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O LEQUE DE OXUM – VASCONCELOS MAIA E A REPERSENTAÇÃO DOS EGUNS. março 28, 2012

Posted by eliesercesar in Resenhas.
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Contista da gente baiana, intérprete panorâmico do mar da Baía de Todos os Santos e da Cidade do Salvador, com suas ruas e ladeiras, becos e calçadas, sobrados, igrejas, bares e castelos, pescadores, capoeiristas, putas e moças de família, Carlos Vasconcelos Maia também ambientou suas histórias nos terreiros místicos e míticos do candomblé, com sua corte de iarolixás, iaôs, ogans, ojuobás, babás e toda nobreza da religião dos orixás. Antes de Jorge Amado, Vasconcelos Maia já se apropriara do candomblé como matéria-prima de  ficção

Na introdução à novela O leque de Oxum, um canto  de Vasconcelos Maia para os orixás, o escritor diz  que, ao escrever sobre o povo de santo,  pretendia tão-somente  “contribuir para a divulgação da beleza, do fascínio e do requinte que estão conservados nos melhores candomblés baianos e chamar a atenção para o manancial esplêndido que oferecem aos escritores de ficção”.  E não é esta mesma a função do artista que se identifica com a alma de seu povo e com os costumes de sua gente?

  RITUAL DOS MORTOS   

A história de uma mãe-de-santo que, por amor, desafiou o poder de seu orixá – relata um amor contrariado, nesta caso específico, o amor nos tempos da cólera de Xangô, enciumado e implacável com o que  considera traição de sua sacerdotisa, O cenário da história do amor impossível entre o sueco Undset e bela ialorixá Matilde, consagrada a Xangô, é Ponta de Areia, na Ilha de Itaparica, onde se celebra  o  ritual dos eguns, culto a alma dos que pertenceram à seita, cerimônia das mais secretas do candomblé.  Em O leque de Oxum, pela primeira vez e com riqueza de detalhes, o ritual dos mortos do candomblé foi descrito na literatura.

A trama é narrada por um corretor de imóveis, baiano desgarrado do terreiro de Mãe Senhora, de volta a Salvador após vinte anos de ausência. À  noite, dentro de um  barracão, assiste a celebração aos eguns, um espetáculo  bárbaro e fantástico, lúdico e assustador, balé original e arrebatador, concerto para ataques e  agogôs, ritual vertiginoso e sobrenatural. Quando o sol se esconde, foguetes sobem ao céu. É a senha para convocar os babás e a descida dos eguns. O toque dos atabaques anuncia o início do ritual. Os fifós são acesos, “projetando sombras pelo chão, pelos cantos, pelos tetos”. Os atabaques batem com mais força. O padê (despacho de Exu) é iniciado. Vestidas de branco, mais de cinqüenta mulheres começam a dançar, com elegância, velhas, adultas, adolescentes, gordas, magras, altas, baixas.

A festa vara a noite e a madrugada, até que o sol penetre pelas frestas do telhado quando o último ojé se retira e rum, rumpi e lê (o maior, o médio e o menor dos atabaques, respectivamente) emudecem. Unset, um dos dançarinos, era uma boa-vida. Do amor, queria apenas a satisfação dos instintos, o gozo relaxante do sexo.  Até que, curioso, para conhecer a cerimônia dos eguns, foi ao barracão, onde conheceu a bela filha de Oxum, Matilde, de uma beleza soberana que o siderou como se fosse Iansã despejando raios em seu coração granítico.

Como fazia os demais homens com as mulheres, Unset carrega Matilde na água, até a borda  do saveiro. A última imagem que fica dela é de uma mulher “ereta, muito séria, rodeada por sua corte, o sol nascente iluminando-a como uma deusa”. O homem estava irremediavelmente preso pelo fascínio e pelo leque de sua Oxum.  O estrangeiro parte atrás da ialorixá e vai cortejá-la em seu terreiro, no bairro de Brotas. A mãe-de-santo já o esperarva porque “seu destino estava de nascença, ligado ao dele”, como demonstrata Ifá, o jogo adivinhatório dos búzios:

Sabia também que a vida lhe seria curta se o seguisse. Que Xangô expulsá-la-ia da vida se fosse com ele. Mas sabia também – e isso quem lhe dizia era o próprio coração – que força nenhuma, humana ou sobrenatural, a impediria de segui-lo.

Matilde parte com Undset para Itaparica, mas de nada adianta suas preces e penitências, seus despachos para Exu, senhor dos caminhos. Implacável, Xangô “queria sua orixá inteira, só para si; queria renúncia absoluta”. Assim, numa cena digna do realismo fantástico, a bela ialorixá acaba correndo e desaparecendo no poço, fonte e pedestal de Oxum, para o espanto do amado. Na manhã seguinte, no lugar do encantamento Unset vê, “frio e dourado sobre a pedra O leque de Oxum”.

Na cosmogonia do candomblé, o ciumento Xangô encantou sua Oxum rebelde. Uma história de amor impossível, temperada com o axé da Bahia, Romeu e Julieta dos terreiros, Tristão e Isolda dos orixás.  Com o realismo mágico de Vasconcelos Maia, na desdita de Matilde, Xangô condenou Undset a  mais de cem anos de solidão.

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