jump to navigation

DUAS INFÂNCIAS – Em Moinhos, de Mayrant Gallo, e O homem que sabia a hora de morrer, de Adelice Souza, personagens infantis encantam, comovem e incomodam, como a vida das crianças alegres ou ultrajadas. junho 10, 2012

Posted by eliesercesar in Resenhas.
trackback

Na literatura romântica a infância é  um período de felicidade, a aurora da vida que os anos não trazem mais, dos famosos versos de Casimiro de Abreu. Para o poeta moderno e cronista Paulo Mendes Campos  a infância é a sensação de que viver é de graça. Diz o poeta mineiro no poema  Infância: “Tudo é ritmo na infância, tudo é riso./ Quando pode ser onde, onde é quando.”

Portando, na infância,  nenhuma preocupação, nenhum aborrecimento doméstico ou na rua.  E, na maior parte dos casos, nenhum trauma marcante num tempo em que se era feliz e ninguém estava morto, como no poema de Álvaro de Campos, um dos heterônimos do poeta português Fernando Pessoa.

Mas, nem tudo é brincadeira, inocência e sorrisos na infância. O romancista alagoano Graciliano Ramos, no autobiográfico Infância pinta um retrato cinzento dos primeiros anos de vida na metáfora do  paletó “cor de macaco” que o menino veste; o mesmo garoto que se defronta, pela primeira vez, com as injustiças e a crueldade do mundo dos adultos quando o pai lhe dá uma surra de cinturão. Já em Menino de Engenho, o paraibano José Lins do Rego, começa do trauma da morte (a mãe de Carlinhos assassinada pelo pai do menino) para traçar a infância de um moleque livre e solto, “largado na buraqueira”, como ainda se diz no interior da Bahia.

A literatura baiana acaba de colocar na estante e na memória do leitor mais dois personagens infantis imersos num mundo de magia e sofrimento, de proteção e abandono, de segurança e instabilidade, como acontece  com meninos e meninas de classes sociais díspares: o menino de Moinhos, de Mayran Gallo, e menina de O homem que sabia a hora de morrer, de Adelice Souza. É dessas duas infâncias a caminho, num rito de passagem, doloroso ou ameno,  do mundo dos adultos,  que trataremos, agora.

INFÂNCIA ROUBADA

Ilustração: Cândido Portinari

Em Moinhos, a premiada novela que, juntos com os contos O ritual no jardim e Dias de garoto,  compõem  o livro Três infâncias (Casarão do verbo: Anajé, 2011)  do carioca, radicado na Bahia, Mayrant Gallo, a infância tem os tons cinzentos de Graciliano Ramos. Na  novela a infância é  marcada pelo sentimento precoce de injustiça  e revolta do menino que acompanha o pai, pobre e impotente frente as engrenagens que o esmaga, numa odisseia urbana em torno da cobrança de uma dívida que jamais será paga. O menino grudado no pai, vítima do mesmo sistema cruel que humilha e desencoraja os pobres. É uma novela d einspiração kafkiana. Lembra o agrimensor que não consegue chegar ao Castelo, como o pai de Moinhos é barrado no apartamento chique deo engenheiro.

“Eu era uma extensão dele, e não contrário. Eu era um apêndice”, diz o garoto, referindo-se ao périplo infrutífero, em companhia do pai, para cobrar uma dívida que, no máximo, adiaria a fome iminente. Impossível não recordar, nesta dupla separada pela idade e unida na desdita, do menino e do pai do menino do clássico Ladrões de bicicletas, filme de Vittorio De Sica e um dos expoentes do chamado neorrealismo italiano. Em Moinhos, a mesma andança à procura de um objetivo gorado, a mesma solidariedade  do menino para com o pai, igual tristeza de uma infância ultrajada pela injustiça social e  precocemente abortada pelas diferenças de classes.

