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NO ESCURINHO DO CINEMA novembro 28, 2012

Posted by eliesercesar in Reportagem.
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Cinematografia baiana resiste, apesar da fatla de incentivos oficiais e privados. Foram 32 filmes produzidos em uma década.

 

Já virou um lugar-comum afirmar que é difícil fazer cinema no Brasil e ainda mais trabalhoso produzir um filme na Bahia, por falta de recursos, sobretudo o patrocínio oficial. Porém, na primeira década deste século, com a chamada “retomada do cinema brasileiro”, com um elenco estelar de longa metragens como Cidade de Deus (2002), de Fernando Meirelles, Carandiru (2003), de Hector Babenco e, mais recentemente, Tropa de Elite 1 e 2, de José Padilha, a cinematografia nacional experimentou uma espécie de “boom”e passou a atrair enormes platéias às salas de exibição.

Somente Tropa de Elite 2 (2010), com o destemido Capitão Nascimento, interpretado, de forma visceral,  pelo ator baiano Wagner Moura, foi visto por 11 milhões de brasileiros nas salas de cinema, sem contar o público das locadoras e  dos DVDs piratas. Já a comédia, um tanto besteirol, Se eu fosse você 2 (2009) foi assistida por 6,3 milhões de pessoas. Lá na ponta da retomada do cinema brasileiro, uma platéia de 3,3 milhões de expectadores foi aos cinemas ver Cidade de Deus, um público bem menor do que os 4,7 milhões que prestigiaram Carandiru. O filão espiritual ajudou a engrossar as filas dos cinemas e, em 2010, com Chico Xavier, de Daniel Filho,  com a promessa de um mundo melhor depois da morte, emocionou 3,4 milhões de assistentes.

Ou seja: em uma década o cinema brasileiro formou uma novo público que não era mais o expectador exigente do filme cult e  cerebral do Cinema Novo, nem os interessados nas generosas curvas femininas exibidas nas pornochanchadas dos anos 70 do século passado. Um público mais próximo às produções hollywoddianas, às comédias  globais e, também, à realidade brasileira do início do século, que tem na violência das grandes  cidades o seu paroxismo urbano, como mostrou Cidade de Deus.

No perído da retomada, a produção brasileira alcançou 70 filmes, por ano, contra menos de cinco nos anos 90 do século passado, como informa o jornalista Franthiesco Ballerini, de 31 anos, autor do livro Cinema Brasileiro no Século XXI (R$ 75,90/304 págs), recém-lançado pela Sumums Editorial. Os anos 90 foram um período de ocaso do cinema brasileiro, empurrado para o underground da omissão e do abandono, pelo governo do Presidente Fernando Collor de Mello, um persoanagem à procura de roteiromque chegou ao ponto de extinguir a Embrafilme, a empresa estatal que fomentava a cinematografia nacional.

“No período Collor todo o cinema brasileiro esteve ameaçado”, recorda o cineasta baiano Guido Araújo, criador da jornada Internacional de Cinema da Bahia, que, em 2011, chegou à sua último edição, depois de uma longeva existência de 40 anos. Em artigo, intitulado Ponto final,  para a publicação digital Caderno de Cinema (http://cadernodecinema.com.br/blog/ponto-final/) , criada este ano pelo cineasta baiano Jorge Alfredo e em seu primeiro número, Guido explica as razões do fim da saga histórico da Jornada:  “Não cabe aqui fazer todo um histórico destes 40 anos da Jornada com suas conquistas, dificuldades, acertos e erros. Manter a Jornada por tanto tempo foi possível graças a algumas instituições e, sobretudo, a várias pessoas, cineastas, críticos, artistas plásticos, pesquisadores, estudantes, professores e componentes da equipe da organização do festival. É o momento de agradecer a esta legião de amigos da Jornada que apoiaram o evento e expressar a profunda saudade pelos inúmeros companheiros que já partiram, mas que estarão sempre presentes na memória de um evento que começou modestamente como baiano e terminou internacional, com forte repercussão sobretudo na América Latina e nos países africanos de fala portuguesa”.

