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Jornada de dor e redenção – Em Hendersen, o rei da chuva, Saul Bellow faz romance de formação de um homem na maturidade janeiro 29, 2012

Posted by eliesercesar in Resenhas.
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Em geral os personagens do chamado “romance de formação são jovens que, ao longo da trama, modificam sua vida, após um aprendizado, na maioria das vezes, doloroso. Poderíamos incluir entre estes personagens Julien Sorel, de  O vermelho e o negro, de  Stendhal, Lucien de Rubempré, de As ilusões perdidas, de Balzac, o Jean-Christophe, do romance homônimo de Romain Rolland e, para falar do Brasil, o menino Sérgio, de O Ateneu, de Raul Pompeia.

O  romancista Saul Bellow,  filho de judeus emigrados de São Petersburgo, nascido no Canadá, naturalizado norte-americano e Prêmio Nobel de Literatura de 1976, escolheu concebeu um personagem em plena crise da maturidade para escrever o romance de formação Henderson, o rei da chuva (1959). Talvez, para mostrar que, em qualquer idade, como diz   o personagem principal do livro, ainda é possível “dar o ponto certo na costura do meu destino antes que fosse tarde demais”. Ou ainda, como acredita Dahfu,  um trágico e sábio rei africano do romance, ao falar da condição humana: “Algumas partes podem estar soterradas há tanto tempo  que dão a impressão de mortas. Há nelas alguma possibilidade de ressurreição? É aqui que entra a mudança”.

Ex-combatente da Segunda Grande Guerra,   Eugene Henderson é um cinquentão que procura briga dentro e fora de casa,  rico, de  força física descomunal e voluntarioso a ponto de se gabar de que seria capaz de atravessar a Sibéria plantando bananeira. Depois de casamentos frustrados, ele larga a família e os filhos e, em plena crise da meia idade, parte para a África primitiva, numa jornada de aprendizado e redenção. Henderson é uma dessas consciências atormentadas que acham que nunca fez a coisa certa. Em uma conversa com o rei da tribo wariri, com a qual convive na África, ele confidencia: “Digo francamente, não mereço ter minha vida registrada em papel higiênico”.

Boa frase para  aqueles que acreditam que, nas redes sociais, poderão dar importância à uma vida rasa,  registrando acontecimentos fúteis como: “Nesse domingo fui à praia”; “conheci fulano na Suécia”; “comprei uma roupa descolada”; “fui ao pagode”; “já não agüento esperar o carnaval”. Bem, esses, sim, merecem a vida registrada em papel higiênico.

Jornada da alma

Prêmio Nobel, Saul Bellow optou pela crise da maturidade em romance de formação.

Porém, na jornada sofrida e redentora da África, primeira junto ao Arnewi e, por último, em companhia dos Wariris, dos quais, o caótico Hendersen, sem querer, se torna  “O rei da chuva”. Na tórrida e pobre África sua vida vai mudar. O primeiro passo para a mudança salvadora ocorre quando ele ouve, da rainha Willatale, a seguinte expressão no dialeto Arnewi: “Grun-tu-molani” (“O homem quer viver”). Finalmente,

Henderson percebe que precisava resgatar a  vida, a  fim de impedir a morte de sua alma:
Meu espírito despertou e acolheu de novo a vida. Que se dane todo o resto! Vida renovada. Eu ainda estava vivo e vibrando e tinha o velho grun-tu-molani.

Com isso, ele queria evitar  que a vida significasse apenas “uma jornada  doentia, apressada e impotente através de um sonho rumo ao esquecimento”. Como, de fato, é a vida para a maioria dos homens.

O velho Henderson já não era mais uma daquelas “muitas almas que não aguentariam mais uma rodada de vida”. Sempre acompanhado do servo Romilayn – emulação de Dom Quixote e Sancho Pança nas savanas africanas? –  o exilado voluntário é recebido amistosamente pelos arnewis. Mas tem que deixar a aldeia, após cometer um desatino ditado pelo seu comportamento voluntarioso, embora o movesse a mais nobre das intenções: salvar o gado da morte por  falta de água.

Entre os selvagens Wariris, o clima é de hostilidade. Porém, devido, sobretudo, à sua força física, Henderson acaba se tornando “O rei da chuva”, cargo perigoso como se verá no decorrer da trama. Após a morte do rei Daphu, Henderson, intuindo  que teria o mesmo destino trágico (sempre em companhia do fiel Romilayn), decide fugir dos Wariris e empreende a viagem de volta aos Estados Unidos.
Já não é o atormentado Eugene Henderson quem retorna, mas outro homem revigorado pela força  “imaginação, imaginação, imaginação [a reiteração é do autor] que torna real, sustenta, altera e redime”. Então, parafraseando  Dante, citado por Italo Calvino, “o rei da chuva  faz chover na imaginação”.

Chuva que aduba o pensamento e alaga a estupidez.

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Comentários»

1. Ruy Espinheira Filho - janeiro 30, 2012

Oi, Elieser, parabéns pelo texto, você sabe mesmo das coisas. Um abraço grande, Ruy Espinheira Filho.

eliesercesar - janeiro 30, 2012

Ruy, me lembro de você ter comentado – em alguma crônica – o livro de Saul Bellow. Só agora tive o grande prazer de ver chover na imaginação a história de Hensersen.

Nos veremos em As baianas

2. Lidi - fevereiro 18, 2012

PARABÉNS, Elieser.
Abraços.

eliesercesar - fevereiro 18, 2012

Valeu, Lidi. Gostei muito de seu poema; doloroso; mas a verdade da vida e da morte, nosso (esquea a rima), a segunda, triste sorte!

3. weslleyreys - dezembro 31, 2013

esse livro é realmente maravilhoso não estou ainda na crise da meia idade, mas quando chegar lá certamente que me lembrarei.

4. Paulo da Mata-Machado Jr. - dezembro 4, 2016

Ave Elieser
boa resenha. Gostei.


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