O devedor recalcitrante é um engenheiro estrangeiro (“Clyde ou Charles – qualquer coisa assim”), para quem o pai do garoto trabalhara toda a primavera e boa parte do verão e que, agora, “devia uma boa soma e não queria pagar”. E não pagava porque não queria. Morava “num prédio alto, luxuoso, com interfone, portão automático e porteiro uniformizado de azul, num tom suave que não magoasse os olhos dos moradores”. Um prédio que só de olhá-lo “dava vertigem” e admirá-lo “fazia sofrer”. As despesas dos ricos não bastam para a riqueza que se quer ostentar, naquilo que o Veblein chama de consumo ostensivo. Os pobres que esperem. Para que eles querem dinheiro, se estãoa costumados à pobreza?

Por tanto, era melhor o engenheiro gastar, num simples jantar,   com uma loura exuberante, dez vezes mais do que devia, do que saldar a dívida cvom um zé ninguém. Que esperassem. Já não esperam a vida toda? Não para o garoto, que adquiria a consciência de classe da maneira mais dolorosa: ser vítima colateral da opressão.

Era o menino sozinho, sem mãe, sem escola, sem ninguém que cuidasse dele, arrastado a tiracolo pelo pai pela grande cidade  à cata do engenheiro que nunca estava em casa. Dessa associação, brota a pungente fraternidade filial, pai e filho enredados na mesma engrenagem que massacra gente:

Naquela época, e especialmente naquele dia, eu faria de tudo por meu pai, até sangrar se fosse o caso. E pelo mais sórdido motivo. Por ele, eu daria meu braço às agulhas, me exporia às navalhas.

No prédio em que mora o engenheiro, o menino mira o fosso social que o separa dos garotos bem nascidos e que, indiferentes à sua presença, “brincavam no salão limpo e reluzente”, protegidos numa redoma social, crianças de playground, sem as indeléveis manchas da rua, como de barro ou da chuva revigorante:

Eu olhava os garotos com curiosidade. Já eles, não me olhavam. Por que me olhariam? Estavam tão acostumados a si mesmos que não perceberiam nem sequer um aleijado. Por eles, o mundo bem que poderia ser só aquilo, um prédio murado com um portão de ferro que raramente transpunham, a não ser para ir à escola, ou brincar no clube, visitar os primos ou algum amigo. Eu, nem primos possuía. Nem mesmo mãe, quanto mais primos….

Junto àqueles garotos burgueses, o menino pobre, num arroubo inconsciente de luta de classes, tinha ganas de estrear seu canivete “no sangue dos fortes”, pois nos fracos “já fizera desenho e exame”, constatando que “era vermelho e, quando seco, de um indefectível tom marrom; e era acre e meio doce, de um sufocante odor de ferro”. Junto à raiva, o sentimento do mundo pela dor e o apatia do pai:

Ele dormira mal de noite, Vinha dormindo mal havia tempos. Preocupação em excesso, dor, indignação, repúdio, desânimo, ultraje. Não saber se hoje ou amanhã teríamos o que comer, se haveria trabalho, se receberia o dinheiro que tinha na rua, nas mãos dos ricaços escrotos […]

Da loura do engenheiro, o pai do menino consegue algum dinheiro, o suficiente para uma pequena compra. Também para aplacar a terrível solidão com o sexo pago. O pai leva uma puta para casa, cuja visão choca o menino pela feiura em contraste com a beleza radiante da loura e que “vestida lembrava uma flor murcha; despida, uma sepultura”.

Na última vez em que vai ao prédio do engenheiro, cobrar “o pagamento de um trabalho que há meses fora entregue, e dentro do prazo, no nível de exigência do cliente”, pai e filhos atravessam a cidade, sem dinheiro no bolso, a pé e pongando num vagão do trem suburbano, onde, enfim, fazem amigos passageiros, num jogo de cartas entre remediados da sorte. A chegar ao prédio, se encontram  diante de uma cena de filme policial, com o vaivém de viaturas e de policiais, barreiras policais, pessoas assustadas,  cochichos por toda a parte. O engenheiro e a mulher tinham sido assassinados no apartamento do casal.

Aqui, o conto existencial (a dolorosa infância de um garoto pobre) se transforma numa história policial. Quem matou o casal? Por quê? Quem era a bela e misteriosa loura? Muitos tinham motivo para matar o engenheiro, ao julgar pela sua recusa de pagar uma dívida cômoda, para ele, crucial para o papai do menino… Com a conivência caluniosa do porteiro, as suspeitas recaem sobre o homem que vinha insistentemente cobrar a dívida, apesar das flagrantes evidências de que se tratava de um pobre diabo, sem ânimo, nem recursos materiais para cometer o crime.