Cinema na Bahia precisa de editais públicos

No compasso da produção nacional, o cinema na Bahia também colheu os frutos da retomada da sétima arte no Brasil e graças, principalmente a editais de produção e roteiro patrocinados pelo Governo do Estado,  em uma década foram feitos os principais  longa metragens: 3 Históriass da Bahia (2001) – Agora é Cinzas, de Sérgio Machado; Diário do Convento, de Edyala Iglesias e O pai do rock, de José Araripe Jr. – Samba Riachão (2001), de Jorge Alfredo; Cascalho (2004), de Tuna Espinheira; Esses moços (2005), de José Araripe Jr; Eu me lembro (2005), Edgar Navarro; A Cidade das Mulheres (2005), Lázaro Farias; Pau Brasil (2005), Fernando Belens; Filhos de João – O admirável Mundo Novo  Baiano (2009), Henrique Dantas; Jardim das Folhas Sagradas (2010), Pola Ribeiro, Trampolim Forte (2010), João Rodrigo; Antônio Conselheiro – o Taumaturgo Sertão (2010), José Walter Lima; O homem que não dormia (2011), Edgar Navarro; Bahêa, minha vida (2011), Mário Cavalcante, e Cuíca de Santo Amaro (2012), Joel Almeida e Josias Pires.

Porém, este foi apenas um trailer de uma filmografia coletiva que poderia ter um happy end de comédia romântica norte-americana, caso os editais para o setor não tivessem sido suspensos. “Há dois ou três não tivemos mais editais”, informa o crítico de cinema e professor da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia (Facom/Ufba), André Setaro. Sobre assunto, Setaro, um dos críticos mais respeitados do Estado, cunhou, há poucos anos, uma frase que criou atrito com o cineasta Edgar Navarro, ao afirmar que “os cineastas baianos são mendigos da boa vontade governamental”. “É triste, mas é verdade”, reitera o crítico e professor da Facom.

Ele acrescenta que a iniciativa privada baiana  não se interessa em investir em cinema e aponta outro grande problema dos cineastas da Bahia: a distribuição. “É muito difícil se conseguir uma distribuidora para fazer o filme ser exibido em outras praças. No Rio de Janeiro, por exemplo, o cineasta Cacá Diegues consegue parceria com as multinacionais e seu filme é exibido em toda parte”, observa André Setaro. Guido Araújo faz coro e também diz que “os editais estão atrasados”, mas assegura que, mesmo assim, “a meninada tem feito alguns filmes”.

Associação de cineastas reclama

A ausência de novos editais levou a Associação de Produtores e Cineastas da Bahia (APCBahia), presidida por Jorge Alfredo e criadora da revista Caderno de Cinema , a encaminhar, em 9 de novembro passado, uma carta ao governador Jaques Wagner, cobrando o retorno do patrocínio estatal para o setor. A principal reivindicação da entidade é “a implantação de  editais de cinema, como mola propulsora  de uma política de audiovisial que neecssita dar suporte à continuidade  de produção de filme longametragem na Bahia e incorpore recursos para as etapas iniciais de realização (pesquisa, roteiro e elaboração de projeto), produção (execução de projeto), finalização (complementação de longas) e distribuição”.

Só assim, acredita a APCBahia, “irtá fortalecer o mercado estadual para profisisonais de cinema em todas essas áreas”. Ainda no documento, os cineastas baianos lembram que, na Bahia, a vocação para o cinema “vem se consolidando ao longo de década, onde foi construída uma significativa filmografia que precisa ser mais conhecida e valorizada, com a porodução, em dez anos, de 32 longametragens.” Enquanto, a medida não chega, é como diz André Setaro, o jeito é mesmo estender o prato em busca de patrocínio.

