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CICERONE DO ABISMO – Com espada flamejante, asas de demônio e inspiração divina, William Blake escreveu seus Provérbios do Inferno. junho 5, 2012

Posted by eliesercesar in Resenhas.
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O inglês William Blake (1757-1827) foi um dos últimos poetas visionários. Não no sentido quixotesco que se pretende dar ao termo hoje em dia, mas, na acepção literal do vocábulo, a de uma pessoa que, como os profetas do Velho Testamento, era arrebatada por visões deste e de outro mundo. Admirador do místico sueco Emanuel Swendenborg, de Dante e de Milton, Blake,  se  gabava de jantar com os profetas Isaías e Ezequiel,  conversar com anjos e também de descer aos “vértices abissais” para prosar com demônios.

Foi uma espécie de precursor  dos chamados “poetas metafísicos”, como T. S. Eliot, com descrições apocalípticas e imagens transcendentais  que lhe permitiram abrir novos portais, ver além das aparências e descortinar o infinito. Dizia William Blake: “Se as portas da percepção se desvelassem, cada coisa apareceria ao homem como é, infinita”.

Revelou que, aos quatro anos de idade viu a face de Deus e, mais tarde, uma árvore cheia de anjos flamejantes e o profeta Ezequiel, tranquilamente, sentado num descampado. O jovem William Blake tinha ainda o dom da premonição. Quando o seu pai o levou ao ateliê de um renomado pintor da época, Blake disse-lhe que não gostara do homem porque  ele tinha a cara de quem vai morrer na forca. Efetivamente, a profecia se cumpriu, 12 anos depois, quando o artista morreu da maneira prevista.

Admirado por escritores como Jorge Luis Borges e Octávio Paz, William Blake, desenvolveu a técnica da gravura e, seguindo a orientação do fantasma de seu falecido irmão Robert, que lhe aparecera em uma de suas famosas visões, criou um método novo de prensagem , que chamou de “Impressão Iluminada”, como conta Alberto Marsicano, na apresentação de O casamento do céu e do inferno & outros escritos,publicado na coleção L&PM Pocket. Com a técnica inovadora,  o poeta ilustrava seus próprios livros e também A Divina Comédia, de Dante. 

William Blake acreditava na arte como a maior prova de elevação e grandeza espiritual de um povo. Afirma ele, no poema “Jerusalém”: “A poesia entravada agrilhoa a humanidade; as Nações florescem ou entram em declínio conforme suas Poesias, Pinturas e Músicas. O Estado Original do Homem era a Sabedoria, a Arte e a Ciência”.

Sobre sua poesia, escreveu o citado Marsicano: “Blake, Cicerone do Abismo e dos Vértices Siderais, nos conduz aos errantes Firmamentos da Poesia & da Vidência, recuperando os amplos Espaços que se estendem através dos Portais da Percepção”. Numa “Visão Memorável”, quando cruzava “as flamas do Inferno”, onde vislumbrara “um Demônio poderoso em negras nuvens envolto pairando sobre os flancos dos penhascos”, William Blake diz ter recolhido os Provérbios do Inferno.

Confiram alguns Provérbios do Inferno

Iluminura de William Blake

Primeiro este, para aqueles que pretendem engolir a vida a golfadas, como se ela não devesse ser apreciada aos pequenos goles, como o bom vinho:

No tempo de semear, aprende; na colheita, ensina, e, no inverno, goza.

Este é indicado para aqueles que se deixam paralisar por aquele sentimento, demasiadamente humano e que Camões, num verso célebre, denominou de “a grande dor das cousas que passaram”:

Conduz teu carro e teu arado sobre os ossos dos mortos.

Para os que não ousam em ir em frente, temendo o desconhecido:

A Prudência é uma velha solteirona, rica e feia, cortejada pela Incapacidade.

Recomendado para os que não tem iniciativa:

Aquele que deseja e não age engendra a peste.

Indicado aos néscios:

O tolo não vê a mesma árvore que o sábio.

Idem:

As horas da tolice são medidas por ponteiros, mas as da sabedoria, não há relógio que as meças.

A tolice, ainda:

Seríamos tolos, se os outros já não o fossem.

Sobre os vôos mais amplos da imaginação:

Nenhum pássaro perfura as alturas se o faz com suas próprias asas.

Uma ode ao nu feminino:

A nudez da mulher é a obra de Deus.

O perigo de todo transbordamento:

O excesso de pranto ri. O excesso de riso chora.

Para um político em desgraça:

A raposa culpa a armadilha, jamais a si mesma.

A visão do futuro:

O que hoje é evidência foi outrora imaginação.

A respeito dos seres superiores:

O rato, o camundongo, a raposa e o coelho, espreitam as raízes; o leão, o tigre, o cavalo e o elefante espreitam os frutos.

Idem:

Nunca a águia perdeu tanto tempo, como quando quis aprender com o corvo.

A propósito do despeito:

Estejas sempre pronto a dar tua opinião, e os vis te evitarão.

Efeito colateral:

Escuta as críticas dos imbecis. É um nobre elogio.

O poder da mente:

Um pensamento abarca a imensidão.

Dos nefastos:

Espere veneno da água estagnada.

Sobre pesos e medidas:

Jamais saberás o que é bastante, se não souberes o que é mais que bastante.

Idem:

Suficiente! Ou Demais.

Nirvana:

A alma imersa em delícias jamais será maculada.

Sobre a beleza das coisas inefáveis:

Fazer uma pequena flor é um trabalho de eras.

Da acomodação:

Maldição, revigora, Bênção relaxa.

Do paladar:

O melhor vinho é o mais velho; a melhor água a mais nova.

Sobre a justiça:

Como o ar ao pássaro, e o mar ao peixe, o desprezo ao desprezível.

A escola do gênio:

O aprimoramento endireita os caminhos, mas as sendas tortuosas são as do Gênio.

Este último não figura entre Provérbios do Inferno, mas merece citação, numa sociedade hipócrita e que pretende nivelar, por baixo,  todas as coisas:

A mesma lei para o Boi & o Leão é Opressão.

 

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