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Pra ver a banda passar…. setembro 17, 2012

Posted by eliesercesar in Reportagem.
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Com dificuldades, muita afinação e mantendo a tradição, as filarmônicas resistem na Bahia, principalmente no Recôncavo.

Harmônicas, afinadas, disciplinadas e, acima de tudo expressão genuína da arte popular, elas são o orgulho das pequenas e médias cidades interioranas, ao levar música e alegria para as ruas. Só mesmo um coração emperdenido pela mais completa insensibilidade, para não gostar ver a banda passar, tocando coisas de amor, como diz A banda, a  poética canção de Chico Buarque, referindo-se, por extensão, a todas elas: as filarmônicas, essas prima pobres das grandes  orquestradas sinfônicas que, ao invés dos grandes teatros e dos conservatórios de música, tocam nas pracinhas, nos coretos, nas quermesses, nas festas cívicas, como o 2 de Julho e em qualquer lugar onde haja um audiência atenciosa e disposto a se deixar transportar pela música que acalenta o espírito e enriquece a vida.

Que adulto, ou mesmo criança, na capital e no interior do Estado, nunca viu uma banda filarmônica tocar, com seus músicos de farda engalanada e seus instrumentos metálicos reverberando à luz do sol ou iluminados pelas lâmpadas da noite e pelo brilho da lua? Que pai ou mãe, à moda antigas,  não pegou pela mão do filho pequeno e o levou para ver a banda passar, fazendo a menina toda se assanhar, ao ver a banda passar, tocando coisas de amor?

Pois, na Bahia, com todas as dificuldades financeiras para a sobrevivência dessas bandas, a compra e renovação de instrumentos musicais e a manutenção dos músicos, as sociedades filarmônicas. Elas sobrevivem e resistem, impulsionadas pelo amor à música e protegidas pela padroeira dessa arte que já nos legou uma legião de mestres, de Beethoven (na composição erudita), a  Louis Armstrong (no jazz), passando também pelo nosso Pixiguinha: Santa Cecília, cuja comemoração ocorre em 22 de novembro.

A Bahia é uma das terras onde as filarmônicas ainda conservam uma intensa atividade e a pujança dos períodos áureos da segunda metade do século XIX  a meados do século XX. O jornalista Jorge Ramos, autor do livro O  Semeador de Orquestras – História de um maestro abolicionista (Solisluna,2011), sobre a trajetória do músico Manuel Tranquilino Bastos (1850-1935), talvez o maior maestro da história das filarmônicas baianas, revela que a bahia é o Estado brasileiro com o maior número de filarmônicas centenárias, mais de 25, superando Minas Gerais, outro terra tradicional desse tipo de  banda de música.

Um dos maiores incentivadores das bandas do interior da Bahia e fundador da Oficina de Frevos e Dobrados que, em 12 de novembro completa 30 anos de existência, o maestro Fred Dantas (ver box sobre a trajetória dele)  conta 160 filarmônicas em atividade no Estado. Ele afirma que as melhores são da de Cachoeira e de Ipirá, “que não deixam o nível musical cair”. Elogia também a Terspíscore, de Maragogipe e a Minerva, de Morro do Chapéu, por promover um festival de filarmônicas da Chapada Diamantina. Outro destaque é para Filarmônica Copioba, de São Felipe.

Durante 20 anos, o Governo do Estado, através da Fundação Cultural do Estado da Bahia (Funceb) ajudava as filarmônicas, mas o pequeno subsídio foi cortado para apoiar as bandas juvenis que dão mais retorno midiático. “Precisamos que aparece um secretário de Estado, uma pessoa notável que dissesse que as filarmônicas fazem bem às cidades”, torce Fred Dantas. A última ajuda oficial para essas bandas variou de R$ 26 mil a R$ 30 mil para cada sociedade filarmônica. E pronto! Se virem…Algumas conseguiram se virar, como a filarmônica de Caravelas, no sul da Bahia, que conseguiu patrocínio do Instituto Votorantim e a de Jacobina, que obteve o apoio de uma mineradora local.     ,

Natural de Ipirá, Jorge Ramos, o Jorginho, foi criado na terra das filarmônicas por excelência, Cachoeira, naquela cidade, às margens do rio Paraguassu e centro da resistência nativa durante a luta pela Independência da Bahia, sobrevivem, atuantes, duas das principais filarmônicas centenárias da Bahia: a Sociedade Orphéica Lyra Ceciliana e a Sociedade Lítero-musical Minerva, rivais, mas unidas no memso ideal de manter acesa a chama da m´suica instrumental de raízes populares na Bahia.

