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POEMAS PARA ANTONIO – A LINHAGEM ESPIRITUAL DA POESIA DE ÂNGELA VILMA. março 22, 2012

Posted by eliesercesar in Resenhas.
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Evanescente, amorosa, marcada pela transitoriedade da vida e pela fugacidade da existência, a poesia de Ângela Vilma tem a linhagem espiritual de Cecília Meireles. Não que a autora de Poemas para Antonio tente imitar a poeta de Viagem. Ângela Vilma tem dicção própria, mas, em seus poemas, a alma feminina tão expressa na lírica ceciliana também se mostra nítida e perceptível como um rosto que nos surpreende, de repente, envelhecido num espelho.

Os versos de Poema para Antonio são os que mais se aproximam da poesia de Cecília Meireles, pelo há de dolorosamente leve e pelo o sentimento de que não vale à pena se desesperar, pois, afinal estamos apenas de passagem no mundo. Também nada podemos fazer para alterar a nossa finitude, como, de resto, não podemos mudar  o sortilégio do espelho em que ficou perdida a nossa face.

Brisa, carícia, mar, espelho, vento, palavras muito presentes na poesia de Cecília Meireles são também recorrentes  na poeta da Chapada Diamantina (Ângela Vilma nasceu em Andaraí, mesma terra de Herberto Sales, por quem tinha grande admiração e  sobre quem escreveu um livro de ensaios). Por coincidência a leveza de seus versos, sua linguagem cristalina tem algo de um diamante lapidado com paciência e rigor, já que  difícil mesmo é escrever de maneira simples,  refratária a  maneirismos novidadeiros e penduricalhos  inúteis.

No poema Tu Amiga , Ângela Vilma mostra que o amor é um sentimento rarefeito:

De ar és feito, e teu peito evapora

Minhas mãos que te procurarm.

De lavra ceciliana é também  Invenção:

Como inscrever teu nome na noite,

Se te inventei, e teu rosto é sombra

Repousando leve no mundo.  

Ângela Vilma fecha o poema com a leveza de um demiurgo que esculpiu montanhas no vento:

Como te manter, enfim, em minha casa,

Se te inventei ágil, invisível, oscilando

Na transparência vaga de uma lágrima?

Em Entardecer, novamente a sensação de impotência diante da voracidade do tempo:

Não, não nos encontramos

Nas infâncias que se perderam

E as trilhas do rio morreram

Aos nossos passos imobilizados.

Nos sapatos da menina (Meus Sapatos Brancos), a dor da ausência, uma dor serena e que entristece, mas também apascenta a alma:

Agora, que teu rosto some na neblina,

Só meus sapatos de menina  ainda te

                                                      [esperam.

Te esperam sozinhos, meus sapatos

                                                [brancos,

Guardados no tempo, inúteis, vivendo.

Tão brancos, galopando ao vento,
com a poeira,dos anos prendendo-os.

Tão sozinhos, após aquelas festas

Em que tu à minha espera serenava

                                             [o mundo.

Agora que teu rosto desmente tudo

Só os meus sapatos de menina ainda

                                                [te buscam.

 

A LONGA MEMÓRIA DA ARTE

Ângela Vilma sabe que, para o poeta, o tempo só passa no calendário, pois persiste na memória, na longa memória do artista, como,em  Ruy Espinheira Filho, um poeta em que a memória é elemento essencial de ressignaficação do mundo e de reinvenção da vida, como queria a própria Cecília Meirelles. É de Ruy o verso  de nostalgia do tempo perdido e resgatado por Mnemósine: “O que respiro é ontem”. No poema Ontem, a autora de Poemas para Antonio também passeia na memória:

Somos tudo que passou ontem

Em Confissão, Ângela Vilma tenta transcender as dores do mundo:

E minhas dores, ah, minhas dores,

São tantas e tão perversas,

Que se vestem de festas, e se afastam.

Mas, se trata da dor mitigada de quem esteve:

No abandono mas triste, mais sereno.

Este é o último verso do poema, sem  título, que abre o livro e que poderia, muito bem, sintetizar  o sentimento do artistas na vastidão dos cosmos, o de abandono, porém, sereno e lúcido, como um verso triste. Ou como uma alma, “em curso sozinha” (Eis a minha Alma).

A admiração de Ângela Vilma por Cecília Meireles é patente na epígrafe de Poemas para Antonio, retirada de Canções, da autora do Romanceiro da Inconfidência:

Por que nome chamares

Quando nos sentimos pálidos

Sobre os abismos supremos?

Bem, talvez por Antonio. Mas quem é mesmo esse Antonio? No mínimo, um anjo poético para merecer a lírica homenagem de Ângela Vilma, como o pungente  Roupa  de Menina:

 

Se eu pudesse, finalmente

pegar tuas mãos nessa tarde

e  juntá-las ao invisível

sonho que me invade

eu me tornaria doce, descuidada

e te levaria à minha casa

vestiria uma roupa de menina

e depois me desnudava

dos passados que advinhas

entre as linhas dessa anágua.

 

 

 

 

 

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Comentários»

1. Ângela Vilma - março 22, 2012

Tão belo o seu texto, Elieser. Sua leitura, tão fina. Obrigada por ler, de maneira tão lírica, os “Poemas para Antonio”. Grande abraço. Ângela Vilma.


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