“Empurrando com a barriga”

O cineasta Orlando Senna, também baiano, contemporãneo de Glauber Rochia, secretário nacional de Audiovisual no governo Lula e ex-diretor da TV Brasil, não gosta de fazer comparação com o cinema baiano atual e a época de ouro da cinematografia local (ver box). Ele vê uma geração de cineastas baianas “muito talentosa, como desde o Cinema Novo não existia” O cineasta diz que em todos os países emergentes e na maioria dos ricos o cinema depende  do governo, e no  Brasil não é diferente. Já José Umberto que está concluíndo Revoada, “um filme de ficção inspirado no cangaço”, resultado de um edital público  do Ministério da Cultura (MINc), de baixo orçamento,  indica como independentes os cinemas dos Estados Unidos e da Ìndia,

“A França é um nação desenvolvida em que o Estado mantém a sua produção cinematográfica, Mas, no Brasil, o governo nunca encarou o cinema de frente com vontade política. Não há um projeto nacional de cinema por aqui. A nossa política é míope e paliativa, como se empurasse um grande vagão com a própria barriga. O nosso mercado interno é um exemplo e invasão econômica-cultural, sobretudo do produto audiovisiual norte-americano”, acusa Umberto.

Com um  discurso terceiromundista, José Umberto prossegue afirmando que “o cinema só existe a partir do tripé  produção-distribuição-exibição”, enquanto essa trinca, no Brasil, “é controlada por fortes corporações internacionais chamadas majors, num contexto de caráter imperialista clássico”. Mesmo assim, para ele, a cinematografia na  Bahia se destaca  ao lado do Ceará, Pernambuco, Rio Grande do Sul e Minas Gerais, embora o eixo-Erio-São Paulo se constitua o principal  polo produtor no Brasil.

Como se investido do espírito contestador de Glauber Rocha, o diretor de Revoada afirma que “nós somos colonizados pelo glamour hollywoodiano desde os primórdios do século XX e que esta situação permanece igual até os nosos dias, numa situação de dependência aguda”. Por esta razão, José Umberto acha que os cineastas brasileiros “têm resistido heroicamente dentro do nosso próptio território na condição de estrangeiros

Neste mesmo contexto de dominação cultural, Orlando Senna, disse à revista Muito, publicação domincal do jornal a Tarde: “Todas as hegemonais ou tenativas de hegemonias são inimigas da multiplicidade.  Quem tem o monopólio tenta impor uma linha de produtos. É o que faz Hollywood, é o que faz a Globo, no Brasil, onde temos dois monopólios, um exterior, outro interior”.

Com ou sem monopólio, seja produção hollywoodiana ou nativa, o fato é que, na Bahia, nunca se asistiu a tantos filmes, ao ponto de Salvador se tornar uma das capitais com maior  renda de bilheteria, com mais de 30 salas de exibição e a construção de outras, a partir do fenômeno “multiplex”, aqueles cinemas de shopping, confortáveis e fast-foodianos, que parecem situados em  Los Angeles. “Já frequentei salas com 1.500 e 2.000 lugares, Hoje, elas têm, no máximo, 300”, diferencia André Setaro, um crítico que conhece muito bem o esurinho do cinema, do apagão da falta de recursos ao lusco-fusco de uma tela cheia. Outra iniciativa que vem se multiplicando são os curtas metragens da produçaõ digital. Mas,  como no tempo de Glauber Rocha, o bom cinema continua a depender, sobretudo, de uma câmara nas mãos e uma boa ideia na cabeça.

Boa sessão!

O nascimento do cinema baiano

Redenção, de Roberto Pires, foi o primeiro longa metragem feito na Bahia.

O  primeiro longa metragem baiano foi Redenção, iniciado em 1956 por Roberto Pires e exibido, em noite de gala, no cinema Guarany (atual Unibanco Glauber Rocha), na Praça Castro, em Salvador, em abril de 1956. O crítico André Setaro conta que o pai do cineasta tinha uma ótica, a Mozart, e nela Roberto Pires fez uma lente anamórfica igual ao equipamento  cinemascope, que o fascinara com o filme O manto sagrado. “Desde já, além de um pioneiro, ele foi um inventor”, define Setaro.