Jorginho diz que, pelo trabalho social que sempre exercerem ao longo da história e por terem representado “a maior estrutura fora do poder oficia, as filarmônicas são as precursoras da ONGs modernas”. No seu livro, o jornalista e escritor descreve o a papel das filarmônicas, que faziam também assistencial social:

As filarmônicas sempre tinham uma importância significativa  na vida cultural, social e política de suas cidades e regiões. Eram instituições que para além da execução musical, representavamespaço de convívio social para o exercício da atividade intelectual, algumas mantendo salas para biblioteca e salões para declamação de poesia e até para atividades dancantes.

Doutorando em composição pela Escola de Musica da universidade Federal da Bahia (Ufba), Alfredo José Moura de Assis calcula que, hje, as filarmônicas ensinam música e cidadania a mais de 9 mil baianos, entre alunos e músicos. “Prestam essas orientações gratuitamente, capacitando-os como cidadão e profissionais, ampliando as suas possibilidades de socialização e inserção no mercado de trabalho”, ressalta o doutorando Ele acrescenta que as diretorias dessas instituições “interessavam-se pela criação de bibliotecas e de salas para a audição de poemas e apresentação de dança”.

O músico informa que a história das sociedades filarmônicas remonta à chegada da Família real ao Brasil, em 1808, quando a Banda da Armada Real de Portugall, um conjunto musical muito conhecido na Europa,  acompanhou Dom João VI e sua corte. “À época, atuavam no país as pequenas orquestras de cordas e coros destinados ao ambiente das igrejas. A música dita das ruas era feita pelas bandas de barbeiro, que executavam instrumentos de sopro”, revela Moura de Assis.

Segundo ele, a primeira filarmônica criada na Bahia foi a Sociedade Filarmônica Erato Narazareno, ainda atuante e fundada en 1863 em Nazaré das Farinhas, a partir do retorno dos soldados carabineiros que integravam o Batalhão 42, da 2ª linha, durante a Guerra do Paraguai.

O caráter social das filarmônicas é acentuado também pela criação de escolas que serviam de iniciação musical para jovens e criança. Nessas instituições, o pequeno aprendiz de músico recebia um instrumento musical. Se demonstrasse um bom desempenho, ganhava a farda que servia de ingresso para a filarmônica local. Daí, desenvolvida seu talento e, muitos deles, ganhavam o mundo, como conta, de Cachoeira,  o professor aposentado Raimundo Cerqueira, de 71 anos, presidente da Lyra Ceciliana de 2003 a 2011 e atual presidente de honra da instituição.

Fundada em 1870 por Tranquilino Bastos, compositor, arranjador e instrumentista que foi maestro ainda da Lyra São Gonçalense, de São Gonçalo dos Campos e da Sociedade Victória, em Feira de Santana, a Lyra Ceciliana mantém a Escola Irineu Sacramento, substituto do fundador da filarmônica e cognominado de “O trompete de veludo”, pelo seu virtuosismo ao tocar o instrumento como um Louis Armstrong do recôncavo baiano. A escolinha como é carinhosamente chamada em Cachoeira tem  matriculadas 150 crianças, a partir dos 7 anos, quando começa a desperar a vocação musical. De lá sairão futuros músicos para manter vivas das sociedades filarmônicas, integrar orquestras sinfônicas ou fazer carreira solo.

“Temos músicos no Brasil inteiro e até no exterior, como a Alemanha”, orgulha-se Raimundo Cerqueira. Ele cita um exemplo de virtuose formado dem  Cachoeira para o mundo sem fronteiras da música instrumental: Dilton Azevedo, hoje servindo na Aeronáutica em Salvador, “um compositor nato, músico polivalente, que substituia outro instrumentista, quando necessário e que, aos 13 anos, sem ter frequentado escola de música, compôs um dobrado premiado e, hoje, tem um CD que corre o mundo”.

Outro orgulho do Professor Raimundo é o grupo de chorinho Chorões do Recôncavo que ele próprio criou, há oito anos dentro da Lyra Ceciliana. Agora, o maior orgulho mesmo foi ver a Lyra receber, das mãos do Presidente Lula, no Teatro Municipal do Rio de Janeiro, a Medalha do Mérito Cultural. Outra homenagem está por vir: O Conselho Universitário da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFR), com campus em Cachoeira, aprovou a escolha do nome do maestro Tranquilino Bastos para batizar o auditório da instituição, com 171 lugares.

