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A TERRA DAS MULHERES BARBUDAS agosto 8, 2012

Posted by eliesercesar in Contos.
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1. A TURMA DO CHATO

Há muito tempo, perto daqui, havia  uma cidadezinha muito bonitae chamada  Pelândia. Lá as flores eram mais cheirosas, céu mais iluminado de estrelas e os doces muito saborosos do que os bombons de outros lugares. Em Pelândia morava um velho muito sábio, Gaspar. Ele conhecia todos os segredos da floresta, sabia fazer ótimos remédios com as ervas e raízes e dominava todas as palavras estranhas que os bichos usavam para falar uns com os outros. Quando uma pessoa caía doente na cidade, alguém se lembrava logo de subir ao Morro do Cisne Branco e ir à gruta onde Gaspar morava, em busca de remédio. O velho preparava um xarope na horinha. O remédio caseiro curava qualquer doença: dor dente, de barriga, de ouvido, de cabeça, qualquer tipo de dor.

Gaspar tinha uma barba que já dava nos joelhos, mas sua cabeça não tinha um fio de cabelo, era carequinha que nem um ovo. Ele nunca fazia a barba porque gostava muito dela. Passava muito tempo alisando-a e pensando em como era ruim morar na cidade, como todo o barulho do povo nas ruas e dentro de casa.

Em Pelândia moravam também uns meninos traquinos. Eles formavam “A Turma do Chato”. Chato era o chefe daquele pequeno grupo de malandros, crianças que não gostavam de estudar, de ajudar os pais, só de arreliar os outros e aprontar confusão. Chato era um garoto perverso, pois, todo o dia, dava cascudos nos meninos mais fracos, inclusive nos da sua turma, xingava um monte de nomes feios e, na escola (quando resolvia ir para a aula) roubava a merenda das meninas. Os meninos mais comportados não queriam conversa com ele. Por isso, apanhavam sempre que tinha o azar de encontrá-lo na rua.

Além de Chato, quatro meninos integravam a turma do barulho: Corró, grande mentiroso, andava dizendo que podia engolir brasas como um sapo, mas ninguém nunca viu ele fazer isso; Sapeca, tão folgado que tinha até preguiça de abrir os olhos quando acordava, e os irmãos Zezinho e Pedrinho, que só iam à escola para comer a merenda.

2. NO MORRO DO CISNE BRANCO

Um dia,  Chato chamou sua turma para subir ao Morro do Cisne Branco, assim chamado porque uma rocha,  limada pelos anos, formava a imagem de um cisne. Só na entrada da gruta de Gaspar, o líder do grupo contou seu plano aos quatro companheiros de malandragem. Todos acharam a idéia legal e, naquela mesma tarde, aproveitando que Gaspar dormia um sono de pedra, cortaram a barba do velho e saíram de mansinho, sem fazer barulho, temendo que o eremita pudesse despertar num passe de mágica e reduzi-los a pó, já que, além de milagreiro, ganhara também a fama de grande feiticeiro.

3. A VINGANÇA DE GASPAR

Quando acordou e procurou sua barba para coçar, Gaspar só encontrou uma indigna barbicha de bode. Grande foi o seu abatimento. Depois de muito chorar e ainda mais zangado, pegou uma caldeirão  de água fervendo e misturou umas ervas desconhecidas com um fio do que restara de sua barba de profeta bíblico. Fez uma estranha garapa e despejou o conteúdo do caldeirão no rio que abastecia a cidade.

Todas as mulheres de Pelândia beberam a água do rio com o feitiço de Gaspar. Amanheceram barbudas, com uma barba maior do que a do velho do Morro do Cisne Branco. Gaspar sabia que não foram elas que cortaram sua barba e que aquilo era coisa de moleques desordeiros; mas esperava que o castigo infligido às mulheres fizesse os verdadeiros culpados aparecerem.

As mulheres ficaram muito feias, parecendo até um bando de homens, a ponto dos maridos as rejeitarem em casa e os pais, irmãos e filhos desviarem  os olhos diante daquela visão grotesca. Desesperadas, elas passaram faca, tesoura, navalha e até caco de vidro na barba, já com longos fios emaranhados e nada das grandes tranças saírem do queixo. Alucinada, uma mulher chegou a tocar fogo na barba e nada da bicha queimar. Até uma menina nasceu com uma barbinha, ainda rala, mas promissora, naquele que deveria ser um queixo liso de bebê e não a queixada  de infante peludo.

4. ARREPENDIMENTO SINCERO

Os dias foram passando. Quando a barba das mulheres já estava batendo no chão e ninguém mais suportava a inhaca de bode que desprendia dela, Chato, que era malandro, mas não era nenhum burro, reuniu sua turma e disse que o feitiço que atormentava diretamente as mulheres e, indiretamente, a todos na cidade, só podia ser arte de Gaspar. O grupo de meninos subiu de novo ao Morro do Cisne Branco. Desta vez para pedir perdão ao velho feiticeiro. Ninguém agüentava mais as mulheres barbudas. Só na casa de Chato havia cinco: a mãe, uma tia, as duas irmãs e a avó, se bem que esta já tivesse bigode há muito tempo, coitada!

Quando chegaram à gruta, os meninos encontraram Gaspar sentado numa pedra, ensinando as quatro operações matemáticas a um calango verde. Chato interrompeu aquela aula inútil; afinal, por que cargas d’ água um calango verde deveria aprender a somar, diminuir, multiplicar e dividir os números e ainda, de lambuja, fazer a conta dos nove? Só se fosse para roubar os outros bichos…

Chato não perdeu tempo e disse logo a Gaspar que foram eles que cortaram a dele, pediu que o velho os castigasse, mas fizesse desaparecer a barba nas mulheres. Gaspar contou que sabia de tudo desde o começo e que somente o arrependimento sincero dos meninos poderia devolver a sua barba e quebrar o feitiço nas mulheres. Como castigo raspou a cabeça dos cinco garotos e mandou  que voltassem em um ano, para lavar o coco com uma xampu especial feito com flores silvestres. O velho despachou os meninos e garantiu que, no dia seguinte, a barba sumiria do queixo das mulheres.

Assim foi. Na manhã seguinte, já sem barba, até a mulher mais feia de Pelândia se sentia esplêndida como uma princesa de contos de fada. Aos prantos e beijos,  os maridos se reconciliaram com as esposas, os casais voltaram a namorar e a paz retornou aos lares.

5. COMPORTADOS, MAS NEM TANTO.

Um ano depois, Chato, Corró, Sapeca, Zezinho e Pedrinho  subiram mais uma vez ao Morro do Cisne Branco. Encontraram Gaspar sentado na mesma pedra, ensinando Geografia para o mesmo calango verde. Mas, para que diabos um calango verde vai querer saber onde fica a Turquia, se não sai do lajedo onde toma sol ? Huuummm, esse Gaspar tem cada uma, pensou Chato, dando de ombros.

Gaspar passou o xampu na cabeça de cada um dos meninos e os cabelos deles cresceram  instantes depois. Em seguida, avisou que cada vez que a “Turma do Chato” procurasse encrenca, os garotos perderiam os cabelos que nasceriam no queixo das mulheres. Com medo da ameaça, os meninos evitaram  traquinagens, sobretudo com o velho do Morro do Cisne Branco. Passaram a ser comportar melhor em casa, na escola e na rua, mas continuaram aprontando um pouco; afinal, ainda eram crianças.

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