Segundo ele, nestam época as pessoas que se inetressavam por cinema na Bahia, como Rex Schindler, crítico do Jornal da Bahia,  e Gláuber Rocha se reuniam no escritório de Leão Rosemberg, em encontros que viriam a ser o embrião do Ciclo Baiano  de Cinema, com o sonho de dotar a Bahia de uma infraestrutura cinematográfica.

Depois surge a Escola Baiana de Cinema , uma associação de jovens cineastas e produtores, inicialmente dirigida por Luis Paulino dos Santos e depois por Glauber. Sem falar na importância de Walter da Silveira, o maior divulgador doi cinema na Bahia, á época, espécie de tutor cultural dos jovens cinéfilos. “Schindler, associado a outros produtores, produz Barravento, inicialmente dirigido por Paulino e, em seguida por Glauber, que reescreve todo o roteiro, em parecria com José Telles de magalhães. O filme só é lançado em 1962, logo após A grande feira, de Roberto Pires”, conta Setaro.

Conforme o crítico, a Escola Baiana de Cinema estabeleceu postulado com “cinema de raiz, com temática autótocne, como falar da sua própria aldeia que, segundo escritor russo Leon Tólstói, é o tema mais universal de todos. Em 1963, Glauber faz o faroeste sertanejo, com fortes imbricações na cultura e no misticismo popular, Deus e o diabo na terra do sol, com recursos captados na Copacabana Filme, produtora de Jarbas Barbosa.

Logo após, o cineasta de Terra em transe lança o Manifesto do Cinema Novo, no suplemento domincial do Jornal do Brasil. É o brado de independência terceiromundista, em busca  de uma estética distanciada dos padrões de Hollywood, com ecos do neorrealismo italiano, mas à procura de seu próprio caminho. “A Bahia se torna uma Meca do cinema, como diz o historiador renomado Georges Sadoul, no jornal Les Lettres Françaises. E se torna um polo aglutinador para cineastas que aqui aportam na esperança de explorar o seu décor deslumbrante”, diz André Setaro.

Em 1964, João Palma Neto, que fora feirante de São Joaquim, insatisfeito com A grande feira, faz Sol sobre a lama, abordando o drama social dos pequenos comerciantes de Água de Meninos. Outros filmes virão, como o Grito da Terra, de Olney São Paulo. Estava consolidado o Ciclo Baiano de Cinema. Nascia e prosseguia, forte e pujante, como um épico de guerra, o cinema na Bahia.

Festival abre janela a jovens cineastas

Não pensem que, apesar de todas dificuldades para conseguir patrocínio, fazer, distribuir e exibir um filme, os cineastas baianos se acomodam. Prova do ímpeto deles foi o II Festival de Cinema da Bahia (Feciba), realizado em Ilhéus, no sul do Estado, no ano passado, com recursos da Demanda Espontânea da Secretaria Estadual de Cultura (Secult). Foram, ao todo, 25 sessões de cinema, entre longas, médias e curts metragens, ou quase 50 filmes, dividos nas categorias atualidades, homenagem retrospectiva, sexualidade, competitiva e paralela.

Participaram do evento artistas como Cecília Amado (autora do recente Capitães da Areia), Dilson Araújo, Edgar Navarro, Roque Araújo, José Ararapie Jr e outros. O melhor curta ficou para Premonição, de Pedro Abib, que recebeu um prêmio de R$ 2 mil (pouco, não?) e um troféu. O II Feciba promoveu ainda 50 oficinas de Assistente de Direção e Interpetação para Cinema e Vídeo. O grande homenageado foi o escritor Jorge Amado, no ano de seu centenário.

(Reportagem publicada, originalmente, na Revista do Colégio Oficina)

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