O presidente de honra da filarmônica cachoeirana defende a ação social das filarmônicas como u meio de encaminhar os jovens para uma vida digna, de trabalho honesto. Amor pela arte e respeito aos mestres. “A juventude brasileira precisa de muito apoio  e d emuito estímulo para que o crack não tome conta de boa parte dela”, prega, lembrando um vício que tem destruído o futuro de muitos jovens brasileiros.

Relembrando seus pupilos, Raimundo Cerqueira conta, orgulhoso de sua prole musical: ‘tenho mais de cem filhos”. Sem falar nos 40 músicos que, hoje, integravam a Lyra Cecilliana.  Em levantamento feito até 2000, ele  apontava a existência de 121 filarmônicas e 31 liras na Bahia. “Hoje, não há um levantamento preciso”, garante. Outro motivo de orgulho para o velho mestre é o fardamento das filarmônicas, “sempre alinhado e de bom gosto”.

Há ainda um terceiro motivo para o professor se orgulhar; a Lyra ceciliana participou da novela Equador, baseada no livro homônimo e….transmitida pela TV Brasil, com gravações em antigos engenhos de açúcar de Cachoeira. “A Lyra mora na minha mente e no meu coração”, emociona-se Raimundo Cerqueira..

Despertado para a importância artística e social da filarmônica quando se casou com Aninha (hoje, Ana Borges Ramos), cachoeirana da gema e criada por Áurea, a Dona Senhora, filha mais velha do maestro Tranquilino Bastos, cuja trajetória resgataria muitos anos depois, Jorge Ramos informa  que as filarmônicas, em suas escolas, “formavam novos quadros, aplicando no processo educativo a disciplina e o respeito reverencial dos aprendizes aos mestres”. Jorginho ressalta que “ser músico  era uma opção de futuro profissional para muitos jovens, e, enquanto aprendiam, podiam se dedicar a outro ofício no comércio”.

Para  escrever seu livro, o jornalista e cronista das filarmônicas cachoeiranas  estudou o contexto político, social e econômico do recôncavo baiano entre 1850 e 1930, intervalo que ele denomina de “período de ouro das filarmônicas”. “Ser presidente de uma sociedade filarmônica dava um grande prestígio social, como o intelectual da vila”. Por isso, o músico, admirado e respeitado convivia “nos mesmo ambiente com os mestres respeitados em suas comunidades, juízes de Direito, advogados, médicos, fazendeiros, comerciantes, coronéis, funcionários públicos, jornalistas e poetas, muitos com veleidades intelectuais e até citados na imprensa local”.

Em o Semeador de Orquestras, Jorge Ramos aborda ainda a grande rivalidade entre a Sociedade Orphéica Lyra Cecilina e a Sociedade Lítero-musical Minerva. “As duas instituições representavam grupos políticos rivais. A Lyra era liberal. A Minerva conservadora. A primeira representava os abolicionistas. A segunda, os senhores de engenho. A Lyra se filia á Irmandade de Santa Cecília. A Minerva professa a Irmandade de Nossa Senhora da Ajuda”, diferencia o escritor e jornalista.

A rivalidade, no entanto, não impedia que as duas filarmônicas participassem das comemorações de todas as festas religiosas e cívicas da comunidade e animassem biales públicos, exibindo-se nso coretos. Conta Jorginho:

Durante muitos anos, em Cachoeira, por exemplo, a Lyra e a Minerva se revezavam em retretas dominicais, sendo pagas pela municipalidade, que assim propiciava uma atividade saudável na cidade e, ao mesmo tempo, ajudava-as na manutenção de suas atividades […]

Ligadas às  irmandades católicas, as mulheres tinham uma presença ativa na vida das filarmônicas. Elas organizavam passeios para a festa das padroeiras  das outras cidades ou mesmo para simples recreação. Assim, como conta Jorge Ramos:

De Cahoeira, a Lyra e a Minerva seguiam de navio para Maragogipe, Salinas da Margarida e até para Salvador. De trem, iam para São Gonçalo, Santo Amaro e Feira de Santana. Esses passeios eram animados pelos músicos das própria filarmônica conforme fosse o grupo ou a irmandade a que pertencessem seus maridos e filhos”

Rivalidade, sim; mas com civilidade. Tanto que, diplomaticamente, tanto a Lyra quanto a Minerva  se apresentava no aniversário da concorrente e em outras comemorações pelas ruas de Cachoeira, “numa clima de convivência mais ou menos pacífico”, como define Jorginho.

A disputa entre as sociedades filarmônicas é natural e até boa para que se mantenha a qualidade da música, cada uma  se esmerando mais do que a outra. Tudo para que, em qualquer recanto da Bahia, se possa ainda ver a banda passar, de preferência tocando de coisas de amor.

