir notícias do Senhor Faustino, cada membro a família é visitado por um homem de aspecto lúgubre, verdadeira personificação da morte, assim descrito pelo autor: “figura macérrima e esguia trajando um sobretudo preto que mal lhe desenhava a esquálida figura […] rosto pálido com dois olhos pontiagudos que pareciam saltar de suas órbitas, e um nariz adunco, lembrando um daqueles rostos invulgares que encontramos nos quadros de Bosch”.

Para Esperança esse corvo disfarçado em arauto da morte conta que o Senhor Faustino morreu quando, triunfante, voltava para a sede do governo e o carro em que viajava passou por sobre uma mina instalada no tempo da guerrilha. À Socorro, irmão do falecido, a gralha agourenta revela que o infausto Faustino fora morto à traição por um antigo aliado. Já Inocêncio, o filho, é informado de que o pai sucumbiu numa emboscada. Por último, Consolação, a esposa, fica sabendo pelo mesmo informante tétrico, que o marido tombou esfaqueado no desenlace trágico de um triângulo amoroso. Em qual das quatro versões acreditar? Em todas ou em nenhuma, já que o desfecho é um desafio para a imaginação do leitor e o bom conto deve deixar sempre uma história em aberto, uma trama paralela.

Satanismo, maldição, orgia e Dom Juan Defunto

Borgeano e da mesma linhagem espiritual de “As ruínas circulares”, famosa história do contista argentino, “Criador de Sonhos” conta a desdita de uma tribo, os Milliuns, que perdera “a sensibilidade para com o mundo e a vida”, uma comunidade primitiva imune à saudade. à desilusão, á tristeza e aos sentimentos mais primários. No conto, um pequeno épico, satânico e repleto de aventuras, um jovem adotado pela tribo tentar resgatar a alma perdida dos Milliuns,

Como em “As quatro mortes do Senhor Faustino”, “Herança maldita” enfoca a desagregação de uma família e a terrível maldição que recaí sobre seus membros. “Nos caminhos de Abandono” temos puro realismo mágico, misturado com a orgia do Marques de Sade. No conto, mulheres são enclausuradas num convento e estupradas por uma espécie de templários denominados Cavaleiros das Luas de Prata. Destruição sexo e carnificina são o tom da história.

Em “Cartas Marcadas” há uma recriação de “A saúde dos doentes”, de Cortázar no qual pessoas se revezam, escrevendo missivas em nome de um jovem morto, para que a mãe do defunto, já velha e debilitada, continue acreditando que o filho está vivo, goza de boa saúde e caminha para o sucesso na vida. Por fim, vem a história picaresca, na linha de “A morte e a morte de Quinas Berro D’água” de Jorge Amado. Em “As prevaricações de um defunto”, que fecha o livro, o personagem central, como já denuncia o título, é um homem morto. Na história,  o velório, para  vexame da família de Pacheco, um homem tímido, pacato e doméstico, é  invadido por várias amantes do falecido, mulheres belas e sensuais para todos os gostos. Como um Zé Ninguém como Pacheco, desprovido de quaisquer atrativos físico e espiritual conseguira formar seu harém?

A resposta está em “Os Encantos da Morte”, um livro, muitas vezes, sufocante, pois, não faz concessão a felicidade cosmética, flerta com o desespero da condição humana e se inspira na última viagem de cada um, como se o médico Alfredo Gonçalves de Lima, escrevesse com a pena de Doutor Thanatos.

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Comentários»

1. Ana Maria Rosa - janeiro 28, 2012

Gostei muito, Cesar, de sua resenha. Você tem uma escrita clara acessível.Me deixou curiosa para ler o livro. Gosto muito de contos macabros. Gosto de Bosch, mas essa pintura aí está de arrepiar, viu?

eliesercesar - janeiro 28, 2012

Ana Maria, não tem literatura que só a é morte. Quando, o artista fala de morte, é para procurar salvar a vida. Sei que você entende. Vem, aí, As Baianas: pura vida, até nos desacertos da existência.

Quanto a escrever de modo simples e compreensível, é um aprendizado, como contar uma história ao pé das fogueiras acesas.

NAI - novembro 15, 2012

Já li o Livro é muito bom, Entendi que os verdadeiros mortos encontram-se vivos e presos o um macabro sonho de escuridão e regresso espiritual, como visto em “Cartas Marcadas e “A Herança Maldita”.

2. Araken Vaz Galvão - janeiro 8, 2014

Só discordo de um detalhe, caro Elieser Cesær (será que está correto?) Alfredo não é médico e escritor, é escritor e médico


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