O pai do garoto é levado pelos policiais para um lugar distante, onde é torturado. Depois largado “no chão de terra e pedras, entre suor e algum sangue, meio desacordado, meio febril e marcado por hematomas”, onde o menino o encontra e o ampara. O garoto, que nunca foi de chorar, não chora. Olha em volta, no tremendo desafio de levar o ferido para casa e o arrasta pelos pés, em busca de socorro. Segue com ele, “pela rua e pela vida, lentamente”.

A HORA DA CRIANÇA

Ilustração: Cândido Portinari.

Feliz, serelepe e repleta de indagações existenciais, a menininha que dá voz à narradora madura de O homem que sabia a hora de morrer (Escrituras: São Paulo, 2012), transita entre a cidade, a pequena Castro Alves, no recôncavo baiano, e a roça, onde mora o avô, a mais grata lembrança da personagem e justamente o homem que sabia a data do transe final da vida. Ao contrário do menino de Moinhos, a garotinha do romance de Adelice vivia cercada de carinho e proteção:

Quando era final de semana de passear na roça, meu pai largava o trabalho cedinho no sábado, e minha mãe arrumava as filhas e os mantimentos do passeio. Eu ia vestida de boneca: vestidinho bordado, calcinha de babado, pulseirinha de ouro […]

Uma menina mimada, portanto, mas não imune aos mistérios do mundo e aos percalços da vida, já que a morte do título envolve  a garotinha numa série de questionamentos sobre o sentido e o fim da existência. Indagações que vem aos borbotões depois da morte do avô, num suicídio ao estilo Hemingway:

Como terá sido o momento da morte do meu avô? O avô perguntou a si como é esse sentir a morte por dentro? Ou nunca perguntou nada porque sempre sentiu? Foi morte vista, assim premeditado? Ou apenas sorriu e atirou contra seu próprio rosto? O que viu o avô na hora da morte? O que sabia o avô? Sabia a imagem fragmentada do seu cérebro voando pelos ares, uns pedaços que escapavam ao universo, tão velozes como os raios do sol? Ou sabia o seu rosto hipnotizado diante do cano? Assustado ou clemente esteve o olho do avô?  Como o avô haveria de ter deixado a boca? Havia boca ou a boca fugiu do contato tão íntimo com o rifle? Ficou nervoso e sorriu? Viu sua hora com um sorriso?

Ainda ensimesmada com a morte, a garotinha cheia de vida intuía que o avô que tanto amava e com quem se divertia com uma cumplicidade de jovens amigos, “tinha o domínio do universo, da coisa maior e triste que iguala todos os homens, essa tal morte”.  Mas, o que era a morte para a garotinha vivaz?  O mesmo que  significava para seu avô, “a coisa mais importante da vida”, para a qual “tudo caminhava”, “a terceira personagem da nossa história”, que estaria presente sempre, “de uma forma ou de outra, dentro de mim e dele”.

Matuto, roceiro, expansivo, carinhoso  e  de pouca instrução, o avô tinha o conhecimento empírico  do homem acostumado ao contato direto com a natureza, sem a mediação intelectualizado dos livros e dos estudos. Sabia reza. Conhecia as artimanhas dos bichos, o valor das ervas medicinais e possuía um apito que, na caça,  atraía os pássaros  e as aves. Todo esse cabedal atávico fascinava e enredava a garotinha num mundo paralelo e mágico, a terra prometida da infância e dos sonhos.

Judiciosa, a menininha tinha um método infalível para separar o joio das coisas ruins do trigo de tudo aquilo que  valia à pena conservar:

Eu sempre gostei de brincar. A coisa que eu mais gosto até hoje é de brincar. Por isso, inventei a brincadeira das ruas. Minha rua tinha um esgoto aberto, uma grota. Um plano inclinado, cheio de água suja, entre duas paredes de cimento. E também tinha uma imensa casa pública de banhos do lado de uma piscina. Alguns chamavam a minha rua  de Rua dos Banheiros. Outros chamavam a minha rua de Rua da Grota.