BOX

Deram um trombone ao menino, a iniciação musical do maestro Fred Dantas

Adeus tudo o que é Deus,

Deram um fuzil ao menino

(De um poema do baiano Firmino Rocha (1919-19710), gravado em bronze na sede da ONU, em Nova Iorque)

Fred Dantas e o inseparável trombone.

Como o Coronel Aureliano Buendia, do romance  Cem anos de solidão, do colombiano Gabriel Garcia Márquez, Nobel de Literatura de 1982, que mesmo diante do pelotão de fuzilamento haveria de se lembrar do dia em que o pai o levara para conhecer o gelo, o maestro Fred Dantas jamais esqueceu a primeira imagem de uma banda de música. “Foi a banda do Véio Macedo, que vinha da cidade de Espinosa (MG), tocar em Urandi”, relembra, muitos anos depois”, o criador da oficina de Frevos e Dobrados.

Logo depois, outra experiência marcou a infância do maestro baiano e sua opção pela música de filarmônica. A criação da Banda de Caetité, terra do educador Anísio Teixeira, tendo à frente o maestro Álvaro Villares Neves. Tocando flautim. Toda esta iniciação de Fred Dantas e seu rito de passagem para a música instrumental é contada num emocionado artigo (“Filarmônica que em mim mora”), depoimento escrito para o curso de Doutorado em Música pela Ufba, ainda em andamento e feito com o objetivo de “investigar a poética musical das bandas filarmônicas com o contexto social onde atuam”.

“Ainda hoje posso ver na memória o semblante e comportamento de cada um dos integrantes da Banda de Caetité, como o trompetista Zé Carlos, homem negro de bigodinho, magro, com postura de jazzman de New Orleans, o trombonista Tengo, o tubista Frederico, o tocador de pratos Luís Bicudo, Bié, tocando seu bumbo e, completando o grupo, o acordeonista João de Deus, suprindo a falta das trompas ao fazer as harmonizações de centro”, visualiza o maestro.

Tempos depois, o prefeito de Urandi, Diógenes Baleeiro, resolveu criar uma banda na cidade,   estreou em 7 de setembro de 1972, sob a regência de Joçao Sacramento Neto,  e funcionou até a 1975. Fred Dantas ingressou na banda com apenas 11 anos de idade. Aos 14, quando o maestro João Sacramento foi criar um novo grupo musical em Porteirinha (MG), o adolescente Fred Dants ficou no comando da Banda 21 de Abril, de Urandi,  se apresentando nas festas, procissões religiosas, nas disputas esportivas e até em cortejos fúnebres.

Quando concluiu o ensino fundamental, aos 15 anos, Fred veio para Salvador estudar no Colégio 2 de Julho. Passou a cursar medican na Ufba, mas a música já o havia fisgado, desde o dia remoto em viu a Banda de Caetité. Durante o prolongada greve na Ufba, trouxe para Salvador seu trombone que deixara em Urandi. Foi convidado para tocar no Sexteto do Beco, no Teatro Castro Alves. Então, desistiu do curso de Medicina e fez Composição e Regência O consultório perdeu seu doutor. A música ganhou seu maestro das ruas.

Em 1982, Fred Dantas cria Oficina de Frevos e Dobrados, sua própria filarmônica, prestes a completar 30 anos, exatamente dez antes do 22 de novembro, dedicado a Santa Cecília. “Serão dez dias de festa”, promete. Se alguém perguntar ao maestro qual a mais importante filarmônica da Bahia, ele tem uma resposta aguda como uma nota musical: “A mais humilde, que ainda está engatinhando, pois, com ela, caminha a tradição”.

Fred Dantas foi responsável pelo Festival de Filarmônicas do Recôncavo, no Centro Cultural Danneman, em Muritiba, evento que acabou, “por insegurança de seus tradicionais patrocinadores”, segundo o maestro. Mas, mantém ainda, sob a sua batuta,  o Encontro de Filarmônicas no 2 de Julho, que, este ano, completará 20 anos desfilando pelas ruas de Salvador, da Lapinha ao Campo Grande.

Se na próxima comemoração da Independência da Bahia, alguém se deparar com Fred Dantos e perguntar: “E, aí, maestro, que fliarmônica mora dentro de você?”.

Pode apostar que ele vai responder:

– A banda do mestre Álvaro, de Caetité.

(Reportagem publicada, originalmente, na revista do Colégio Oficina, de Salvador)

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