[…] E, por causa das ruas, inventei uma brincadeira: as coisas boas que me aconteciam, eu jogava na rua do banheiro, perfumado de eucalipto. As coisas ruins, que serviam para a gente guardar amargura de quem a gente gosta ou deveria gostar, eu jogava na rua da grota, para se banharem com as muriçocas. As coisas que tinha dúvida eu não jogava em lugar nenhum, para depois eu não me arrepender. Ainda eram aromas desconhecidos.

Oxalá, o sistema judiciário funcionasse com essa simplicidade, idêntica ética e igual infalibilidade!

A comunhão do avô com a natureza é total, harmônica como um cântico panteísta.Por isso, o velho “rezava no meio do mato, andando, cantando, na plantação ou no pasto, de forma que ninguém entendia muito o que ele dizia…” E rezava alto “para ter contato com árvore, passarinho e mandioca”. Todas as coisas estão impregnados do sagrado e do profano:

Nas plantas tem o diabo e tem Deus. Um urtiga mata de coceira – é folha do diado. Urtiga vermelha em infusão de chá tira a impureza do sangue – é erva de Deus. Se em todas as coisas viventes há os dois, em todas as coisas morrentes há também os dois?  Pode ter o diabo nessas coisas de saber o dia emque se vai morrer. Mas o diabo pode ter participação pequena, porque tem um Deus bem grande nessas coisas, uma sabedoria infinita.

Como na conhecida teoria  de Tchekov, a espingarda que irá matar o avô é vista muito antes do desfecho trágico, quase manuseada pela menina dentro de um velho baú. No capítulo que trata de uma encenação livre do clássico Odisseia, de Homero, que o avô assiste com a alegria de um menino que manueseia  um brinquedo novo, há um pequeno equívoco, que, em nada tira o brilho da passagem do romance: o time de futebol da Bahia que veste as cores, rubro-negras, “as cores de Exu, o orixá que abre os caminhos”, é chamado de Vitória Esporte Clube, quando, na verdade, é Esporte Clube Vitória. Portém, é querer muito obejtividade, num terreno subjetivo como o DNA dos gnomos e das fadas.

Além da compsição dos personagens, o estilo e  linguagem também acentuam as diferenças entre Moinhos e O homem que sabia a hora de morrer. A linguagem de Mayrant Gallo é direta, como uma flecha certeira que logo atinge o alvo. O estilo econômico, conciso, meticuloso, um trabalho de carpintaria que desbasta as palavras como um marceneiro, com  enxós, desgasta a madeira. Já Adelice fabula, alonga a cena, como se as palavras brincassem em círculo e fluissem como um rio onde, lenta e segura, a história vai desaguar na foz do faz-de-conta.

O menino de  Moinhos amadurece precocemente, no sofriento do pai que também é o seu próprio padecer. A menininha de O homem que  sabia a hora  de morrer – livro que merece a rua do banheiro – cresce com a morte, eterna habitante da rua da grota.

Anúncios

Comentários»

1. Lidi - junho 11, 2012

Elieser, também lembrei do filme de Vittorio de Sica ao ler “Moinhos”. Novela bela demais, tocante, dolorosa. Aliás, “Três infâncias” é um dos meus livros preferidos. Nos revela a verdadeira infância, feita de brincadeiras e de dores. Quando ao livro de Adelice, “O homem que sabia a hora de morrer”, ainda não o li. Mas a sua resenha me deixou bastante curiosa. Um abraço.

2. Josimeire Brazil - junho 27, 2012

Sou Josimeire Brazil, sou mestranda da UEFS e pesquiso a Obra de Vasconcelos Maia. onde posso encontrar o seu livro sobre Vasconcelos Maia?

3. heitor villas boas - agosto 9, 2012

será que esse livro de AS merece a rua do banheiro? Achei-o infantil, enrolado (na parte que vem aquelas histórias folclóricas é um porre), previsível; repleto de perguntinhas clariceanas, não convence.
não se pode comparar um livro desse ao de Mayrant: este sim maduro, com sintaxe clara e direta, sem epifanias baratas.


Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: